Igreja Católica à escuta da Amazónia, “terra que sangra”

Amazónia. Foto Tomás Sopas Bandeira e Maria Mouzinho
Uma escuta que implica reconhecer a Amazónia como “novo sujeito”, que deve escutar os povos indígenas e o grito dos povos indígenas em favor da “Mãe Terra”, que “tem sangue e está sangrando”, vítima de multinacionais e visões políticas que “cortaram as veias” da região amazónica.
Esta é a visão do documento de trabalho do Sínodo dos Bispos católicos sobre a Amazónia, convocado há dois anos pelo Papa Francisco, que hoje se inicia com uma missa solene, no Vaticano. Um acontecimento que é uma oportunidade histórica de a Igreja Católica se confrontar com sombras do seu passado, diagnosticar muito do seu presente e perspectivar caminhos de futuro. E fazer tudo isto em relação à sua configuração e acção, no diálogo com os povos indígenas, e na defesa económica, social e cultural das mesmas comunidades, ameaçadas por poderes políticos, financeiros e industriais poderosíssimos.
A capacidade de intervenção do catolicismo no mundo contemporâneo joga-se também em vários fios de navalha que o Sínodo traduz e que irá debater a partir de amanhã, depois da abertura solene com a missa desta manhã de domingo, em São Pedro do Vaticano.
Um “ecologismo pagão e panteísta”?
No documento que os 185 bispos participantes debaterão nos primeiros dias, escreve-se que o sínodo é “uma grande oportunidade” para a Igreja descobrir “a presença encarnada e activa de Deus” nas manifestações da criação, na espiritualidade indígena, nas organizações populares e na proposta de uma economia produtiva, sustentável e solidária que respeite a natureza.
Este parágrafo (33) do Instrumentum laboris – a designação latina do documento – resume bem algumas das grandes questões com que o catolicismo se vê confrontado: a Igreja tem de assumir um rosto indígena, como se insiste em diversas ocasiões ao longo do texto. Quer dizer, o protagonismo da sua missão deve ser dado em primeiro lugar aos autóctones, sem desfigurar a mensagem, mas convertendo estruturas, mentalidades e modos de agir da instituição, aproximando-os das populações locais. O anúncio do evangelho deve ser feito pelos povos amazónicos, a partir de dentro, e não apenas por missionários que chegam de fora, insiste também o texto.
Não por acaso, o Papa presidiu sexta-feira a uma pequena cerimónia nos jardins do Vaticano, de plantação de uma árvore que, vinda de Assis, assinalou o dia de São Francisco e como que pré-inaugurou a assembleia sinodal e na qual os indígenas presentes cantaram e rezaram nas suas línguas. Logo várias publicações conhecidas pela sua oposição ao pontificado de Francisco denunciaram o que consideram uma confusão entre o “amor da criação” e o “ecologismo pagão e panteísta”.
Não é esta uma questão de somenos: há sectores católicos que continuam a considerar qualquer aproximação nas linguagens ou modos de fazer como uma abdicação de princípios “inegociáveis”.
Mulheres e ordenação de homens casados
Neste campo, entram as duas questões mais mediáticas do Instrumentum laboris: a eventual ordenação de homens casados e a atribuição de maiores responsabilidades às mulheres no interior da estrutura eclesial – ambas integram um vasto conjunto de propostas no parágrafo 129.
A possibilidade de ordenar homens casados, oriundos das próprias comunidades, é uma medida defendida por muitos grupos católicos; mas também tem havido quem chama a atenção para o facto de, em muitas comunidades, não haver um sentido de casamento como o que a Igreja defende – o que tornaria a medida não muito eficaz.
Já quanto ao papel das mulheres, o documento diz que “elas pedem para recuperar o espaço que Jesus reservou às mulheres”. Uma ideia que segue a estratégia de Francisco: habituar as pessoas a ver mulheres em lugares de responsabilidade de modo a que se seja natural que, um dia, a comunidade católica aceite como natural o alargamento do ministério de presbítero (sacerdotal) às mulheres.
A Mãe Terra que sangra
A Amazónia é, neste momento (e desde há muito, como denunciam grupos cristãos e civis) uma terra
que sangra. O documento (147 parágrafos em meia centena de páginas, que pode ser lido no sítio do Vaticano na internet) é prolixo a denunciar crimes humanos, ambientais, ecológicos, económicos e políticos de que a Amazónia está a ser vítima – sempre sustentado em números e factos.
Surgem assim como naturais as propostas do Instrumentum laboris: reconhecimento de um passado eclesiástico muitas vezes conivente com estruturas opressoras, e assunção da ideia de que o território e as pessoas da Amazónia são um “lugar teológico” –traduzido da linguagem católica, são os primeiros protagonistas da salvação que o cristianismo propõe.
Ser uma voz profética, de contra-poder contra as injustiças e a dinâmica destruidora, em defesa de uma ecologia integral, que implica as pessoas e o ecossistema e apresentando uma proposta de esperança – numa curtíssima síntese, esta é a visão do documento. Dia 27, no final do Sínodo, se verá como assumirá a Igreja este rosto amazónico.
(Este texto foi também publicado na edição deste domingo no jornal Público)
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