“Calma, consistente e apaixonada” para com todos. Assim se apresentou esta terça-feira, 10 de fevereiro, a arcebispa de Cantuária Sarah Mullally, no seu primeiro discurso perante o Sínodo Geral da Igreja de Inglaterra, que decorre em Londres, durante esta semana. A responsável, que viu a sua eleição confirmada na catedral de São Paulo, em Londres, no último dia 28 de janeiro, deu destaque a dois temas quentes da atualidade dos anglicanos: os abusos sexuais e de poder e as divisões no interior da Comunhão Anglicana.
No seu discurso, de cerca de 20 minutos, a arcebispa começou por se situar, procurando ajudar a perceber que tipo de líder será. Ela, que foi enfermeira e chefe nacional do serviço público de enfermagem, sublinha que desde essa primeira vocação cristã até hoje houve sempre uma constante em cada uma das etapas: “lavar os pés”, servir e cuidar dos outros. É isso que quer continuar a fazer. Nas novas funções, não se vê tanto a desenvolver novos programas e iniciativas, mas a ser “uma pastora, que trabalha colaborativamente e em parceria com outros”, potenciando o florescimento das pessoas e comunidades.
A quem insiste em lhe lembrar que a Igreja [de Inglaterra] enfrenta atualmente grandes desafios, ela responde: “quando o vento e as ondas fustigam o barco, sou levada a ter presente que o que há a fazer é colocar o meu foco em Cristo que acalma as águas e dissolve os ventos”. De facto, Mullally quer “cultivar a confiança e a esperança, enraizadas não em instituições mas em Deus e no Evangelho de Jesus Cristo”.
Não lhe falta o humor, ainda que comedido. Ao agradecer publicamente ao arcebispo de Iorque, Stephen Cottrell, o trabalho de gestão dos assuntos correntes da Igreja, no longo período de sede vacante, recordou algo que ele lhe terá confidenciado, no dia da confirmação no cargo de arcebispa primaz: “Sê tu própria!”. Ela respondeu-lhe agora, com uma mensagem que é também uma promessa: “Oxalá não venha a considerar-se arrependido do que disse nos anos que aí vêm!”.
Nas diferentes funções de liderança por que já passou, e foram muitas e diversas, diz valorizar a prestação de contas e a transparência. E acrescenta: “o modo como, no interior das instituições, nos tratamos uns aos outros, sejam eles leigos ou pessoas ordenadas, é vital para a saúde da nossa vida comum em Cristo”.
Nesta linha, reconhece que, “demasiadas vezes, falhamos em reconhecer e levar a sério os abusos de poder em todas as suas formas”, para o que contam bastante “processos robustos e transparentes” que “são centrais para a saúde de qualquer instituição”. Igual cuidado devem merecer, segundo as suas palavras, “processos respeitantes a nomeações, orientações claras sobre conduta e bons processos para lidar com queixas e denúncias”.
Estas precauções, acentua Sarah Mullally, em lugar nenhum são mais imperativas do que no que respeita à proteção” (safeguarding). Ela é uma “responsabilidade fundamental, não negociável, tornada ainda mais crítica devido aos nossos falhanços passados”. Daqui decorre o compromisso que assume para o exercício do seu ministério, ela que também teve os seus casos não comprovados de queixas relativas a abusos de padres, enquanto bispa de Londres: “Comprometo-me a adotar uma abordagem séria e focada em todas as matérias relacionadas com a proteção, em todos os contextos da Igreja. Esta abordagem deve ser informada pelo trauma, colocar as vítimas e sobreviventes no centro de tudo aquilo que fazemos e estarmos comprometidos com uma adequada independência”.
A arcebispa manifesta gratidão a todos – vítimas, agentes de pastoral, profissionais vários, a todos os níveis da Igreja de Inglaterra – que fizeram com que se tenha avançado nesta frente. “Foram feitos progressos”, reconhece. No entanto, “não podemos ser complacentes. Temos de estar totalmente empenhados na escuta de vítimas e sobreviventes; no escrutínio independente das práticas de safeguarding; e dar conta a tempo e horas de processos robustos, informados pelo trauma (trauma-informed)”.
Temos de estar sempre disponíveis para pôr à luz do dia os nossos atos e decisões. Só poderemos reconstruir a confiança e perceção de segurança através da abertura e integridade”, remata sobre esta matéria.
Não agravar divisões, praticar a hospitalidade

O Sínodo prossegue até sexta-feira, 13 de fevereiro. Foto © Geoff Crawford, Igreja de Inglaterra
A nova arcebispa de Cantuária (a 106ª pessoa – e a primeira mulher – a ocupar o cargo) não podia escamotear o facto de, em significativas porções da Comunhão Anglicana, estar lançado um processo de afastamento da Igreja de Inglaterra, que pode configurar um verdadeiro cisma no mundo anglicano. Ela própria – pelo facto de ser mulher ordenada e pelas posições que tem defendido – é objeto da contestação de bispos e primazes, sobretudo da África e da Ásia.
Mulally abordou este assunto com manifesto cuidado e com uma evidente preocupação de não agravar as divisões e, na medida do possível, lançar pontes de convivência e entendimento. Utilizou várias metáforas, uma das quais foi a da pérola de grande valor, contada em Mateus, 13.
Refletindo sobre a parábola de elevado valor, a oradora reconhece que na Igreja de Inglaterra há muitas pérolas de grande valor, mas chama a atenção para o facto de as pérolas precisarem de longos períodos de tempo para se formarem, devido ao grão de areia que há na ostra. Sem grão de areia não haveria pérola.
“Para nós – explica ela – o grão de areia surge na forma de desafios da diferença, conflitos e incompreensões entre nós próprios. Este grão é real e não é apenas desconfortável. Às vezes torna-se doloroso”.
É verdade que um dos pontos (glórias, segundo ela) que “unem a Igreja de Inglaterra e a Comunhão Anglicana” é serem e sempre terem sido, “uma igreja que abraça intencionalmente o alimento da tradição”. Mas tal como “não podem subestimar a unidade em Cristo, seria ingénuo para cada um menosprezar os desafios que as diferenças comportam”.
“É fácil – acrescenta – deixarmo-nos levar pela tentação de nos afastarmos uns dos outros ou atirar pedras à distância. Mas somos limitados na compreensão, frágeis na nossa humanidade e necessitados uns dos outros. Só no encontro da humanidade e da coragem de permanecer na presença uns dos outros, nos tornaremos verdadeiramente, como indivíduos e como comunidades, lugares em que a pérola se pode formar”.
Porém, “tal como o ferro dá forma ao ferro”, isso não significa que não se possam desafiar uns aos outros, mas desde que isso seja feito “sempre com simpatia”, procurando encorajarem-se e construírem-se uns aos outros. “Fazemos isso porque somos chamados a partir o pão, tal como fizeram os apóstolos, reunidos à roda da mesa de Deus”, explica Sarah Mullaly.
Daí que peça que o seu ministério “seja de hospitalidade e do partir do pão” e que todos possam, juntos, “aprender a ser bons hóspedes e bons hospedeiros”.
E conclui deste modo: “Peço que esta prática de hospitalidade seja oferecida como modelo para um mundo polarizado, que fale às divisões profundas da sociedade. Aquilo a que somos chamados é viver esta esperança num mundo fraturado e ansioso. Assim preencheremos uma lacuna junto daqueles que não têm uma experiência de Igreja para encontrar Cristo, através da disponibilização de espaços de pertença, dignidade e conversação, onde se encontre o amor de Deus e o mundo se transforme”.
O Sínodo prossegue até sexta-feira, 13 de fevereiro, tendo na agenda temas como a reforma dos cuidados junto de pessoas adultas, a pastoral das pessoas LGBTQ, as políticas de proteção face a abusos de poder, entre outros assuntos.










