
Missão de Marieval, Escola Residencial Indiana de Cowesses, no Vale d’Elcapo Creek, Saskatchewan, 1923. Foto © Biblioteca Arquivos do Canadá
Os bispos católicos do Canadá criaram um fundo financeiro de 30 milhões de dólares (mais de 26 milhões e 220 mil euros) e acabam de instituir uma instituição de caridade para apoiar e promover iniciativas de cura e reconciliação com as comunidades aborígenes e as “primeiras nações” do país.
A iniciativa, que rompe com largos meses de resistência e hesitação da parte de muitos bispos canadianos, destina-se a assumir responsabilidades pelo “trauma histórico e atual causado pelo sistema de escolas residenciais”.
Estas escolas cristãs, que estiveram em funcionamento desde as últimas décadas do séc. XIX até pelo menos aos anos 70 do séc. XX, resultaram na institucionalização forçada de mais de 150 mil crianças indígenas, com o alegado objetivo de as separar definitivamente da respetiva família, meio e cultura para, segundo o discurso assumido, as “civilizar”.
Tais estabelecimentos, que eram financiados pelo Estado e geridos e orientados por instituições da Igreja, foram palco de maus tratos e abusos.
Recentemente, muitas centenas de campas não identificadas foram e continuam a ser descobertas, nas imediações dessas escolas.
A nova instituição caritativa será responsável por administrar o Fundo de Reconciliação Indígena, que reunirá contribuições de 73 dioceses em todo o Canadá, segundo um comunicado da Conferência dos Bispos Católicos do Canadá, há dias divulgado.
O Fundo de Reconciliação será gerido de acordo com medidas financeiras destinadas a “assegurar a transparência do seu funcionamento e a sua boa governação”. Os membros do conselho e os membros da corporação trarão coletivamente uma forte experiência financeira e um profundo compromisso com o processo de cura e reconciliação.
Os três membros do conselho têm fortes ligações de pertença aos povos indígenas, uma larga experiência profissional e, pelo menos num dos casos, trata-se de um sobrevivente de um dos internatos e, hoje, chefe Cri, designação de um dos povos aborígenes da zona das Montanhas Rochosas.
Embora as diretrizes para a alocação de fundos aguardem por informações adicionais dos parceiros indígenas, os bispos desejam que, entre as prioridades, estejam a cura e reconciliação de comunidades e famílias; revitalização da cultura e da língua indígenas; educação e desenvolvimento comunitário; e fortalecimento do diálogo para promover a espiritualidade e a cultura indígena.
Papa Francisco recebe líderes indígenas
Provavelmente em ligação com estas movimentações no terreno, o Vaticano acaba de remarcar para o final de março próximo umas jornadas de trabalho solicitadas pelo Papa Francisco, na qual participarão líderes dos povos indígenas e das “primeiras nações” do Canadá.
Esse encontro esteve previsto para o início de dezembro último, mas o recrudescimento da pandemia obrigou ao adiamento.
Num comunicado divulgado no dia 1 de fevereiro, a Conferência Episcopal do Canadá anunciou que os bispos, a Assembleia das Primeiras Nações, o Conselho Nacional Métis e o Inuit Tapiriit Kanatami estarão a trabalhar no Vaticano de 28 de março a 1 de abril. Neste último dia, está prevista uma audiência do Papa com todos os participantes.
“Continuamos empenhados em avançar no caminho da cura e da reconciliação e esperamos a oportunidade de os anciãos indígenas, guardiões do conhecimento, sobreviventes de escolas residenciais e jovens poderem conhecer o Papa Francisco “, refere o comunicado dos bispos.









