Ex-abade foi preso e já há sucessor

Igreja Ortodoxa autocéfala da Ucrânia toma conta do Mosteiro/Lavra de Kyiv

| 2 Abr 2023

O mosteiro de Lavra Kyiv-Pechersk envolto em polémica com estado ucraniano e igreja ortodoxa. Foto © Michele Ursino

O Mosteiro (Lavra) Kyiv-Pechersk está envolto em polémica com o Estado ucraniano e a Igreja Ortodoxa. Foto © Michele Ursino

 

Um conflito de cariz religioso e político em torno do controlo do Mosteiro (Lavra) Kyiv-Pechersk, o principal centro religioso ortodoxo da Ucrânia, levou um tribunal de Kyiv a ordenar este sábado, 1 de abril, prisão domiciliária de 60 dias para o metropolita Paulo, que era também o abade do mosteiro. O sucessor já foi nomeado.

A pena surgiu no seguimento de um requerimento apresentado nesse mesmo dia, de manhã, pelo Serviço de Segurança da Ucrânia, o SBU, que considerou o metropolita suspeito de dois crimes: incitar ao conflito inter-religioso e justificar a agressão russa.

Este caso, que está a suscitar reações em diversos quadrantes, surgiu depois de os serviços do Ministério da Cultura terem tentado, por mais de uma vez, sem êxito, na última sexta-feira, tomar conta das instalações ocupadas pelos monges do mosteiro de Kyiv-Pechersk, depois de ter terminado o prazo para o fazerem voluntariamente.

Os funcionários governamentais encontraram dezenas de fiéis concentrados nas imediações do mosteiro e depararam com oposição no interior dos edifícios, quando tentaram entrar. Segundo alguns relatos, registaram-se brigas e empurrões, tendo os funcionários desistido dos seus intentos.

Recorde-se que o Governo ucraniano tinha emitido, no início de março último, uma ordem que obriga os monges de Lavra Kyiv-Pechersk, a abandonarem as instalações. Ainda que esta ocupação tenha séculos, formalmente, as autoridades estatais detêm o controlo do espaço, que é cedido por períodos renováveis.

As tensões relacionam-se com o facto de a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (IOU-PM) ter tido historicamente uma forte dependência do Patriarcado de Moscovo e de este ter dado um apoio explícito à invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. De facto, as tensões começaram antes, quando, após a derrocada do regime soviético, se constituiu uma Igreja Ortodoxa Ucraniana de cariz nacional e “autocéfala” (independente). Desde o início dos conflitos na região do Donbass, os problemas agravaram-se. Com o início da guerra, o ramo da ortodoxia ligado a Moscovo procurou demarcar-se do patriarca Cirilo e declarou a autonomia, ainda que o corte desse laço histórico não tenha sido isento de ambiguidades.

O Governo de Zelensky argumenta que inspeções feitas no Lavra Kyiv-Pechersk no início de 2023 encontraram alegadas provas de ligações à Rússia, que punham em causa as declarações dos responsáveis. Esse foi um fator que deu o pretexto para os monges não verem renovada a autorização para ocupar o complexo, que inclui igrejas, uma catedral, residências, túmulos de santos e uma rede de subterrâneos. Esta rede está na origem da designação “Mosteiro das Grutas” que é dado ao complexo, um dos centros cristãos de peregrinação mais importantes do mundo.

 

Ocupações e cedências de espaços

Desde que a guerra se iniciou, tem sido evidente uma política de hostilização da IOU-PM, através da ocupação de espaços que, em vários casos, são depois cedidos à Igreja Ortodoxa autocéfala, que foi reconhecida em 2019, mas que o Patriarcado de Moscovo e quem o segue consideram “cismática”. Na sequência dessas manifestações de hostilidade, foram divulgadas imagens de passaportes russos e de materiais alegadamente favoráveis à Rússia pretensamente encontrados nas instalações religiosas vistoriadas pelas autoridades.

“A lei e a responsabilidade por a violar são as mesmas para todos e uma batina não é garantia de intenções puras”, disse o chefe do SBU, Vasyl Maliuk , em comunicado citado pela Deutsche Welle, no qual o responsável da segurança acusa a Rússia de usar a religião “para promover propaganda e dividir a sociedade ucraniana”.

Durante a audiência em tribunal na capital ucraniana, o metropolita Paulo rejeitou a alegação do SBU, de que teria aceitado a invasão da Rússia, considerando as acusações contra ele como “politicamente motivadas”.

“Nunca estive do lado da agressão”, disse Paulo aos repórteres no tribunal, segundo a Associated Press. “Esta é a minha terra”, acrescentou.

Num vídeo que circulou pelas redes sociais neste fim de semana, o metropolita Paulo surge a invetivar o Presidente da Ucrânia: “Acha que tendo chegado ao poder às nossas costas, você pode fazer isto? O Senhor não lhe perdoará a si nem à sua família. Tenha temor.”

A situação atual indiciava um impasse, com o Governo, aparentemente, disposto a não recorrer à força para desalojar os monges, sem um pronunciamento da Justiça sobre a legalidade da medida de despejo.

A verdade é que um desenvolvimento noticiado pelo site Orthodox Times dá a entender que a história poderá ir por outro caminho. Segundo esta fonte, o arquimandrita Abraão, do mosteiro de Lavra, juntou-se, entretanto, à Igreja Ortodoxa autocéfala da Ucrânia, e o seu primaz, o metropolita de Kyiv, Epifânio, nomeou-o o novo abade.

Abraão apelou a Epifânio para o aceitar na Igreja que dirige e ele aceitou o pedido, tendo-o abençoado para o desempenho das novas funções, sob a jurisdição da Igreja autocéfala. Ao mesmo tempo, Epifânio apelou ao Governo para assegurar o uso dos locais de Lavra para os monges e respetivas atividades, enquanto o novo abade pedia à irmandade dos monges que não abandonasse a Lavra de Kyiv.

 

Liberdade religiosa em causa?

No quadro deste desenvolvimento, o problema estaria sobretudo na resistência de Paulo, até agora abade. Quem defende isso é o sucessor, ao dizer que Paulo, em vez de unir, aprofundou as hostilidades e conduziu o mosteiro para “a triste situação em que se encontra”.

Não é conhecida a posição da maioria dos monges: se seguem o ex-abade e saem com ele ou se aceitam ficar sob a jurisdição da Igreja Ortodoxa autocéfala e recebem o colega Abraão como seu novo abade.

Também a capacidade de mobilização dos fiéis por parte do metropolita Paulo e dos hierarcas que o apoiaram neste processo de resistência às pretensões do Governo pode ser um fator a ter em conta. Até agora, apesar de alguma tensão entre estes e opositores nas imediações do mosteiro não têm tido grande expressão. De resto, nos últimos meses, tem havido vários encontros entre as diferentes igrejas ortodoxas, mais ao nível das suas bases.

Estas posições são importantes para se perceber o possível desfecho de um conflito que foi, até agora, visto em diferentes arenas como um problema de liberdade religiosa, como foi visível nas intervenções recentes, sobre este assunto, do Papa Francisco e do Conselho Mundial das Igrejas.

 

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo novidade

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo novidade

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Número de voluntários na Misericórdia de Lisboa ultrapassa os 500… e mais serão bem-vindos

Inscrições abertas

Número de voluntários na Misericórdia de Lisboa ultrapassa os 500… e mais serão bem-vindos novidade

No último ano, o “número de voluntários na Misericórdia de Lisboa chegou aos 507”, refere a organização num comunicado divulgado recentemente, adiantando que o “objetivo é continuar a crescer”. “Os voluntários, ao realizarem uma atividade voluntária regular e sistemática, estão a contribuir para um mundo mais fraterno e solidário, estão a deixar a sua marca, aumentando capacidades e conhecimentos, diminuindo a solidão, promovendo diversão e alegria, e contribuindo para uma sociedade mais inclusiva”, realça Luísa Godinho, diretora da Unidade de Promoção do Voluntariado da Santa Casa.

Mais de 1.000 tibetanos detidos pelas autoridades chinesas após protestos pacíficos

Grupo de Apoio ao Tibete denuncia

Mais de 1.000 tibetanos detidos pelas autoridades chinesas após protestos pacíficos novidade

A polícia chinesa deteve mais de 1.000 pessoas tibetanas, incluindo monges de pelo menos dois mosteiros, na localidade de Dege (Tibete), na sequência da realização de protestos pacíficos contra a construção de uma barragem hidroelétrica, que implicará a destruição de seis mosteiros e obrigará ao realojamento dos moradores de duas aldeias. As detenções aconteceram na semana passada e têm sido denunciadas nos últimos dias por várias organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo o Grupo de Apoio ao Tibete-Portugal.

E o Seminário, terá responsabilidade?

E o Seminário, terá responsabilidade? novidade

Atravessei a década de 80 entre os muros de seminários. Três, ao todo. Dar-me-á esta circunstância a legitimidade para falar abertamente do meu susto? O meu susto é este: conheço pelo menos dois políticos portugueses (que os leitores facilmente identificarão) formados em seminários, cuja opção política está do lado daqueles que, na História, pensaram o povo como um rebanho de gente acéfala e incapaz. [Texto de Paulo Pereira de Carvalho]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This