[Debate 7M: A Igreja e os média–5]

Igreja e comunicação social – aliados na busca da verdade

| 25 Mai 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Filipe d’Avillez, ex-jornalista da Rádio Renascença, agora profissional por conta própria.

Filipe Avillez Rádio Renascença Direitos Reservados

Filipe d’Avillez: “A Igreja só tem a ganhar em cultivar uma relação transparente com os jornalistas.” Foto: Direitos reservados.

 

Poucos casos servem melhor para medir a relação entre a Igreja e os media do que a crise global de abusos sexuais praticados sobre menores por elementos do clero. Esta crise é a maior que a Igreja Católica tem enfrentado nas últimas décadas, e embora haja sinais de que a situação está bastante melhor agora, pelo menos no mundo ocidental, podemos ter a certeza de que irá continuar a gerar manchetes e polémica durante muito tempo ainda.

Enquanto católico e também enquanto jornalista especializado na área da religião, sempre defendi que a Igreja devia ser a primeira interessada em revelar e confrontar a verdade sobre estas situações. Grande parte do escândalo surgiu não só dos desvarios pecaminosos – e criminosos – de alguns homens, mas da cultura de encobrimento sistémico que afetou o resto da hierarquia, que preferiu esconder, negar e ignorar a infeção.

Tanto no meu trabalho na Renascença, onde fui jornalista durante vários anos, como na minha atividade de comentário e análise pessoal que ainda mantenho no âmbito do projeto Actualidade Religiosa, fui dando sempre atenção a esta questão; ao fazê-lo enfrentei não pouca resistência e algumas queixas de católicos, incluindo de alguns padres.

Hoje quero contar um caso que me marcou bastante. Tinha acabado de fazer mais um artigo sobre o terrível caso do cardeal McCarrick, dos EUA, e de mais uma vaga de revelações naquele país – algumas das quais não podem ser descritas de outra forma do que diabólicas – quando recebi um email muito queixoso de um sacerdote que perguntava porque é que eu insistia neste assunto, e a lamentar-se do quão difícil era, hoje, ser padre e ser olhado com desconfianças na rua por causa de todas estas histórias terríveis.

Escrevi de volta a explicar que da minha perspetiva este era um tema que, como Igreja, tínhamos obrigação de pegar de caras. Que por mais que doesse, era preciso desinfetar esta ferida terrível e expô-la à luz e ao sol, para que a infeção desaparecesse de vez. Disse ainda que o incómodo que ele sentia ao ser identificado publicamente como padre não seria muito maior do que o que eu, e todos os católicos, sentíamos por vermos o nome da nossa Igreja associada a esta mancha terrível.

O que se seguiu foi um ato de humildade que me tocou profundamente. O mesmo padre respondeu a agradecer a minha franqueza, a dizer que o que eu tinha escrito lhe tinha dado muito que pensar e que por essa razão gostaria que eu fosse à próxima palestra da sua paróquia, falar precisamente sobre este assunto dos abusos.

Se partilho esta história é apenas para mostrar que acho que, aos poucos, a Igreja está a mudar na sua relação com a imprensa e, por conseguinte, na sua relação com a exposição pública de todos os aspetos da sua vida, não só dos bons. Não foi há tantos anos assim que o Papa Bento XVI – por quem tenho muito amor e admiração – disse que parte do problema do escândalo dos abusos era culpa dos jornalistas; porém, há poucos meses vimos a Comissão Independente para investigação desta situação na Igreja Portuguesa a dizer que conta com os jornalistas e com os meios de comunicação para fazer chegar mais longe os seus apelos e tentar ao máximo ir ao fundo da questão. De igual forma, mudando de plano, o Papa Francisco tem elogiado o papel da imprensa diversas vezes ao longo do seu pontificado, agradecendo ainda recentemente tudo o que os jornalistas têm feito, por vezes à custa da própria vida, para revelar o que se passa na guerra na Ucrânia.

Os tempos de desconfiança entre a Igreja e a comunicação social não acabaram totalmente. Ainda encontramos padres e bispos que se recusam a falar com os jornalistas, mas depois se queixam de que são sempre os mesmos seus colegas que aparecem na imprensa. Mas também é verdade que ainda não desapareceu também – ou pior, tenderá a agravar-se – uma certa ignorância e preconceito por parte de muitos jornalistas em relação à Igreja e religião em geral.

A mudança de atitude que tenho visto da parte da Igreja, contudo, deve continuar a aprofundar-se, e os bispos, padres e leigos devem compreender que por mais que custe, pontualmente, a Igreja só tem a ganhar em cultivar uma boa relação, transparente, com os jornalistas, vendo nos meios de comunicação social não um inimigo que procura escandalizar, mas um aliado na busca de uma verdade que liberta.

 

Filipe d’Avillez é jornalista freelancer e trabalhou na Rádio Renascença a acompanhar a informação religiosa até final de 2021.

 

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