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Igreja Portuguesa: nem “Laudato Si'”, nem “Laudate Deum”

| 16/01/2024

Laudato Si, natureza.

Papa Francisco: “Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura.” Foto: Movimento Laudato Si’ /Direitos reservados

 

Há acontecimentos na Igreja Católica Romana que nunca se esquecem, talvez porque se farejam neles algumas novidades que podem trazer à instituição “igreja” aquilo que lhe falta. É, por exemplo, a realização da Jornada Mundial da Juventude, que se pode traduzir para ela um símbolo de rejuvenescimento, mercê da tão importante adesão de jovens e não só. E, de facto, o abandono da maior parte dos jovens da igreja é motivo para não compreender porque os jovens aderiram e deliraram com a JMJ. Disse-o, sobre as razões dessa adesão, o agora Cardeal D. Américo Aguiar, para quem o quis ler ou ouvir. Muitos, no entanto, embriagados pelo “sucesso”, daquilo, que sem dúvida, é uma marca indelével que fica no coração de cada um/a participante, pode não se traduzir num “arrebanhar de vocações” com quem tantos sonham. Ou pelo menos para as “vocações masculinas” de que tanto precisam. Vocações de quem, pelo menos, não levantará “problemas” nas leis amanhadas pelos “servos sapientes” nos códigos canónicos ou das dum “magistério” sem traduções na cultura dos nossos dias e longe, mas muito longe, do Evangelho de Jesus, da Palavra, da Tradição e da Razão. Não gostaria, embora não seja esse o objeto desta crónica de, na minha opinião, deixar de louvar a decisão da Conferência Episcopal Portuguesa pela atitude de conceber a aplicação de Bênção a situações ditas “irregulares” e que no seu fundo nada possuem de irregularidades, mas do casamento da Palavra e da Razão, alinhada com a Tradição. Lembro-me que em determinada altura falava com uma jovem e calhou na conversa uma referência religiosa, ao que ela me disse que não queria saber disso para nada, pedi desculpa, mas era uma frase do Papa Francisco, diz ela: “Calma, eu disse que não queria falar em religião, mas do papa Francisco quero”.

Mas, hoje, gostaria de falar sobre alguma coisa que muitos se esquecem ou querem esquecer. Ao fazer oito anos da publicação da Laudato Si, que no nosso país foi completamente esquecida, o Papa Francisco bem ciente do esquecimento de tantos da hierarquia publicou um “lembrete” a Laudato Deum, e parece – ou tenho a certeza e a evidência? -, será completamente arrasada por quem esqueceu a anterior. Não estou a dizer que nas homílias “maçadoras” não as mencionem, mas só quando já ninguém as ouve, ou duvidam que alguém está mais de dez minutos a escutar uma homília? Aquelas publicações papais são para ser esquecidas pela hierarquia religiosa de Portugal, talvez porque sejam por demais incisivas, ou porque tenham antes delas sido levantadas por teólogos eminentes e afastados, como Leonardo Boff. Ou mesmo porque circunstancialmente não atraem um milhão e meio de pessoas. Lembro-me que em determinada reunião de uma vigararia de uma diocese em Portugal, quando proposto a medição do carbono em cada paróquia o assunto foi logo descartado. Lembro-me quando numa diocese o assunto foi proposto ao seu bispo, ele afirmou ter já assumido isso e nomeado uma pessoa encarregada da juventude para tal. Como se isso fosse de caráter só da juventude. Mas nada se está a fazer!

Para alimentar esta minha preocupação transcrevo um parágrafo da Laudate Deum, diz Francisco: “Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura.”

Na Igreja Portuguesa, nem Laudate Si, nem Laudato Deum, são vozes a escutar, ela está preocupada com “apanhar” multidões, principalmente “masculinas” e que forneçam padres obedientes e fiéis observadores das “regras”, exceciono alguns, claro. Os documentos papais não são para esquecer, por mais duros que sejam logo que sejam determinados pelo Evangelho de Jesus.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

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