Igreja alemã deu o primeiro passo no Caminho Sinodal

| 6 Dez 19

Imagem da página oficial da Conferência Episcopal Alemã sobre o “Caminho Sinodal”: depois de polémicas várias, o processo começou.

 

O cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, apresentou esta semana ao Papa e aos restantes membros do C-6 (o grupo de seis cardeais conselheiros de Francisco) o caminho sinodal da Igreja Católica na Alemanha, iniciado domingo passado, 1 de dezembro. De acordo com um comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, na reunião do C-6 que decorreu entre dias 2 e 4 (segunda e quarta-feira), no Vaticano, o cardeal Marx informou sobre o caminho e os temas que serão tratados nas diferentes sessões e trabalhos do processo sinodal.

Domingo, na catedral de Munique, o mesmo cardeal assinalou a abertura oficial desse “Caminho Sinodal”, como tem sido designado. Além de Reinhard Marx, também presidente da Conferência Episcopal Alemã, Karin Kortmann, vice-presidente do Comité Central dos Católicos Alemães, participou igualmente na cerimónia. Em simultâneo, ambos acenderam um círio decorado com o dístico do caminho sinodal. O mesmo aconteceu em quase todas as  catedrais da Alemanha.

Numa carta dirigida aos católicos alemães nos últimos dias de Novembro, assinada por Marx e Kortmann, que partilham entre si a presidência do “caminho sinodal”, faz-se um convite e um apelo a todos os católicos, no sentido de se tornarem portadores deste  processo, procurando juntos caminhos de futuro para a Igreja na Alemanha, tornando-a mais capaz de partilhar “as alegrias e esperanças, os medos e angústias das pessoas”.

O apelo é dirigido a todos os católicos porque os responsáveis estão bem conscientes de um duplo problema: a oposição de sectores e grupos conservadores; e o cepticismo de muitos outros, que, não duvidando da necessidade deste processo, temem que os resultados podem ficar muito aquém daquilo que a maioria dos católicos empenhados há muito vem exigindo e não poderão deixar senão de desiludir.

 

Minimizar o processo

De facto, este Caminho Sinodal, embora só agora se inicie, já fez correr muita tinta. Desde o momento em que a ideia foi lançada tem sido objecto de polémica e de controvérsia.

A começar pela própria Conferência Episcopal, onde uma minoria de bispos, com o cardeal Woelki, de Colónia, à cabeça, continua a manifestar as suas reservas e a tentar minimizar a dimensão sinodal, pondo em causa o valor da votação dos leigos. Depois de muita controversa, conseguiu obter-se uma solução de compromisso: as resoluções do Caminho Sinodal têm de ter o voto de uma maioria de dois terços de bispos. E, finalmente, todos os bispos serão livres de assinar e aplicar às suas dioceses aquilo que for votado nas assembleias sinodais.

Uma carta do cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos, datada de 4 de Setembro, chamava a atenção dos bispos para o perigo de se querer decidir na Alemanha questões que dizem respeito a toda a Igreja e que, portanto, estariam reservadas a Roma. Os sectores conservadores sentiam-se apoiados nas suas reservas e críticas ao Caminho Sinodal.

Já antes, a 29 de Junho, o Papa tinha dirigido uma carta ao “povo de Deus peregrino na Alemanha”, que foi objecto de interpretações contraditórias: enquanto uns viam nela a “luz verde” de Francisco para esta aplicação do princípio da sinodalidade da Igreja na reflexão de questões que não podem ser adiadas, outros apressavam-se a sublinhar as reservas do Papa e o apoio aos que veem o futuro da Igreja mais numa “nova evangelização” do que na reforma de estruturas. O cardeal Marx deslocou-se na ocasião a Roma e pôde certificar-se que o Papa nada tinha a opor à realização deste processo sinodal.

 

Os abusos na origem e os quatro temas do caminho

A decisão de lançar um processo sinodal foi tomada pela Conferência Episcopal na assembleia plenária da primavera deste ano. Tratava-se de lançar e estruturar uma reflexão profunda e alargada sobre as saídas da crise provocada pela publicação do relatório sobre os casos dos abusos sexuais por parte dos “homens” da Igreja.

Um estudo científico encomendado pela própria Conferência Episcopal a peritos de três universidades alemãs veio mostrar que as causas desses abusos não eram de origem individual, mas sistémicas. E que mais que de abusos sexuais haveria que falar de “abusos do poder”. Que os problemas estavam no ADN do sistema eclesiástico e implicavam aspectos fundamentais da instituição.

Assim se chegou à definição de quatro grandes temas, que serão também os quatro grupos de trabalho ou fóruns para estes dois anos de caminho sinodal: poder e partilha do poder na Igreja; celibato e vida dos padres; moral sexual; mulheres nos ministérios e serviços da Igreja. Desses grupos de trabalho fazem parte bispos e teólogos (professores universitários), políticos e cristãos empenhados nos movimentos, membros das ordens e congregações religiosas, delegados das diferentes dioceses… Ninguém poderá acusar os organizadores de não se ter tido em conta a diversidade. Quatro assembleias plenárias sinodais estão previstas para estes próximos dois anos, realizando-se a primeira em finais de janeiro de 2020 em Frankfurt.

“A Igreja Católica alemã meteu-se a caminho num processo de conversão e de renovação. No centro da nossa reflexão está a procura de Deus e do caminho que Ele quer hoje fazer com as pessoas”, afirma-se no preâmbulo dos estatutos do Caminho Sinodal. Para alguns, um caminho ensombrado de questões. Para a maioria, um caminho de esperança. Seja como for, a caminhada começou, o primeiro passo está dado.

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