Autoridades acusam Sendero Luminoso

Igreja peruana condena massacre e pede “esclarecimento completo” dos factos

| 26 Mai 2021

Miguel Cabrejos Vidarte Foto arzobispado de trujillo

“Nunca mais o terrorismo, nunca mais a violência no Peru, de onde quer que venha”, afirmou o presidente da Conferência Episcopal Peruana, Miguel Cabrejos Vidarte. Foto: Arcebispado de Trujillo.

 

O presidente da Conferência Episcopal Peruana, Miguel Cabrejos Vidarte, condenou o assassinato de 16 pessoas, incluindo duas crianças, num bar em San Miguel del Ene (província de Vizcatán del Ene), a sudeste de Lima, no passado dia 23 de maio.

A vida é sagrada, sublinhou o também arcebispo de Trujillo, 550 quilómetros a norte da capital. “Nunca mais o terrorismo, nunca mais a violência no Peru, de onde quer que venha”, afirmou. “Rezo a Deus pelo descanso eterno destas vítimas para que as suas famílias possam encontrar paz e consolo e um esclarecimento completo destes factos”, pediu, citado pelo serviço informativo das Obras Missionárias Pontifícias (OMP).

O arcebispo Vidarte acrescentou que o que aconteceu na noite de domingo para segunda-feira traz à memória uma era de barbárie e terror vivida no país nas duas décadas finais do século XX, e que deixou 70.000 mortos e um número desconhecido de desaparecidos, quando o Sendero Luminoso, um grupo de guerrilha maoísta, promoveu uma série de ataques terroristas e acções de guerrilha.

Agora, de novo, as autoridades militares estão a atribuir o massacre a remanescentes do Sendero Luminoso. No local do crime, situado na região de Vraem (acrónimo para Vale dos Rios Apurimac, Ene e Mantaro), e segundo a fonte já citada, foram encontrados panfletos em que o grupo guerrilheiro reclama a responsabilidade pelo sucedido e que justifica com “a necessidade de limpar o Vraem e o Peru dos antros de má vida, parasitas e pessoas corruptas”.

No entanto, a BBC diz que existem vozes críticas a pedir que não haja aproveitamento político do sucedido, já que o Peru está a duas semanas das eleições presidenciais. Na contenda estão Pedro Castillo e Keiko Fujimori, este último filho de Alberto Fujimori que, enquanto foi Presidente do país (1990-2000), combateu o Sendero com dureza militar, acabando por prender o seu fundador, Abimael Guzman. Actualmente, Fujimori pai está na prisão por violações dos direitos humanos.

Os panfletos apelavam a um boicote contra as eleições presidenciais de 6 de Junho e, sobretudo, contra Fujimori, candidato da Força Popular, de direita, contra Castillo, do Peru Libre, de esquerda. “Quem vota em Keiko Fujimori é um traidor, um assassino do Vraem, um assassino do Peru”, lia-se num dos folhetos encontrados. “Nunca mais Fujimorato. Nunca mais Fujimori. Nunca mais Keiko Fujimori.”

 

O “vale das drogas”
Valle de los Ríos Apurímac, Ene y Mantaro (VRAEM) Foto Min Defesa Peru

O Vraem estende-se através das regiões de Cusco, Apurimac, Ayacucho, Huancavelica e Junin e é uma das áreas mais deprimidas do país. Foto: Ministério da Defesa do Peru.

 

O Vale dos Rios Apurimac, Ene e Mantaro (Vraem), no centro do Peru, tem sido terreno de violência, fraca presença do Estado, isolamento e pobreza. Diz a BBC que se calcula que mais de metade da coca peruana é aí cultivada. De acordo com vários meios de comunicação, também referidos pela BBC, vários dos grupos do Sendero Luminoso que ainda existem são aliados de máfias nacionais e internacionais de tráfico de droga e autodenominam-se Partido Comunista Militarizado do Peru (MPCP).

O Vraem estende-se através das regiões de Cusco, Apurimac, Ayacucho, Huancavelica e Junin e é uma das áreas mais deprimidas do país, acrescenta a BBC. Elevadas taxas de pobreza extrema, serviços de comunicação deficientes, graves défices na saúde e educação, economia principalmente agrícola e baseada no cacau, café e folha de coca (matéria-prima para a produção de cocaína) são características da região.

Citado pela mesma fonte, o analista de segurança estratégica Pedro Yaranga descreve que “uma grande parte do Vraem não tem população e é um território bastante grande e hostil, pelo que apenas as pessoas que conhecem perfeitamente certas rotas se movimentam através dele”.

O jornalista local Edgar Matienzo, da Rádio La Ruta, de Satipo, acrescenta ainda que “o Vraem é uma zona problemática, esquecida e negligenciada pelo Governo, entre outras coisas devido ao seu difícil acesso geográfico”.

Estes factos são os condimentos perfeitos para a proliferação do tráfico de droga e da violência, a tal ponto que a região é conhecida como “o vale das drogas”.

O Sendero, que provocou o terror no país, pode ter provocado cerca de 70 mil mortos, de acordo com estimativas da Comissão de Verdade e Reconciliação (CVR). A maioria dos líderes de grupo foram presos, mas no Vraem ainda há grupos que se afirmam herdeiros da organização.

Nos últimos anos, diz a BBC, o Estado aprovou extensos planos de desenvolvimento para a região, mas esses esforços não se materializaram.

O massacre no bar de San Miguel del Ene não é o primeiro ataque nestes últimos meses. Em 23 de Março, três semanas antes da primeira volta das eleições de 11 de Abril, quatro membros da mesma família foram mortos num ataque em Huarcatán, na região de Ayacucho.

Precisamente no último sábado, o Papa Francisco assinou o decreto de martírio da Irmã Agustín Rivas López, popularmente conhecida como “Aguchita”. Nascida em Coracora, no centro do país, entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor.

Durante anos, serviu os Asháninka, povo indígena do Peru. Dizem as irmãs da congregação, citadas pelas OMP, que era “uma mulher livre, forte e infinitamente caridosa com uma profunda fé em Deus”. O Sendero Luminoso assassinou-a, juntamente com outras seis pessoas, num massacre muito semelhante a este, na aldeia de La Florida, em 27 de Setembro de 1990.

 

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