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Bispo auxiliar de Braga

Igreja não pode tolerar conspiração do silêncio sobre os abusos sexuais

| 21/05/2022

Nuno Almeida, bispo auxiliar Braga

Nuno Almeida, bispo auxiliar de Braga. Foto: Direitos reservados.

Na última quarta-feira, 18, no mesmo dia em que vários bispos portugueses se deslocaram ao Vaticano para uma reunião de emergência sobre a questão dos abusos sexuais e o acesso aos arquivos diocesanos, decorria em Braga um debate sobre “Infância e Adolescência: Trauma, Assédio e Abuso Sexual”. A

iniciativa decorreu na Universidade Católica Portuguesa e teve a participação de Daniel Sampaio e Pedro Strecht, da Comissão Independente para o Estudos dos Abusos Sexuais Contra Crianças na Igreja Portuguesa.

No debate participou também o bispo auxiliar de Braga, Nuno Almeida que, no final, fez uma intervenção que, pela sua importância, o 7MARGENS a seguir reproduz, com autorização do autor. O título é da nossa responsabilidade.

 

1. Em nome do Senhor Arcebispo, D. José Cordeiro, saúdo e agradeço ao Doutor Pedro Strecht e ao Prof. Daniel Sampaio pela realização desta importante e oportuna conferência, bem como pelo trabalho que realizam no âmbito da Comissão Independente.

Agradecemos ao Prof. João Duque e à Universidade Católica de Braga a hospitalidade para este evento, sinal de que esta questão está e estará presente no seu projeto educativo.

Agradecemos a vossa presença. Permitam-me dirigir um obrigado mais sublinhado aos membros da Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis da Arquidiocese de Braga, que estão presentes, pelo trabalho intenso e empenhado destes quase três anos.

 

2. A Arquidiocese de Braga, como toda a Igreja, está decididamente empenhada em garantir que as suas atividades pastorais se desenvolvam sempre em ambientes saudáveis e seguros.

Reconhecemos que a luta contra os abusos sexuais por parte de membros da Igreja ou no âmbito das suas atividades, no passado, não foi uma prioridade para a Igreja e houve erros, omissões e negligência. Pedimos perdão a todas vítimas! Pedimos perdão, por toda a falta de atenção ao sofrimento das vítimas de abusos sexuais e pela negligência na prevenção das suas causas!

Não é possível manter a impunidade nem o silêncio, há sim que aprender a saber ler os sinais de alerta e tudo fazer para tornar a Igreja e suas comunidades seguras para as crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis.

O silêncio é o segundo maior inimigo das vítimas de abusos. Por isso, um grande obrigado às vítimas que ousam quebrar o silêncio!

Não conseguimos imaginar pior tragédia do que viver situações dramáticas, traumáticas, na mais completa solidão, temendo a insuportável repetição dos asquerosos acontecimentos, pois grande parte das vítimas sofre abusos continuados dos violadores.

Sinceramente nunca seremos capazes de saber o que é ser criança ou adolescente e estar à mercê de terríveis lobos disfarçados de cordeiros. De padres e outros educadores perversos que antes de abusarem sexualmente, abusam da confiança e traem em toda a linha. Usam o seu estatuto, o seu poder, as suas falas mansas, supostamente bondosas e porventura encantatórias, para atrair vítimas e as massacrar.

 

3. Nunca teremos palavras à altura do sofrimento dos que são abusados sexualmente, sobretudo quando são menores e completamente indefesos. Pior ainda quando os abusos são continuados, repetidos em clima de violenta ameaça e agressiva supremacia do mais forte.

Arrepia pensar nisto, mas é uma realidade tão incontornável que vale a pena determo-nos sobre ela para ajudarmos os nossos filhos, netos, sobrinhos, alunos, amigos e filhos de amigos a precaverem-se contra potenciais abusadores.

A primeira lição que devemos aprender e ensinar é a de não guardar silêncio. Quem cala nunca se protege a si mesmo, só está a proteger o agressor. Pelas omissões, negligência e silêncio, mais uma vez pedimos perdão a todas as vítimas!

 

4. Como é importante o apelo e criação de instâncias fiáveis como a Comissão Independente e as Comissões Diocesanas: para que se quebre o silêncio que muitas vezes se perpetua durante anos.

Até há pouco tempo era impensável que uma mãe ou um pai acreditassem mais no filho menor do que no pároco, no chefe dos escuteiros ou em alguém aparentemente idóneo e com provas de confiança dadas.

Como ouvimos, hoje em dia as coisas mudaram e existe uma maior atenção aos sinais de alerta.

É importante que transmitamos às crianças e jovens que ao menor sinal de estranheza comuniquem com alguém. Ou seja, por favor evitem o silêncio!

 

5. Na Igreja e suas instituições não podemos tolerar uma espécie de conspiração do silêncio, pois o silêncio é sempre assassino e mata emocionalmente tanto como os crimes dos próprios criminosos.

Temos e teremos, certamente, dias duros, de via purgativa, mas acreditamos que marcam uma nova era. Mas há que reforçar uma nova consciência sobre o poder de cada um para saber ouvir e ler os sinais de alerta, pois não é possível manter a impunidade nem o silêncio.

 

6. O Papa Francisco, na sua carta de 2 de fevereiro de 2015 dirigida aos Presidentes das Conferências Episcopais, com veemência afirmou que “é necessário continuar a fazer tudo o que for possível para desenraizar da Igreja a chaga dos abusos sexuais contra menores e abrir um caminho de reconciliação e de cura a favor de quantos foram abusados”.

Como Arquidiocese e concretamente em nome da Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis da Arquidiocese de Braga, garantimos à Comissão Independente disponibilidade total para cooperar. Disponíveis para colaborar no que for necessário e útil.

Assim como já houve campanhas de prevenção rodoviária muito eficazes, de tolerância zero, é nosso dever tudo fazer para que também a Igreja seja um caminho seguro e nela haja tolerância zero para abusadores.

 

Braga, 18.05.2022

 

Nuno Almeida é bispo auxiliar de Braga e coordenador da Comissão de Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis

 

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