Igreja e Cúria Romana têm de mudar o foco, diz o Papa, que alerta para o “grito” dos migrantes forçados

e | 22 Dez 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Papa Francisco, Últimas, Vaticano/Santa Sé

Os migrantes forçados representam neste momento um grito no deserto da nossa humanidade, disse o Papa no seu discurso à Cúria Romana, para troca dos votos de boas festas. E a Igreja “está chamada a despertar consciências adormecidas na indiferença perante a realidade do Mar Mediterrâneo que se tornou para muitos, demasiados, um cemitério”.

O Papa no encontro com os membros da Cúria, na Sala Clementina do Palácio Apostólico. Foto reproduzida do vídeo do Vatican News, disponível no canal YouTube.

 

O Papa Francisco encontrou-se com os membros da Cúria Romana, neste sábado, 21 de Dezembro, na Sala Clementina do Vaticano, para as tradicionais saudações natalícias. Apelou à mudança na Igreja, num discurso menos crítico do que o dos anos anteriores.

Perante os responsáveis da estrutura central da Igreja, o Papa assumiu que se vive “não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época”, o que exige que a Igreja também se adeque a esta época. Assumiu, como já o tinha feito em 2014, no discurso aos participantes no Congresso Internacional da Pastoral das Grandes Cidades, que já não se vive em tempos de cristandade. “Hoje, já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros nem os mais ouvidos”, reconheceu o Papa, pedindo “uma mudança de mentalidade pastoral”.

Neste novo contexto, são exigidas às congregações para a Doutrina da Fé, e para a Evangelização dos Povos, que vêm ainda dos tempos da cristandade, bem como a toda a Cúria Romana, “mudanças e novas focalizações” que terão de assumir uma atitude mais missionária.

Para corresponder aos desafios que o mundo coloca à Igreja, foram criados os dicastérios para a Comunicação e para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Em relação a este último, o Papa destacou “o serviço aos mais frágeis e marginalizados, em particular aos migrantes forçados, que representam neste momento um grito no deserto da nossa humanidade”. Para o Papa, a Igreja “está chamada a despertar consciências adormecidas na indiferença perante a realidade do Mar Mediterrâneo que se tornou para muitos, demasiados, um cemitério”.

O Papa terminou o discurso a recordar as palavras do cardeal Martini: “A Igreja ficou atrasada duzentos anos. Como é possível que não entre em alvoroço? Temos medo? Medo, em vez de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. (…) Só o amor vence o cansaço.” Desta forma, ele sublinha a sua determinação e empenhamento na mudança da Igreja.

 

Sodano despede-se entre sombras e as regras mudam

Neste encontro com a Cúria Romana, foi a última vez que o cardeal Angelo Sodano saudou o Papa na qualidade de decano do Colégio Cardinalício. O Papa aceitou a resignação de Sodano, cujo papel na forma como teria lidado com os abusos sexuais de membros do clero é posto em causa por muitas pessoas. Ainda recentemente, o cardeal Cristoph Schönborn, arcebispo de Viena (Áustria), acusou implicitamente Sodano de, enquanto secretário de Estado do Vaticano durante o pontificado de Papa João Paulo II, ter encoberto abusadores e mentido sobre vários casos, como o 7MARGENS noticiou.

Com a sombra sobre as responsabilidades de Sodano nestes casos ainda a pairara sobre o cardeal que foi também núncio no Chile no tempo do ditador Pinochet, o cargo de decano dos cardeais deixará, a partir de agora, de ser vitalício. Os cardeais bispos (um dos títulos em que se dividem os membros do colégio) passarão a eleger o decano de cinco em cinco anos e o cargo só poderá ser ocupado por dois mandatos consecutivos, no máximo.

O que se passava até agora, com a nomeação vitalícia feita pelo Papa, dava ao seu titular um poder que, por vezes, quase ofuscava o do líder da Igreja. Na fase de transição entre pontificados, por exemplo, era o decano que punha e dispunha, tomando decisões que, por vezes, acabavam por ser fulcrais. No conclave de 2005, a homilia da missa de abertura do processo eleitoral presidida por Joseph Ratzinger foi decisiva na votação que levou à sua eleição, como Papa Bento XVI.

Em alguns dos anteriores encontros para os votos natalícios, o Papa tinha sido muito crítico. Em 2014, por exemplo, dois anos e meio depois da sua eleição, Francisco catalogou no seu discurso o que designou como as 15 “doenças da Cúria”. Entre elas, referiu a tentação de se sentir “imortal” ou “indispensável”, do activismo excessivo, da falta de sensibilidade humana, do funcionalismo, do “alzheimer espiritual” e da rivalidade e da aparência. E citou ainda a esquizofrenia existencial, o “terrorismo das bisbilhotices”, a divinização dos líderes, da indiferença, da “cara fúnebre”, da acumulação de bens materiais, dos círculos fechados ou do exibicionismo.

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