Igreja Católica deve dar “prioridade” ao combate à violência doméstica, diz presidente da Cáritas

| 7 Fev 19

Bispo das questões sociais terá reunião segunda-feira para decidir como pode a Igreja empenhar-se no assunto; e admite promover um processo de reflexão que leve a uma maior tomada de consciência: Se um padre está ao serviço dos outros, não pode ser indiferente à situação.

O bispo responsável da Igreja para as questões sociais diz que fica “chocado” cada vez que há um caso destes; a solução passa pela educação, diz. Foto © Engin Akyurt/Pexels

A Igreja Católica tem dado pouca atenção ao problema da violência doméstica, mas deveria considerá-lo como “uma prioridade”. A opinião é expressa por Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, em declarações ao 7MARGENS, a propósito dos últimos casos de mulheres assassinadas pelos maridos ou companheiros em Portugal.

A questão motivou na tarde desta quinta-feira, 7 de Fevereiro, uma reunião entre vários membros do Governo, a procuradora-geral da República e representantes do Ministério Público, bem como responsáveis de todas as forças de segurança. A questão central da reunião era o aperfeiçoamento da resposta institucional em termos de segurança e protecção de mulheres ameaçadas. Segundo um comunicado do Governo enviado às redacções, foram decidido “agilizar a recolha, tratamento e cruzamento de dados” relativos a homicídios e outras formas de violência doméstica; “aperfeiçoar os mecanismos de proteção da vítima nas 72 horas subsequentes à apresentação de queixa”; e “reforçar os modelos de formação, que passarão a ser comuns à PSP e GNR, magistrados e funcionários judiciais”, e “centrada na análise de casos concretos”.

João Lázaro, presidente da APAV, sublinha também a necessidade de actuar numa “maior fiscalização” da parte de entidades públicas e privadas e, “principalmente, com uma maior coordenação entre as diferentes entidades, para que as vítimas nunca fiquem desamparadas”. “Há que redobrar esforços e articular policia e tribunais. O Estado deve dar o exemplo de articulação. E estamos a falar de coisas pequenas como uma denúncia não andar de um lado para o outro durante muito tempo, o que acaba por prejudicar as vítimas.”

“Não tem havido nenhum enfoque nesta problemática e a Igreja não tem de tratar da casuística, mas o problema tem de ser integrado na pastoral familiar e numa acção o mais abrangente” possível, acrescenta Eugénio Fonseca. Que junta uma pergunta: “Porque é que aumentam os casos de violência doméstica quando há crises económicas?”

José Traquina, bispo de Santarém e presidente da Comissão Episcopal de Pastoral Social, diz que ficou “chocado com as notícias” desta semana, como já de outras vezes. Na próxima segunda-feira, reunirá com o bispo da comissão do Laicado e Família, D. Joaquim Mendes, para ver se, em conjunto, decidem promover alguma iniciativa.

“É bom também promover no seio da Igreja uma reflexão” sobre o assunto, diz, considerando que “é na prevenção que o problema se resolve”: “A minha primeira reacção é ver que é necessário um trabalho que vá às origens, porque o problema é a falta de formação humana para viver em comunidade e em família”, acrescenta. “Isto mexe com a pastoral juvenil, com a educação sexual, com a educação para os afectos.”

 

“Tenho falado sobre o assunto…”

O bispo José Traquina pensa mesmo na possibilidade de o episcopado publicar uma nota sobre o tema. “Todos os anos temos este problema e eu já tenho falado sobre o assunto em diferentes circunstâncias.” As estruturas católicas são chamadas a dar uma resposta, diz o responsável pelo trabalho social da Igreja, admitindo que poderia haver mais instituições católicas a dar apoio. Mas isso nem sempre é fácil, acrescenta, tendo em conta as questões legais que por vezes se colocam: “Não podemos levar uma pessoa para casa só porque ela precisa, como fazia São João de Deus com os pobres que encontrava na rua.” Ou como acontecia, em Portugal, com o Padre Américo, na altura em que fundou a Casa do Gaiato, dando abrigo a  crianças abandonadas ou vulneráveis.

De qualquer modo, insiste o bispo, o problema está na educação e na prevenção. Ainda há duas semanas, na Jornada Mundial da Juventude, no Panamá, o Papa se referiu ao problema perante os mais de 100 mil jovens que participaram no acontecimento, dizendo que o sofrimento de Jesus antes de morrer se prolonga, entre outras situações, “nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e ignoradas na sua dignidade”.

“O Papa chamou a atenção e muito bem, pois é preciso os jovens terem consciência”, diz José Traquina. “Não se pode esconder estes dados negativos nem tratar com banalidade algo que é muito importante, para que os jovens saibam que isto acontece e, sobretudo, conhecer a génese do problema.”

Nem sempre, no entanto, a sensibilização corre bem, alerta a irmã Júlia Bacelar, das Irmãs Adoradoras. Conhecidas por trabalharem com situações em que as mulheres são vítimas (mães solteiras, ex-toxicodependentes, vítimas de tráfico…), estas religiosas já dirigiram, entre 1995 e 2015, uma casa-abrigo em Évora (há quatro anos, a casa ficou a ser dirigida pelos técnicos que lá trabalhavam). “Já fui a vários seminários falar sobre este tema e encontrei sempre seminaristas que não estavam nada virados para conhecer esta realidade”, diz.

“Ficamos muito felizes com jornadas da juventude mas, depois, não se continua a falar nas paróquias. Nem se tomam posições claras como as do Papa, que fala sempre a tempo e fora de tempo.” E acrescenta uma ideia concreta: “Se, a par dos centros de saúde e das escolas, por exemplo, as paróquias, os padres e movimentos católicos estivessem atentos ao problema, seria mais fácil detectar-se estas situações, tendo em conta a maior proximidade a que eles estão das pessoas.”

A irmã Júlia parte do seu conhecimento do terreno: durante 20 anos, a casa-abrigo dirigida por ela própria e pela sua congregação foi a única instituição do género sob a responsabilidade da Igreja Católica – mesmo se há outras congregações ou grupos que apoiam vítimas de violência de outra forma. A casa-abrigo, que tinha um capelão, nunca recebeu a visita de qualquer bispo, diz. “Eu também nunca convidei ninguém a ir lá, mas creio que isso acontece porque o problema passa ao lado das preocupações.”

 

“O problema é de nós todos”, também do clero

Na casa, viviam 23 mulheres e crianças. Durante um ano, passava, por lá pouco mais de vinte mulheres entre os 35 e os 60 anos. “Casos muito complicados”, observa, para sublinhar a “atenção especial” que essas mulheres deveriam merecer: “Uma mulher com mais de 35 ou 50 anos, que levou pancada durante 15, 20, 30 anos requer uma atenção diferente. Para ela é tudo muito doloroso, cheio de sofrimento.”

Os dados do Observatório das Mulheres Assassinadas mostram que, entre 2004 e 2017, as faixas etárias com mais vítimas estão exactamente acima dos 36 anos: no total, nesses 14 anos, foram mortas 179 mulheres com mais de 50 anos e 140 mulheres entre os 36 e os 50 anos.

Perante as observações da irmã Júlia, o bispo José Traquina diz que também nos seminaristas há “uma questão de educação e sensibilização geral, que considera sempre que o problema é dos outros”. Mas essa indiferença não pode admitir-se, muito menos em candidatos ao sacerdócio: “Se estão a fazer o caminho de uma vocação que é por causa dos outros, não podem ser indiferentes.” Nem se pode atirar a questão para outros: “O problema não é ‘deles’, é de todos.”

Eugénio Fonseca junta outra sugestão: nas instituições da Igreja, escolas, colégios, jardins de infância, as crianças por vezes falam implicitamente do que vêem em casa. Se houver actuação imediata, podem talvez evitar-se problemas mais graves, diz.

O presidente da Cáritas chama a atenção para outro dado: “Em muitos casos, os agressores já viram as mães a ser agredidas, há um ciclo de violência inter-geracional. E em alguns casos, o agressor também é vítima de estruturas que não funcionam”, admite. Conta o caso de um homem, com quem falou em tempos numa prisão: era casado com uma mulher, compradora compulsiva e o casal estava sempre cheio de dívidas; o homem foi procurando ajuda, sem êxito, ao mesmo tempo que chamava a atenção da mulher; um dia, o fisco penhorou-lhe a casa e ele acabou a matá-la pouco depois.

“Andei a pedir ajuda para a minha mulher, nunca ninguém me quis ajudar, dizendo que era um problema do casal”, dizia-lhe o homem. “Quando fiz o crime que fiz, apareceu toda a gente que eu precisava que tivesse aparecido durante os anos em que andei a pedir ajuda”, lamentava.

Conclui Eugénio Fonseca: “Não quero comparar o que se passa com as mulheres vítimas. Mas penso que é preciso começar também a falar nestes problemas e chamar preventivamente a atenção.”

(Texto com o contributo de Maria Wilton)

Breves

Boas notícias

Timor-Leste: nasce associação para o turismo religioso

Iniciativa interconfessional

Timor-Leste: nasce associação para o turismo religioso

Acaba de nascer a Associação de Turismo Religioso de Timor-Leste (ATRTL), num ato realizado na última terça-feira, dia 11, na catedral da Imaculada Conceição, em Díli. O lançamento da iniciativa, que envolve todas as religiões do país, ocorreu no aniversário da data da visita do Papa João Paulo II àquele território, quando este se encontrava ainda ocupado pelo poder indonésio. O processo da sua criação, que decorria desde 2018, envolve as confissões católica (maioritária), protestante, muçulmana, hindu e confucionista.

Outras margens

Cultura e artes

Exposição e debate no Museu de Etnologia

Quando o espaço sagrado passa a património

O que têm em comum o santuário católico mariano de Fátima, a vila muçulmana andaluza de Mértola, a romântica e encantada Sintra e o bairro lisboeta e islâmico da Mouraria? E como podem coexistir em Fátima o catolicismo popular que domina o santuário, e o facto de outros cristãos, mas também hindus, muçulmanos, praticantes de religiões afro-brasileiras e de nova era procurarem o lugar?

Cinema

Plantar uma árvore no mar

Comecemos então por aquele barco no mar que leva uma planta e duas personagens. Apesar de Catarina Vasconcelos dizer que não é crente, ao contrário da avó e do avô, são muitos os sinais e as memórias do que podíamos chamar uma linguagem evangélica. Estou a tentar falar de um dos mais belos filmes que já pude ver, A Metamorfose dos Pássaros.

Na morte do poeta

para o Fernando Echevarría, mas não à sua memória

Conheci o Fernando Echevarría há alguns anos quando juntos animámos no Metanoia uma sessão sobre os nomes de Deus que a poesia enuncia em nós, ou não, ou só. Da sua sala sobre o rio aberta recordo cada gesto afável, a tenaz humildade de quem um dia disse, e fez, e um campo escolheu e o lavrou. Mas sobretudo uma orelha enorme suspensa sobre a tarde, à escuta do que talvez não fale.

Pessoas

O segundo apagamento de Aristides

Comentário

O segundo apagamento de Aristides

“Mesmo que me destituam, só posso agir como cristão, como me dita a minha consciência; se estou a desobedecer a ordens, prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus.” Esta afirmação de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus em 1940, confirmada por muitas outras de cariz semelhante, mostra bem qual foi o fundamento para a sua decisão de, contra as ordens expressas de Salazar, conceder indiscriminadamente vistos de passagem a milhares de pessoas em fuga do terror nazi.

Sete Partidas

Da personalização do voto

Sempre achei confuso e difícil isto de escolher duas coisas com um só boletim de voto. Uma coisa é escolher com que partido ou com que programa de governo me identifico mais, outra coisa é escolher quem é a pessoa ou o partido que eu acho que representa melhor os interesses da minha região no parlamento. Na minha cidade natal, o Porto, aconteceu-me diversas vezes querer votar num partido com um determinado programa de governo, mas achar que o deputado X de outro partido poderia fazer a diferença no Parlamento.

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Sínodo em demanda de mudanças novidade

Falo-vos da reflexão feita pelo Papa Francisco, como bispo de Roma, no início do Sínodo, cuja primeira etapa agora começa, de outubro de 2021 a abril de 2022, respeitando às dioceses individuais. Devemos lembrar que o “tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade exprime a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”.

Confinar o medo?

Todos sentimos o impacto da pandemia, seja por conhecermos alguma vítima ou algum familiar ter sido afetado, por termos ouvido dezenas de reportagens nos media sobre a crise económica ou até por, mais de um ano depois, ainda detestarmos as máscaras. Após quase dois anos de distanciamento, continua o receio de estar perto do outro, a tentação de evitar um café com alguém porque “não tem cuidado nenhum”, de nos afastarmos porque temos receio de levar o vírus para dentro das nossas casas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This