Resposta ao relatório sobre abusos

Igreja em França inicia “reforma profunda” e indemniza vítimas

| 9 Nov 21

Presidente da Conferência dos Bispos da Igreja Católica francesa (CEF), o arcebispo Eric de Moulins-Beaufort. Foto © Peter Potrowl

 

A par da dinâmica de mediação com as vítimas de abusos e da sua indemnização, o presidente da Conferência dos Bispos da Igreja Católica francesa (CEF), o arcebispo Eric de Moulins-Beaufort, anunciou esta segunda-feira, 8, a decisão de iniciar “um trabalho interno de ‘reforma profunda’ da Igreja como instituição.

O arcebispo discursava no ato de encerramento de uma assembleia plenária de sete dias, centrada em grande medida na ‘digestão’ do relatório sobre abusos sexuais de crianças por membros do clero ao longo de 70 anos, divulgado por uma comissão independente em 5 de outubro último.

A reforma anunciada pelo arcebispo de Reims, que colheu a adesão da CEF, constitui “um vasto programa de renovação” das práticas eclesiais ou eclesiásticas de governação, tanto ao nível das dioceses como ao nível da Igreja em França, no seu todo.

Esse trabalho será desenvolvido em clima sinodal, através de uma série de grupos de trabalho que refletirão sobre diferentes aspetos da governação diocesana ou nacional, dos quais sairão propostas a dirigir aos bispos. Estes grupos serão compostos por membros do povo de Deus de diferentes proveniências e sob a orientação de um coordenador leigo, estabelecerão a sua agenda e informarão sobre o seu trabalho antes das assembleias plenárias (estão previstas duas, uma em março e outra em junho de 2022).

Nos grupos de trabalho a serem criados, dizem os bispos, “devemos assegurar que a voz dos pobres, dos jovens, dos trabalhadores, e mesmo das crianças, que nos foram lembradas, possa ser ouvida”.

Toda esta dinâmica a desencadear no terreno os bispos contam prolongar o processo sinodal em França até 2023, numa iniciativa que será o seu ponto culminante e o momento das grandes decisões.

Uma correção de trajetória no modo de funcionamento da própria Conferência Episcopal foi também desenhada pelo arcebispo de Reims. Os bispos dizem querer recorrer mais sistematicamente ao aconselhamento e competência de leigos e de outros membros da sociedade (na linha do preconizado na Gaudium et Spes, 40); mostram-se abertos à ajuda de leigas e leigos para poderem acompanhar melhor os padres e os diáconos, nas dioceses; pretendem auscultar mais o povo de Deus e aprender a “partilhar o processo de construção das decisões” que têm de tomar.

Como há, no relatório da Comissão Independente que investigou os abusos, recomendações que dizem respeito à Igreja universal, os bispos vão fazer chegar esse documento ao Papa e solicitar-lhe, ao mesmo tempo, que envie uma comissão da sua confiança para avaliar o que se está a fazer na Igreja francesa, relativamente às vítimas de abusos e relativamente aos agressores.

Com todas estas movimentações, a Igreja pretende criar condições mais favoráveis à escuta as das vítimas de abusos e à escuta dos pobres e outras pessoas e grupos vulneráveis, superando tempos em que a Igreja se centrou em si mesma.

 

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