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Igreja Católica: que dizes do absentismo eleitoral?

| 07/10/2019

Igreja Católica: que dizes do absentismo eleitoral?

by | 7 Out 19 | Entre Margens, Últimas

A abstenção foi, mais uma vez, a grande vencedora das últimas eleições. É uma das doenças da nossa democracia. Não se pode continuar a demonstrar a perplexidade por tão expressa falta de cidadania, só depois de se encerrarem as urnas de voto. É um mal que tem de ser atacado rapidamente, pois as suas causas já estão bem identificadas. Acrescenta-se agora o mais de um milhão de portugueses que se encontram na diáspora. Porém, se também esses não votam, e lhes são dadas condições para isso nos lugares de destino, não é esta justificação que pode suavizar tão grave problema.

Se os portuguesas e as portuguesas não vão às urnas porque deixaram de se interessar pela política há que criar condições para que a reconciliação aconteça. Elas passarão, decerto, pela inexistência de tantos escândalos que têm atravessado o país; por um ataque feroz a todas as formas de corrupção; por um maior sentido ético no compromisso com as causas públicas; pela demonstração de maior unidade entre partidos quando estão em causa decisões fundamentais para o bem comum; por uma maior aproximação dos eleitos aos seus eleitores para que possam escutar os seus anseios; por tudo o que possa contribuir para uma maior consciência de cidadania de todos os nossos concidadãos.

Em tudo isto ia refletindo, enquanto acompanhava o desenrolar dos resultados eleitorais. Mas o que mais me perturbou foi dar comigo a pensar no país que ainda tem uma larga maioria da sua população a afirmar-se como católica e perguntei-me: não teremos nós, Igreja em Portugal, uma incontornável missão a desempenhar em ordem a encontrarem-se caminhos que levem a uma maior consciência cívico-política? Se é verdade, como reconheceu o Concílio Vaticano II, que “não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu (dos discípulos de Cristo) coração” (Gaudium et Spes 1), a ser assim, temos mesmo de nos empenhar nesta causa.

Há que ajudar, pelo menos, os católicos de prática regular e militantes a compreenderem que a sua catolicidade não se pode restringir à prática de preceitos rituais nem à militância dentro das estruturas paroquiais. Será que quem participou na missa, no dia das eleições, assumiu como compromisso inerente ao sentido intrínseco do sacramento da Caridade, a responsabilidade de dar do seu tempo e da sua vontade expressos na ida ao local de voto?…

Sem dúvida que, também para nós, esta tarefa não se pode confinar a um tempo e muito menos a um dia. A democracia, para ser mais perfeita, não se pode restringir à sua dimensão representativa, mas apostar, veementemente, na expressão participativa que obriga a uma maior intervenção sócio-política. Neste campo, a Igreja tem linhas de orientação tão importantes e pertinentes que constam do pensamento social cristão. Instrumentos para o seu conhecimento, felizmente, vão surgindo, mas que temos feito – aqui também incluo a Cáritas – para que o mesmo chegue de forma facilitadora e compreensiva aos católicos deste país?…

Seria uma bênção que todas as paróquias dispusessem de grupos de ação social e que, em todos eles, se dedicasse um tempo a ver, a analisar e a procurar formas de ação à luz daquele pensamento. Que esses grupos não atomizassem o seu agir, mas fossem animadores da consciência social das suas comunidades. O futuro começa no presente. Por isso, não podemos esquecer os jovens católicos e apoiá-los nas suas decisões pela construção do bem comum. A preparação da próxima Jornada Mundial da Juventude será uma rica oportunidade.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa

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