[Os dias da semana]

Idoso, mas não idiota

| 20 Fev 2022

A transição digital não é positiva para muitos idosos, que se sentem excluídos de uma sociedade que acelera depressa demais. Foto © Camilo Jimenez on Unsplash

 

É muito provável que Carlos San Juan de Laorden seja hoje o urologista mais conhecido de Espanha, ainda que não tenha sido a prática da medicina a conferir-lhe tamanha e tão fatigante notoriedade. Disse ele que estava cansado por, desde há semanas, ter de atender constantemente os telefonemas dos meios de comunicação social. É esse o preço que, com certeza, não se importará de pagar por ter promovido um abaixo-assinado que até ao momento (18h00 de domingo) recolheu o apoio de quase 650 mil pessoas.

O que este médico valenciano e as pessoas que o secundaram pretendem é apenas que os bancos tenham em conta que muitos dos seus clientes são pessoas de idade avançada que têm muita dificuldade em acompanhar a transição digital que a pandemia veio acelerar. Em vez de disporem de agências bancárias, são forçadas a ter aplicações nos smartphones. A transição digital é sobretudo aliciante para os que mais lucram com ela: instalações devolutas e trabalhadores na rua são sinónimos de dinheiro acrescido na carteira dos gestores da banca. A conversa de chacha da “digilosofia” pode ser excelente para o marketing, os informáticos e os nativos digitais, mas é péssima para os mais idosos.

É essa denúncia que Carlos San Juan tornou agora audível. Indicando que tem 78 anos e está em condições de tomar decisões sobre as suas pensões de reforma, as suas economias e o que quer fazer com elas, explica que sente que o estão a incapacitar à medida que vão digitalizando tudo, obrigando-o a usar aplicações cada vez mais complexas. “Para um jovem, um procedimento digital pode não envolver qualquer esforço, mas, para muitos idosos, levantar dinheiro ou fazer uma transferência torna-se impossível se for por meio de uma aplicação”, diz o médico. Conta ele que chegou a sentir-se humilhado ao pedir ajuda num banco. Falaram-lhe como se ele fosse um idiota por não saber como concluir uma operação, acrescentando que tem visto outras pessoas receberem idêntico maltrato. “Dói muito sentir isso. Os mais velhos existem, somos muitos e queremos ser tratados com dignidade”. Também entre nós é amplamente conhecido este destrato e esta constante e perversa inversão de perspectiva que coloca os clientes ao serviço dos esquemas de enriquecimento dos donos dos bancos.

Carlos San Juan dá conta que tem conhecimentos de informática, que usa mais ou menos bem, mas conhece muitas pessoas que não sabem usar a tecnologia, muitas outras que estão sozinhas e sem alguém para as ajudar e outras ainda que têm filhos, sobrinhos ou vizinhos que não podem ficar o tempo todo à disposição.

A extraordinária mobilização e o eco mediático do abaixo-assinado fez surgir promessas de resolução do problema denunciado pelo urologista. A primeira vice-presidente do Governo e ministra dos Assuntos Económicos e Transformação Digital, que há dias escutou o pedido, prometeu ao médico que haveria mudanças favoráveis até ao fim deste mês.

Como Carlos San Juan notou, tendo em conta que, no primeiro semestre do ano passado, os cinco bancos espanhóis do IBEX35 (o principal índice de referência da bolsa espanhola) facturaram mais de 10.000 milhões de euros, o investimento para tornar as agências bancárias mais acessíveis não parece propriamente irrealizável.

“Por favor, assine para solicitar que os bancos atendam os idosos sem entraves tecnológicos e com mais paciência e humanidade. E que mantenham as agências abertas onde possam ser atendidos por pessoas… Que nem tudo seja através da Internet.” O apelo do médico espanhol tem de ser ouvido não apenas pelos bancos, mas por todos os que, ao incensarem a transição digital, fomentam desigualdades e excluem os mais velhos e – convém não o esquecer – vastos sectores da população que não possuem, nem podem ser forçados a possuir, os utensílios tecnológicos e as competências para os usar.

 

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