Igreja Católica na Austrália também pode debater fim do celibato obrigatório

| 8 Fev 20

Catedral de Santa Maria, em Sidney: o tema do celibato pode vir a ser debatido na Austrália, também por causa da inexistência de qualquer clérigo aborígene em 200 anos de catolicismo. Foto Diego Delso/Wikimedia Commons

 

O arcebispo de Sidney (Austrália), admite que há “problemas semelhantes” entre o seu país e a região da Amazónia. “Muitas pessoas diriam que, depois de mais de 200 anos na Austrália, ainda não temos um presbiterado indígena. De facto, temos apenas um padre indígena na Austrália e é um convertido anglicano. Havia outro, mas deixou o sacerdócio e agora é político e líder importante”, afirma Anthony Fisher, numa entrevista recente ao Crux.

O arcebispo, que admite estar “nervoso” perante a possibilidade de o Papa decidir acabar com o celibato obrigatório para a Amazónia, afirma, entretanto, que não exclui totalmente a possibilidade de a Austrália poder também vir a ordenar homens casados.

Uma das razões para a inexistência de clero indígena, afirma, é que, nas sociedades aborígenes tradicionais, um homem não é respeitado como líder enquanto não casa e tem filhos. “Prova-se a masculinidade tendo um filho. Portanto, para essas culturas, é inconcebível ser um líder espiritual sendo celibatário.”

Uma das respostas da Igreja pode ser a de “reconhecer que é a realidade cultural e que dar a Eucaristia e a liderança espiritual a essas comunidades é mais importante do que a nossa tradição de celibato”, acrescenta o arcebispo Fisher na entrevista citada.

Outra questão, diz ainda, é que os responsáveis da Igreja podem perguntar-se “o que fizeram de errado com a evangelização e a catequese”, que não conseguiu alterar preconceitos culturais como aquele.

Também sobre o Concílio geral australiano, que terá início em Outubro, o arcebispo afirma que, sem recusar o que faz parte da tradição e as regras da própria Igreja, pode haver muitas coisas que se podem alterar.

“Pode haver mudanças no direito canónico no futuro, e podemos ajudar a isso. Mas estamos a fazer o melhor com o que já temos? Acho que não”, afirma. E dá um exemplo: “Mulheres em posições de liderança. Em muitos sítios do mundo, há muito poucas, mesmo nos principais conselhos consultivos” e isso significa que se estão a perder metade dos talentos disponíveis.

É preciso “olhar criativamente fora da caixa que utilizamos neste momento”, afirma Anthony Fisher, “mas dentro do que já é possível nas nossas leis, costumes e teologia”. E esse, considera, seria um ponto de partida melhor do que dizer simplesmente: “vamos re-imaginar completamente a Igreja”.

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