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Igreja, escândalos e má comunicação

| 20/11/2021

Investigação

“Era evidente que os jornalistas iriam questionar a CEP sobre esta matéria. Não teria sido avisado preparar respostas às perguntas que, logicamente, iriam ser feitas?” Foto © Markus Winkler / Unsplash

 

Sou católica, devo à Igreja muito do que sou como pessoa. Faço esta profissão de fé como ponto prévio a uma leitura comprometida sobre a comunicação da Igreja Católica Portuguesa com os média, tomando como exemplo o “caso” dos abusos sexuais pela sua pertinente actualidade.

Sabemos que o tempo mediático não é igual ao tempo da Igreja. A Igreja deve saber ler os tempos da sociedade em rede do século XXI, dispondo de ferramentas e técnicas que pode usar adequadamente no âmbito da sua missão, sem esquecer a estética própria da comunicação eclesial, no respeito pela sua natureza específica, evitando copiar erros e padrões inadequados de estética comunicacional de outras áreas.

Existir é o primeiro acto de comunicação!

Comunicar pressupõe acção, verdade, assertividade!

A Igreja não pode ver os jornalistas como “inimigos”, gerindo a “ameaça” com o silêncio porque se vê acima deste “mundo”.

A propósito, faz sentido lembrar o que disse o Papa Francisco no passado dia 13 de Novembro, aquando da entrega da Grã-Cruz da Ordem Pia a dois jornalistas: “A missão do jornalista é explicar o mundo…escutar, aprofundar e contar “.

Na gestão do tema dos abusos sexuais, a Igreja tem revelado grande inabilidade, criando uma teia de equívocos na qual se vai enrolando e donde tem dificuldade em sair.

“Vergonha, minha vergonha, nossa vergonha”, afirmou o Papa Francisco aquando do conhecimento do que se passou em França.

De resto, na mesma sessão do dia 13, o Papa agradeceu aos jornalistas: “pelo que nos dizem sobre o que está errado na Igreja, por nos ajudar a não esconder debaixo do tapete e pela voz que vocês deram às vítimas de abusos”.

Em Portugal arrasta-se a questão até ao limite do aceitável, ou mesmo, até ao momento em que a pressão da sociedade civil, incluindo dos próprios católicos, se torna insuportável.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) é o órgão representativo da Igreja em Portugal. Contudo, cada bispo tem autonomia para se pronunciar individualmente e tem jurisdição sobre o “seu” território, dificultando uma estratégia global e coerente de informação. Este pressuposto tem provocado os comentários mais bizarros feitos, sobre esta matéria, por alguns bispos, acrescentando entropias à percepção e entendimento de assunto tão delicado.

Era evidente que os jornalistas iriam questionar a CEP sobre esta matéria. Não teria sido avisado preparar respostas às perguntas que, logicamente, iriam ser feitas?

O que foi comunicado aos jornalistas?

Decisões claras, inequívocas e assertivas? Não, os jornalistas perceberam coisas diferentes, nada de concreto, assertivo e determinado!

O assunto é melindroso, difícil, muito difícil de gerir. Não pode, não deve, transformar-se numa “caça às bruxas”, mas tudo deve ser feito para punir os criminosos e, sobretudo, compensar as vítimas!

Depois da determinação do Papa Francisco, por que espera a Igreja portuguesa?

 

 

Jacinta Oliveira é consultora de comunicação

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