Próxima visita do Papa

Igreja Católica do Canadá: escândalos e redução da prática religiosa

| 19 Jul 2022

papa francisco foto vatican media

Quando anunciou a viagem ao Canadá, Francisco não imaginaria que, com o problema de locomoção que, entretanto, se agravou, esta seria, também fisicamente, mais penosa. Foto © Vatican Media.

 

O Papa Francisco chama-lhe uma “peregrinação de penitência”.  E o móbil da viagem que vai fazer durante uma semana, já a partir do dia 24, ao Canadá, não podia ser mais penoso: contribuir para curar feridas profundas de exploração e abuso das comunidades indígenas daquele país.

A viagem é o culminar de encontros e também desencontros entre os responsáveis da Igreja Católica no país e os dirigentes dos povos que formaram as “primeiras nações” naquelas terras, tornados incontornáveis depois dos macabros achados de muitas centenas de sepulturas sem nomes, encontradas nas imediações de alguns dos internatos que ao longo de décadas a Igreja e o Estado alimentaram, procurando “civilizar” à força os filhos dos indígenas.

Em 2006, quando este assunto começou a ganhar destaque na agenda pública do país, perto de meia centena de entidades católicas canadianas assinaram um acordo em que se comprometiam a arrecadar 25 milhões de dólares para reparar danos causados aos sobreviventes daqueles internatos. Fariam os seus “melhores esforços” para o conseguir, dizia-se no memorandum então assinado.

A campanha que lançaram no seio da Igreja Católica não deu mais de quatro milhões. E um juiz decidiu, alguns anos depois, que era justificável a resposta dada pelos religiosos, de que tinham feito tudo o que podiam, pelo que não estavam obrigados a pagar mais.

Os bispos resistiram enquanto puderam, mas, na sequência das descobertas dos restos mortais de crianças, acabaram por, em setembro de 2021, assinar um pedido de desculpas coletivo (alguns já o tinham feito individualmente).  Esse gesto foi acompanhado de uma nova promessa de 30 milhões de dólares para as comunidades indígenas. Em clima de pandemia, com a frequência dos templos a recuperar lentamente, várias dioceses tiveram de reafetar à causa indígena verbas recolhidas para obras de restauro e outras finalidades. A meta é conseguir atingir o valor da promessa até ao início de 2027, mas aproveitar a visita papal para dinamizar a recolha. Pelo caminho, os cristãos de base vão tomando consciência dos encargos implicados no legado que a Igreja lhes deixou.

 

Reputação manchada

O Papa, por sua vez, indo ao encontro dos desejos e pressões de diversos setores da sociedade canadiana, incluindo do primeiro ministro, Justin Trudeau, abriu as portas do Vaticano, no final de abril deste ano, para escutar e trabalhar com representantes de vários povos indígenas do Canadá. Mas tornou-se claro que isso não bastaria. Francisco anunciava, nesse contexto, a intenção de ir ele, pessoalmente, visitar os locais, ouvir as pessoas e, em celebração própria, fazer um ato público de penitência. Na altura, não imaginaria que, com o problema de locomoção que, entretanto, se agravou, a viagem seria, também fisicamente, mais penosa.

Mas que Igreja é aquela que Francisco vai encontrar, quando partir para o Canadá, no próximo domingo, 24 de julho? O retrato traçado esta segunda-feira pelo National Post, num extenso trabalho da jornalista Jessica Mundie, pode ajudar a compreender a situação: “A Igreja Católica no Canadá está a emergir de uma pandemia com taxas de prática religiosa que estão em declínio há décadas. Um número crescente de igrejas foram vendidas para compensar bancos vazios”.

Por outro lado, segundo Mundie, formada na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, com estágio feito na agência Religion News Service, “o papel da Igreja Católica na sociedade não é o que era antes. Aquela que costumava ser um pilar na vida social e política das comunidades tornou-se agora, para alguns, o prédio por onde passam no caminho para o supermercado. A sua reputação foi manchada por escândalos de abuso sexual no Canadá e em todo o mundo”, agravada, no verão passado, pela descoberta de centenas de sepulturas  nos locais dos internatos. “Muitos ficaram a saber do papel da igreja na controversa história deste país”, acrescenta a jornalista.

Essa história teve, naturalmente, altos e baixos. Nos últimos três séculos, importa não esquecer que a Igreja Católica teve relevante papel na assistência social, educação e saúde.  Quando o Canadá se dotou de serviços públicos nesses campos, o peso da Igreja começou a decair.

Em termos quantitativos, os dados de algumas agências de estudos socio-estatísticos citados no artigo do National Post indicam que a percentagem de pessoas que se declaram católicas passou de 39 por cento, em 1985, para 29 por cento em 2018. Apesar deste decréscimo, o número absoluto de católicos cresceu em cerca de 700 mil, não acompanhando, no entanto, o crescimento geral da população do Canadá (que, nesse período, passou de cerca de 26 milhões para 37 milhões de habitantes).

Quanto aos indicadores de prática religiosa, dados citados pelo mesmo jornal, de uma pesquisa do Instituto Angus Reid de 2022, que estudou o espectro religioso em todo o Canadá, 67% dos entrevistados que se identificam como católicos disseram que frequentam serviços religiosos raramente ou nunca. Apenas 14 por cento disseram que frequentam uma ou duas vezes por mês e 18 por cento disseram algumas vezes por ano.

 

Igrejas fechadas e à venda
igreja a venda canada foto facebook Church Property for Sale - Canada

A queda da frequência dos atos de culto tem levado ao encerramento de igrejas e à venda de propriedades religiosas, incluindo templos. Foto © Church Property for Sale – Canada.

 

 

A Igreja Católica no Canadá também viu perdas de pessoas que participaram em cultos e reuniões religiosas. No GSS de 1985, 37% dos católicos disseram que frequentavam serviços religiosos pelo menos uma vez por semana, 19% disseram que pelo menos uma vez por mês e 21% pelo menos uma vez por ano. Na época, em média, 77% dos católicos canadianos participavam em celebrações ou reuniões religiosas pelo menos uma vez por ano.

Esses números caíram. De acordo com uma pesquisa do Instituto Angus Reid de 2022, que estudou o espectro religioso em todo o Canadá, 67% dos entrevistados que se identificam como católicos disseram que frequentam serviços religiosos raramente ou nunca. Apenas 14 por cento disseram que frequentam uma ou duas vezes por mês e 18 por cento disseram algumas vezes por ano.

A queda da frequência dos atos de culto tem levado a um fenómeno que está recorrentemente nas notícias dos media: o encerramento de igrejas e a venda de propriedades religiosas, incluindo templos, para fazer face aos encargos com serviços paroquiais de diversa natureza. Só no Québec, onde estas operações de falência e venda mais se têm feito sentir, 30 das 54 igrejas da diocese de São Jerónimo foram fechadas, no ano de 2018.

Mas se a Igreja está a perder um número substancial de membros entre os naturais do Canadá, o mesmo não acontece entre os imigrantes, sobretudo os oriundos da América Central e do Sul, dos quais 33 por cento se declaram católicos.

 

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