Ignorância útil

| 21 Nov 20

Alunos. Racismo. Escola

Alunos da Escola Eça de Queirós (Lisboa) depois de taparem inscrições racistas que apareceram na escola: a disciplina de Cidadania inclui a área de Direitos Humanos. Foto Agrupamento de Escolas Eça de Queirós.

 

A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento está nas escolas portuguesas desde 2018. No entanto, foi há cerca de dois meses que se levantou uma grande polémica em relação à obrigatoriedade da mesma, colocando em causa o papel do Estado na educação de matérias da responsabilidade educativa das famílias, tais como a Educação para os Direitos Humanos, a Educação Rodoviária, a Educação para a Igualdade de Género, a Educação Financeira, entre outras.

Analisando a polémica que envolveu a referida disciplina, não consegui detetar nenhum tipo de análise onde a preocupação central fosse o efeito real da introdução da mesma. Pelo contrário, tal como tem sido apanágio da sociedade atual, viu-se sim uma preocupação meramente ideológica, desprovida de factos e repleta de ideias identitárias. Todavia, colocando ideologias de parte e esquecendo dicotomias vazias, deveríamos questionar o real impacto destas disciplinas no sistema de educação português, assim como o seu reflexo na evolução da nossa sociedade a longo prazo. E por fim, questionar também a competência – exclusiva ou não, neste caso – das famílias para educar os jovens portugueses sobre estes temas.

Em 1862, foi publicado na revista Atlantic Monthly o ensaio do escritor Henry David Thoreau, com o título “Caminhada”. Numa das suas passagens, o autor escreve: “aquilo a que chamamos de conhecimento é muitas vezes a nossa real ignorância; e a ignorância, o nosso duvidoso conhecimento”. Apesar de ter sido escrito no século XIX, não posso deixar de contemplar a sua inegável atualidade. Neste ensaio, o escritor americano questionava a nossa falta de pensamento crítico como ferramenta para a evolução do próprio indivíduo, chamando a atenção para a excessiva preocupação com o conhecimento inútil, ou seja, aquele que pode produzir ou gerar lucro, sendo esta noção de conhecimento o ponto de partida para a análise que se segue.

Embora não concorde com a redutora visão de Thoreau face ao conjunto de conhecimentos que ele considera inútil, olhando com uma certa distância para as bases da sociedade contemporânea, podemos observar a disseminação do tal conhecimento “inútil”, como conhecimento único e essencial, contemplando uma total negligência face à “compreensão pela inteligência”. Penso que aqui é possível estabelecer uma analogia entre a noção de conhecimento de Henry David Thoreau e a nossa noção de conhecimento contemporâneo.

Tal como uma fábrica, somos compartimentados em secções de conhecimento ao longo das nossas formações académicas, tornando-nos especialistas de uma área ou de outra, por norma algo com que nem nos identificamos muito, nem sabemos bem porque escolhemos, mas certamente dará emprego. O sistema de educação atual retirou-nos a capacidade de olhar o mundo de uma perspetiva holística, formando cada vez mais jovens com um código de barras estampado no diploma, cheios de perspetivas de nada. Assim, somos apenas seres em modo automático, prontos a entrar na linha de produção. Sem questionar o caminho que escolhemos e que percorremos. Afinal de contas, foi isto que nos ensinaram.

Nesse mesmo ensaio, o autor apela à difusão da “ignorância útil”, referindo-se à abertura de espaço para a contemplação da vida por parte do ser humano. A capacidade de divagar entre pensamentos, o desenvolvimento do seu autoconhecimento, abrindo caminho para a elaboração do seu espírito crítico, que tanta falta tem feito à evolução das massas sociais. E assim, a consequente evolução da nossa sociedade, abrindo espaço para crescermos coletivamente.

Ora, voltando a centrar a nossa atenção em Portugal e nas questões que me trouxeram até aqui, podemos observar que há um claro progresso do ensino superior em Portugal, com cada vez mais jovens a seguir esta via. Esta evolução é, obviamente, positiva para o desenvolvimento do nosso país; no entanto, tal facto tem-se refletido apenas nos conhecimentos técnicos, ou seja, no conhecimento que visa o lucro.

Por outro lado, temos vindo a observar a decadência do pensamento político dos jovens portugueses e uma falta de participação cada vez mais evidente nos diversos movimentos cívicos; ou ainda a decadência das artes, nomeadamente, na área da literatura: de acordo com um estudo do Plano Nacional de Leitura e do ISCTE, em 2019, a maioria dos 7 469 inquiridos, dizia ler menos de 3 livros – por lazer – nos 12 meses anteriores ao inquérito. Concluiu-se nesse mesmo estudo que, quanto mais forte é a relação da família com a leitura, maior é a relação desses mesmos jovens com a mesma. Utilizando o exemplo dos hábitos de leitura dos jovens em Portugal, estarão assim as famílias aptas a usufruir de uma responsabilidade exclusiva, sobre matérias tão fundamentais, na construção dos valores de um jovem? Após a análise destes números, parece-me que essa exclusividade é, no mínimo, duvidosa. E apesar de toda a subjetividade inerente à diversidade das composições familiares por este país fora, parece-me injusto que os jovens que não têm um apoio familiar adequado nestas matérias sejam deixados à sorte de um sistema educativo insuficiente.

Observamos ainda o aumento da desinformação, da competitividade e da ansiedade. Resumindo, um aumento do vazio nos jovens portugueses e um futuro que cada vez lhes diz menos.

Podemos para já concluir que é necessário repensar o nosso sistema educativo, e consequentemente, repensar o nosso futuro. Assim, a introdução da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento deveria ser vista não como uma apropriação indevida de responsabilidades por parte do Estado, mas sim como um instrumento fundamental para a formação de cidadãos capazes de se desenvolver fora das suas competências técnicas, contribuindo com soluções eficazes para todos os problemas sociais e económicos do nosso país, seja com um voto informado, seja com a participação ativa na defesa dos direitos fundamentais mais básicos, seja na compreensão da finalidade e da importância do nosso sistema tributário.

O sistema de educação deve criar mecanismos adequados à formação de cidadãos capazes de pensar o mundo que os rodeia. E, para isso, é preciso que o compreendam. A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento apresenta-se como um bom ponto de partida.

 

Ricardo Guimarães é natural de Braga, onde se formou em Direito, e exerce a sua atividade profissional no Porto.

 

Precisamos de nos ouvir (25) – Fátima Almeida: A transfiguração do Desenvolvimento

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Há tempos e momentos que são mais propícios à reflexão e à interiorização, oferecendo-nos oportunidades de pensar, ou repensar, atitudes pessoais e realidades coletivas. E são estas oportunidades de refletir que, normalmente, nos abrem perspetivas de mudança, de ver novas formas de viver, de olhar novas respostas para combater injustiças, pobrezas e violações dos Direitos Humanos.

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Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net”

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No acórdão, datado de 14 de Janeiro (…), o STJ refere que o exercício da actividade doméstica exclusivamente ou essencialmente por um dos membros da união de facto, sem contrapartida, “resulta num verdadeiro empobrecimento deste e a correspectiva libertação do outro membro da realização dessas tarefas”.

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