[Debate 7M: A Igreja e os média-1]

Igreja precisa mais dos média do que o contrário

| 21 Mai 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Paulo Nogueira, jornalista da SIC.

Paulo Nogueira, jornalista da SIC. Foto: Direitos reservados

Paulo Nogueira, jornalista da SIC. Foto: Direitos reservados

 

Quando se pergunta se em Portugal a relação da Igreja com os média e os jornalistas é boa, uma resposta simplista é sempre uma má resposta, principalmente porque estamos a falar de uma instituição, a Igreja Católica, que por si só é uma multiplicidade de realidades. Para ser honesto, prefiro responder que não há uma resposta, mas muitas respostas, tantas quanto as instituições ou os serviços que constituem a Igreja portuguesa. Claro que temos a Conferência Episcopal, o Patriarcado de Lisboa, as várias dioceses, o Santuário de Fátima, as inúmeras ordens e instituições que, de alguma forma, estão ligadas à Igreja e sobre as quais seria possível fazer uma análise da forma como cada uma se relaciona com os meios de comunicação social. De uma coisa tenho a certeza: a Igreja precisa dos meios de comunicação social e o contrário também é verdade; embora hoje em dia, acredito que a balança cai mais para o lado da Igreja na sua necessidade de chegar e comunicar bem com os média, do que o contrário.

De uma maneira muito generalizada, diria que as janelas abertas pelo Concílio Vaticano II “arejaram” o modo como a Igreja portuguesa se tem posicionado nos últimos anos, principalmente no período da Democracia, quer em relação à sociedade civil, no geral, quer em relação à comunicação social. Não sendo propriamente um meio hostil, os diversos órgãos de Comunicação Social não são pródigos a dar “tempo de antena” sobre o que a Igreja pensa ou faz nas suas diversas facetas. Há uma relação institucional respeitosa dos media em relação à Igreja Católica, mas não há um investimento em tempo ou espaço de notícias sobre as atividades da Igreja em Portugal. Na maioria dos casos, não só não há esse investimento, como nos corpos redatoriais há uma franca falta de jornalistas com formação ou apetência por cobrir esta realidade. Não quer dizer que as redações dos media sejam ateias ou agnósticas, mas mesmo havendo crentes no meio profissional, o tipo de informação séria e profunda sobre as realidades eclesiais ou do âmbito social da Igreja, não motiva quem dirige ou tem a responsabilidade editorial nas diversas redações. Por essa razão, a atividade da Igreja fica muitas vezes reduzida aos grandes eventos mediáticos, sejam os protagonizados pelo Papa Francisco, ou aos grandes eventos religiosos, nomeadamente a atividade do Santuário de Fátima no 13 de maio e no 13 de outubro, ou as celebrações do Natal e da Páscoa, o que é francamente pouco. Excluo desta apreciação, o destaque dado aos escândalos ou às ocorrências pontuais que possam motivar a atenção dos meios de comunicação social.

Embora na minha atividade profissional raramente aborde as questões relacionadas com a Religião ou a Igreja, penso que o panorama no geral tem melhorado à medida que novas gerações do clero têm investido numa boa comunicação e têm promovido melhores gabinetes de comunicação em diversas instituições, gabinetes esses que cada vez mais estão à responsabilidade de leigos com formação própria na matéria.

Entre as maiores dificuldades ou facilidades que tenho encontrado, relaciono-as com a forma como a comunicação se faz hoje em dia. Ou seja, quanto menos profissionalizada é essa comunicação, mais dificuldades apresenta. Veja-se o caso do Santuário de Fátima, um raro exemplo de boa comunicação com a imprensa.

Para que a relação possa melhorar, seria importante apostar na formação, quer do lado da Igreja, quer do lado dos media, onde também há muito desconhecimento sobre os temas da religião ou da própria vida da Igreja.  Se houver honestidade e transparência de parte a parte, estou convencido que os responsáveis católicos estarão mais recetivos a escutar os jornalistas e dar-lhes a importância devida na sociedade atual. Eles não só são formadores de opinião, como são influenciadores nas leituras que o cidadão poderá ter da vida da Igreja.

Do lado dos média é fundamental formar jornalistas nesta área, bem como elevá-la ao nível de qualquer outra, mantendo um corpo redatorial especializado e abalizado para poder escrever com propriedade e verdade sobre os temas mais sensíveis da atividade da Igreja bem como sobre o seu papel na sociedade.

Embora haja ainda muito para andar, penso que há um caminho feito, tímido é certo, mas que não deve parar ou estagnar.

 

Paulo Nogueira é jornalista da SIC e tem acompanhado peregrinações em Fátima e visitas papais a Portugal.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This