
“A Igreja está em crise e ainda bem, pois permite que na sinodalidade tantos e tantas possam falar e exprimir-se, mesmo contra os poderes instalados não só no clero, mas de todos e todas que fazem das sacristias o seu múnus pastoral.” Foto: Igreja da Reconciliação, Taizé, durante uma das orações depois da reabertura das igrejas.
A Igreja esteve sempre em crise, porque inquieta e inquietadora, por isso mesmo é reconciliadora. Prestando atenção às homílias da Semana Santa até à Páscoa libertadora, das hierarquias – clero, pois, portanto, consequentemente -, podemos assistir às mais variegadas intervenções, mas existe uma que chama a atenção, e que fala do “povo simples” que já se “reconciliou com os católicos”. Tomemos esta, por considerarmos que a Igreja sempre esteve em crise, desde que aqueles e aquelas, seguidores de Jesus, enviaram Paulo de volta a casa de barco, desconfiando dele, passando pelo Concílio de Jerusalém -onde a questão principal residia no prepúcio -, pela zanga entre Pedro e Paulo, o Concílio de Trento, até aos dias de hoje, pelo poder clerical dos bispos, presbíteros – ou padres como lhe queiram chamar, e diáconos – a Igreja, mormente a Igreja Católica Romana, esteve e está e estará sempre em crise. A necessidade da conversão integral e da reconciliação necessária, em cada momento, dita-nos uma igreja em crise, particularmente pelas ações, também, dos que afirmam que o “povo simples” está “reconciliado com os católicos, o que tende a afirmar estar em sintonia com a clericalização constante e absoluta, mesmo depois dos abusos sexuais, principalmente dos padres e dos bispos, que ao que tudo indica continuarão no exercício dos poderes e de imprimir à “sinodalidade” uma noção deturpada do que na realidade é. Bem pode o bispo de Roma e papa Francisco andar a tentar converter o clero, o certo é que em Portugal ainda não chegou e muito menos a alguns bispos.
O “povo simples” é que é a Igreja, nele reside o poder do Espírito Santo, que tantos querem abafar. O “povo simples”, que são todas as mulheres e todos os homens cristãos e até quantos não cristãos, não precisa de se reconciliar com a Igreja de Jesus, porque eles, “povo simples”, são o amago da Ressurreição de Jesus; se falarmos em hierarquia da igreja, essa é que tem de reconciliar-se, consigo própria, com Deus, com o “povo simples” e com a Criação, principalmente neste nosso Portugal. Não podemos igualar – aliás, como todos sabem, mas querem esquecer -, as hierarquias com a Igreja. Elas [as hierarquias] só pertencem à Igreja quando deixarem de exercer os poderes e torná-los um serviço como Jesus o fez na cena do lava-pés. É curioso que Jesus não escolheu para o ato pés de jovens, como tantos fazem agora, mas antes de todos aqueles e aquelas que estavam com Ele, mesmo que o traíssem como Pedro ou Judas, o Iscariotes.
A Igreja está em crise e ainda bem, pois permite que na sinodalidade tantos e tantas possam falar e exprimir-se, mesmo contra os poderes instalados não só no clero, mas de todos e todas que fazem das sacristias o seu múnus pastoral. O povo é todo simples, somos nós todos, não como alguns pensam, na sua clericalização, que não pertencem ao povo. Pertencem e é lá no seu meio que têm de forjar a teologia. Assumam as suas faltas e pecados e reconciliem-se com o nosso povo, não pensem o contrário, e quem quiser assim pensar saibam estar de costas voltadas para o Espírito Santo.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.







