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apresentacao relatorio final comissao abuso sexuais de crianças na igreja foto clara raimundo

Associação Coração Silenciado lamenta

“Igreja portuguesa continua a não fazer nada pelas vítimas reais de abusos”

| 14/12/2023

apresentacao relatorio final comissao abuso sexuais de crianças na igreja foto clara raimundo

Bispos portugueses durante a apresentação do relatório final da Comissão Independente, em fevereiro. “Quase um ano depois de ter sido apresentado o relatório pela Comissão Independente é que vamos ser recebidos pela CEP”, assinala a representante da associação Coração Silenciado. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

A Coração Silenciado – Associação de vítimas de abuso na Igreja em Portugal diz-se “desiludida” com a apresentação do primeiro relatório de atividades do Grupo Vita, que aconteceu esta terça-feira, 12, e com as declarações do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o bispo José Ornelas, que se lhe seguiram. Reconhecendo a importância da criação de um “manual de boas práticas”, divulgado nesse dia pelo grupo, consideram no entanto que continuam a faltar “iniciativas concretas” em relação aos sobreviventes de abusos no seio da Igreja Católica Portuguesa, nomeadamente no que diz respeito a indemnizações.

“Mais uma vez, a prioridade foi para evitar abusos futuros, o que é muito importante, mas há que tratar do passado, e esta terça-feira vimos que a Igreja portuguesa continua a não fazer nada pelos que foram vítimas reais desses abusos”, afirmou Cristina Amaral, representante da Coração Silenciado, em declarações ao 7MARGENS.

“A par do lançamento de um manual de boas práticas, que na realidade não traz muito de novo e não é garantia de que alguma coisa mude, deveria ter havido objetividade no que se quer fazer com as vítimas, nomeadamente no ponto das indemnizações”, acrescenta aquela que foi uma das fundadoras da associação e ela própria vítima de abusos da parte de um padre quando tinha apenas cinco anos.

“Como vimos pelas declarações de D. José Ornelas, a Igreja continua a ter dificuldades em admitir as indemnizações. Já o patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, tem outra posição. É inadmissível que a Igreja não fale a uma só voz sobre uma questão tão séria e grave como esta”, refere ainda Cristina Amaral.

Tendo sido uma das vítimas a participar no encontro com Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, Cristina Amaral reconhece “uma enorme diferença” entre a postura do Papa e a da maioria dos bispos portugueses. “Ele, sim, no pouco tempo que esteve em Portugal, fez questão de nos escutar atentamente e de fazer um pedido sincero de perdão. Quantos bispos já se encontraram com vítimas?”, questiona.

Cristina Amaral assinala, a propósito, que “só esta semana, passado mais de um mês de ter sido enviada uma carta aberta à CEP pela associação, é que responderam a propor um encontro para inícios de janeiro”. “Aquilo que sentimos é que, em todo este processo, há muita contradição e muito ganhar tempo da parte da Igreja. Chega a roçar o ridículo. Quase um ano depois de ter sido apresentado o relatório pela Comissão Independente é que vamos ser recebidos pela CEP, e que medidas concretas é que foram realmente adotadas? Há um grupo que é temporário e que não se sabe até quando vai funcionar, há um manual com ‘mandamentos’ que já todos deveriam cumprir há muito tempo… Tudo isto é uma mão cheia de nada”, conclui.

 

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