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Igreja pede “viragem cultural” que leve os idosos de novo para casa para não repetir “massacre”

| 10/02/2021

Foto Misericórdia de Bragança - covid-19; Idosos

Uma das pessoas residentes no lar da Misericórdia de Bragança, no início da pandemia, em 2020. Foto: Misericórdia de Bragança

 

A Academia Pontifícia para a Vida (APV), do Vaticano, apela a que se faça uma “revolução coperniciana” nas sociedades, de modo a que os idosos possam ser “acompanhados e assistidos em contextos familiares, na sua casa e em todo o caso em ambientes familiares que se assemelhem mais à casa que ao hospital”.

Num documento divulgado nesta terça-feira, 9 de Fevereiro, intitulado “A velhice: o nosso futuro. As condições dos idosos após a pandemia”, lê-se: “Toda a sociedade civil, a Igreja e as várias tradições religiosas, o mundo da cultura, da escola, do voluntariado, do espectáculo, da economia e das comunicações sociais devem sentir a responsabilidade de sugerir e apoiar – no interior desta revolução coperniciana – novas e incisivas medidas” que permitam concretizar aquela “viragem cultural”.

Na conferência de imprensa de apresentação do texto, o bispo italiano Vincenzo Paglia, presidente da instituição, sublinhou que os idosos foram as vítimas mais numerosas da pandemia: “Os dados das mortes são brutais na sua crueldade. Até hoje fala-se de mais de dois milhões e trezentos mil idosos mortos por causa da covid-19, a maioria dos quais com mais de setenta e cinco anos. Um verdadeiro ‘massacre de idosos’.”

O documento, sintetizado na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, acentua que “a institucionalização dos idosos, sobretudo dos mais vulneráveis e sós, proposta como única solução possível para lhes acudir, em muitos contextos sociais revela uma ausência de atenção e sensibilidade para com os mais fracos, em relação aos quais seria antes necessário empregar meios e financiamentos aptos a garantir os melhores cuidados possíveis a quem deles precisa, num ambiente mais familiar”.

“Quem não gostaria de continuar a viver em casa própria, rodeado pelos seus afectos e pelas pessoas mais queridas, mesmo quando se torna mais frágil? A família, a casa, o seu ambiente representam a opção mais natural.”

 

“Colocar a pessoa no centro da atenção”
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“Jovens e idosos podem levar ao tecido social essa nova linfa de humanismo que tornaria a sociedade mais solidária”, diz o texto. Foto: luckybusiness/Bigstock.com.

 

A Academia não negligencia que “nem sempre tudo pode permanecer igual em relação a quando se era mais jovem”, sendo por vezes exigidas “soluções que tornem verosímil um cuidado domiciliar”, quando, por exemplo, “a casa deixa de ser suficiente ou adequada”.

“Nestes casos, é necessário não ser seduzido por uma ‘cultura do descarte’, que pode manifestar-se em preguiça e falta de criatividade na busca de soluções eficazes quando velhice significa também ausência de autonomia”. Até porque, sublinha o documento, “colocar no centro da atenção a pessoa, com as suas necessidades e direitos, é expressão de progresso, de civilização e de autêntica consciência cristã”.

Passando dos princípios à sua aplicação, o texto salienta a atenção que deve ser dada às habitações, “para que sejam adequadas às exigências” da pessoa idosa: “A presença de barreiras arquitectónicas ou a inadequação dos equipamentos de higiene, a ausência de aquecimento, a penúria de espaço devem ter soluções concretas”, porquanto a doença e a fragilidade podem fazer com que “qualquer coisa se transforme num obstáculo inultrapassável”.

Integrar a assistência domiciliária, com a possibilidade de cuidados médicos ao domicílio, o incremento de pessoas que prestem cuidados, o contributo das novas tecnologias, o avanço da telemedicina e da inteligência artificial são alguns dos meios mencionados, na convicção de que “uma aliança atenta e criativa entre famílias, sistemas social e sanitário, voluntariado e todos os actores em campo pode evitar a uma pessoa idosa a obrigação de deixar a sua habitação”.

A articulação destes instrumentos torna “evidente a necessidade de apoiar as famílias, que, sobretudo se constituídas por poucos filhos e netos, não podem sustentar sozinhas, numa habitação, a responsabilidade por vezes extenuante de cuidar de uma doença exigente, custosa em termos de energias e de dinheiro”.

“O paradigma que se pretende propor não é uma utopia abstracta ou reivindicação ingénua”, mas pretende contribuir para “novas e mais sábias políticas de saúde pública e propostas originais de um sistema assistencial mais adequado à velhice. Mais eficazes, além de mais humanas. Exige-o uma ética do bem comum e o princípio do respeito da dignidade de cada indivíduo, sem distinção alguma, nem sequer a da idade”, acrescenta o texto.

Depois de acentuar que as estruturas da Igreja são também convidadas “a uma reflexão mais atenta para com o mundo dos idosos”, o documento sublinha que a sua presença “é um grande recurso” para a sociedade.

“Jovens e idosos, com efeito, ao encontrarem-se, podem levar ao tecido social essa nova linfa de humanismo que tornaria a sociedade mais solidária”, diz ainda o texto, que não esquece o papel das pessoas mais velhas na transmissão da fé às novas gerações.

 

“Cuidar da vida frágil”

Na crónica mais recente que assina no semanário Expresso, intitulada “Cuidar da vida frágil”, o cardeal José Tolentino Mendonça destaca o papel dos “largos milhares de cuidadores, na maioria mulheres, que em Portugal “se ocupam dos pais ou familiares doentes, que tratam de jovens e adultos portadores de deficiência, acompanhando-os jornada após jornada”.

Lutam “muitas vezes, em solidão, para afirmar o valor da vida humana numa sociedade que em vez de simplificar os auxílios, burocratiza, distancia-se e dificulta”.

“Não tenhamos dúvidas: é o cuidado a grande experiência humanizadora, o lugar do mundo onde mais aprendemos, o grande espaço de sabedoria autêntica. Sem a cultura do cuidado não haverá futuro e tudo representará sempre mais um beco sem saída. Há quem contraponha: ‘O cuidado só por si não oferece a solução’. A resposta é: pelo menos oferece caminhos”, escreve.

O cardeal Tolentino saúda a aprovação, em Portugal, de “uma das leis que correspondem efetivamente a um avanço civilizacional: a aprovação do Estatuto do Cuidador Informal”, mas “a lentidão dos processos administrativos e a escassa informação pública têm provocado uma ralentização inaceitável”, facto que “torna ainda mais violenta e incompreensível a pressa em aprovar uma lei desumana como a da eutanásia”.

 

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