Hans Zollner sobre abusos sexuais

Igreja portuguesa tem de fazer trabalho de casa antes que escândalos rebentem

| 31 Mai 21

O padre Hans Zollner é responsável pelo Centro para a Proteção de Menores do Vaticano e faz parte da comissão criada pelo Papa Francisco para trabalhar sobre estas matérias sensíveis. Foto © Agência Ecclesia/HM

 

O padre Hans Zollner, presidente do Centro para a Protecção de Menores (CPM), integrado no Instituto de Psicologia da Universidade Pontifícia Gregoriana (Roma), aconselhou neste fim-de-semana os bispos e superiores religiosos da Igreja Católica em Portugal a fazerem o trabalho de casa no âmbito dos abusos sexuais a crianças, para evitar que os escândalos rebentem.

“O que digo aos bispos e aos superiores religiosos é: ‘façam o vosso trabalho de casa já, antes que os escândalos rebentem’. Porque isto vai ficar connosco, isto não vai desaparecer amanhã, não vai acabar em dois anos, em cinco anos”, afirmou, em entrevista à agência Lusa, citada pelo Público.

Hans Zollner orienta nesta segunda-feira, 31 de Maio, uma formação para superiores das congregações religiosas em Fátima. Na terça, estará com o clero da diocese, em Braga, com idêntico objectivo. No sábado, o padre jesuíta esteve já em Fátima a orientar uma formação para todos os responsáveis das comissões de protecção de menores, das diferentes dioceses.

Questionado sobre se não seria preferível uma grande investigação em todas as dioceses do mundo, para evitar a sucessão de casos durante anos e anos, o jesuíta diz que as situações jurídica e cultural são muito diferentes e que por isso não vê “que seja possível que tal possa acontecer de uma vez por todas em todas as igrejas locais”, argumentou.

O padre Zollner admite, no entanto, que “em muitos países do mundo ainda não” se começou “a falar sobre casos de abusos na Igreja”. Por isso, insiste em que se faça o trabalho de casa, pois se os responsáveis “não o fizerem agora, terão de o fazer dentro de 10 anos, 15 anos, no tempo que for” – ou os “sucessores terão de o fazer”. E “a dada altura, o escândalo será muito maior do que seria agora”.

No entender do padre Hans Zollner, se os responsáveis o “fizerem agora, prestarão um serviço muito melhor à Igreja do que tentar manter a situação debaixo do tapete”. A verdade virá ao de cima em algum momento, avisou na conversa com a Lusa já citada, e esse trabalho já pode ser feito, aprendendo com outras experiências e dando o exemplo do seu próprio país.

Admitindo que o tema ainda é um tabu na Igreja, em algumas zonas do mundo, Zollner recordou as medidas já tomadas nos últimos anos e diz que “está para ser publicada uma reforma das leis penais do Direito da Igreja”.

 

Mudança de mentalidade é necessária 

“É necessária uma mudança de mentalidade, porque às vezes a impressão é que as coisas são feitas só ou maioritariamente devido à pressão que se sente”, diz o padre Zollner. Foto © Ulrike Mai / Pixabay

 

Sobre a realidade concreta portuguesa, o responsável do CPM (e que integra também a Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores, criada em 2014 pelo Papa Francisco), diz que o trabalho da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) “é suficiente para cumprir regulamentos”, mas é necessária uma mudança de mentalidade.

“O que tem sido anunciado e o que tem sido feito é suficiente para cumprir com os regulamentos. O que espero é que a Conferência Episcopal e as congregações religiosas não se limitem a cumprir com as obrigações da lei canónica”, disse ainda à Lusa, considerando que “isso não é suficiente, é necessária uma mudança de mentalidade, porque às vezes a impressão é que as coisas são feitas só ou maioritariamente devido à pressão que se sente”.

Zollner tem centrado muito do seu trabalho nesta área na protecção das vítimas – daí o Papa Francisco tê-lo escolhido para presidente do CPM. E também sobre isso disse à Lusa: “Cumprir meramente a letra dos regulamentos não é tudo. Devemos entender, nós próprios, que temos de cuidar das pessoas que são mais vulneráveis.” E acrescentou: “A protecção de menores e de pessoas vulneráveis dentro da Igreja e da sociedade é uma parte integrante da missão da Igreja”, mas “esta nova mentalidade ainda não está suficientemente arraigada na prática da Igreja, mesmo entre os fiéis”, embora haja “bons exemplos no mundo onde as vítimas são verdadeiramente ouvidas”.

Tomando mesmo a linguística, dizia o padre jesuíta: “Em algumas línguas, como por exemplo em português, existe a distinção entre ouvir e escutar. Ou seja, escutar é muito mais do que simplesmente ouvir, é abrir o coração e a mente, com empatia, à realidade sofrida por uma outra pessoa.” E justificou: “As vítimas contam histórias devastadoras e acompanhá-las, tendo elas essas feridas, é um enorme desafio.”

“O que não percebemos até agora é o trauma espiritual, a dor espiritual das pessoas que acreditavam em Deus, acreditavam na Igreja, acreditavam em padres e bispos” e essa confiança “foi quebrada ou destruída completamente”, declarou.

“Nós não nos damos conta, por vezes, como Igreja, como pode ser grande o sofrimento espiritual. Por isso, precisamos de perceber que escutar consome muito tempo, gasta muita energia. Não é possível escutar alguém que foi violado com 9 ou 14 anos e, imediatamente a seguir a esta escuta, continuar como se nada tivesse acontecido”, referiu, adiantando: “O que eu aprendi disto, de escutar várias vítimas, é que Jesus Cristo sofre com elas e que as acompanha, mesmo nos momentos mais difíceis.”

 

Fazer justiça às vítimas 

Hans Zollner: falta uma “verdadeira escuta” em alguns países sobre a questão dos abusos sexuais. Foto © Agência Ecclesia/HM

 

Sobre a justiça que se deve fazer às vítimas, o padre Zollner disse também, numa outra entrevista, à agência Ecclesia: “Enquanto não fizermos justiça às vítimas do passado, o nosso trabalho de prevenção não será totalmente credível.” E acrescentou: “Este é uma chaga, que temos de assumir, como Igreja, também como sociedade”, acrescentou.

“Estou convencido que deveria ser obrigatório para um bispo, um provincial religioso ou um padre ouvir as vítimas, reflectir, rezar com elas”, mas em muitos países ainda não se chegou a uma “verdadeira escuta” das vítimas, sugeriu, na mesma entrevista.

Para o presidente do CPM, é preciso também evitar um novo abuso, em que “a dor e a ferida” de quem foi abusado sejam “instrumentalizadas” por responsáveis católicos.

Na entrevista à Ecclesia, Zollner referiu-se ainda à integração de Juan Carlos Cruz, vítima de abusos sexuais no Chile, no CPM. Cruz, recorde-se, foi responsável pelas denúncias dos crimes cometidos pelo então padre Fernando Karadima, que depois seria expulso do sacerdócio pelo Papa Francisco em 2018. É importante, disse, ter naquele organismo o contributo de “uma das vítimas mais conhecidas em todo o mundo”.

Este tema, referiu ainda na mesma entrevista, é uma prioridade muito clara para o Papa e ele próprio disse que aprendeu muito, nos últimos anos, com a realidade do sofrimento das vítimas”.

Para o padre Zollner, já houve “avanços significativos” em países como a França, Irlanda e algumas zonas dos EUA. Mas, admite, a nível mundial há atrasos na criação das comissões de proteção de menores. Não só por causa da pandemia e de “dificuldades objectivas”, como guerras e catástrofes naturais, mas também por uma “resistência bastante forte” de alguns responsáveis.

Zollner considera, no entanto, que já há várias zonas do mundo em que “as crianças estão mais seguras numa instituição católica do que noutras, porque a Igreja Católica levou muito a sério este trabalho.”

 

Uma queixa em investigação em Portugal

Ilustração do artista TVBoy, sobre os abusos sexuais: é preciso acabar com uma pseudo-autodefesa que “leva a que não se faça justiça”, pediu o presidente da Conferência Episcopal no sábado. Foto: Direitos reservados

 

Um levantamento feito pelo Público na edição do jornal de sábado, 29, conclui que, um ano depois da criação das comissões diocesanas, não há nenhuma estatística centralizada a nível nacional. Mas o bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, que preside à respectiva comissão diocesana, diz que “seria útil e benéfico” haver dados centralizados, “até para a promoção de um clima de confiança transversal e capaz de ajudar as potenciais vítimas a abrirem essa página dolorosa das suas vidas”.

No dia 12 de Maio, em Fátima, o porta-voz da CEP admitira aos jornalistas: “Não temos dados nacionais e não vos posso dar números porque poderiam estar errados, se é que os há.”

O Público acrescenta que, de todas as 20 dioceses, quatro não responderam à pergunta sobre se tinham recebido queixas ou não: Angra, Guarda, Viana do Castelo, Viseu. Nas restantes, outras três relatam ter recebido quatro queixas: Braga, Bragança-Miranda e Funchal. No entanto, nenhuma delas surgiu antes de constituídas as comissões, diz o jornal, além de que os casos já estavam prescritos ou a ser investigados pelas autoridades. Apenas em Bragança-Miranda há um caso em investigação (ligação apenas disponível para assinantes).

No dia 1 de Janeiro, a CEP publicou novas directrizes para “protecção de menores e adultos vulneráveis”, que estabelece, que a prevenção “deve ser uma prioridade”.

Em declarações à Ecclesia neste fim-de-semana, também o presidente da CEP e bispo de Setúbal, José Ornelas, sublinhou a importância de “criar uma mentalidade” para acabar com uma pseudo-autodefesa que “leva a que não se faça justiça”, nem se recuperam vítimas, nem se faça o trabalho necessário “com aqueles que causam estas vítimas”.

 

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