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Grupo reza pelo planeta Terra. Foto Doidam 10
Há que responder a “lacunas na forma como as Igrejas locais atualmente ouvem e respondem ao clamor da terra”. Foto © Doidam10

Mais dois relatórios do Sínodo

Igreja quer escutar o “clamor dos pobres e da terra”

| 24/03/2026

A Igreja Católica deveria incluir grupos marginalizados nos seus órgãos participativos, bem como criar um Observatório Eclesial sobre Deficiência, com dimensão internacional e expressão local. Estas são algumas das largas dezenas de recomendações esta terça-feira, 24 de março, dadas a conhecer pelo Vaticano.

As recomendações constam do relatório final do Grupo de Estudo nº 2, um dos vários que foram criados pelo Papa Francisco para aprofundar temas que não foi possível tratar no recente Sínodo sobre a Sinodalidade. Este tinha por tema “A escuta do clamor dos pobres e da Terra”.

O relatório, de mais de 40 páginas, foi realizado por um grupo que incluía membros de praticamente todos os continentes (a exceção foi o Médio Oriente) e foram ainda criados dois subgrupos: um sobre deficiência (constituído em grande parte por pessoas com deficiência) e outro com teólogos comprometidos com comunidades que vivem em situações de pobreza ou marginalização.

Além dos materiais de auscultações e sínteses reunidos no âmbito do processo sinodal, o grupo recorreu a quatro questionários, a análise documental, a contribuições escritas resultantes de um apelo mundial e uma colaboração especial da União Internacional de Superiores Gerais. Um aspeto interessante foi o envio para as “bases” de um primeiro esboço de recomendações, para efeitos de melhoria e validação.

O documento estrutura-se em torno das cinco questões que o Papa colocou como tarefa do grupo: quais os meios e condições de que a Igreja já dispõe para a escuta dos pobres e da terra, com vista a ampliar esse canais; como reforçar o vínculo entre a comunidade cristã e os que trabalham na caridade e ecologia integral; como articular caridade, redes de iniciativas e defesa de direitos (porque nenhuma forma de resposta neste campo é suficiente sozinha); que pode fazer a investigação teológica para escutar os pobres e a terra; e como responder às necessidades formativas e espirituais dos que servem os pobres e a terra, de forma a incluir encontros reais com pessoas pobres, treino explícito de escuta, análise social com perspetiva de género, e uma espiritualidade de justiça. Para cada um destes pontos, o trabalho enuncia um conjunto de recomendações.

Apreciando o trabalho feito e o método adotado, o grupo enuncia também algumas aprendizagens que diz ter feito. “A sinodalidade requer tempo, confiança e diversidade”, salienta no relatório, explicando: “um trabalho autenticamente sinodal baseia-se na construção paciente de relações entre culturas e estados de vida, com um compromisso intencional de incluir mulheres e pessoas que viveram experiências de marginalização”.

Decorre daqui uma segunda nota: “A escuta deve ser relacional e participativa”, o que quer dizer que “uma escuta autêntica exige relações duradouras e recíprocas, especialmente com pessoas pobres, marginalizadas ou excluídas”, uma vez que “as estruturas, por si só, não podem substituir o encontro relacional”.

Finalmente, um ponto sobre o escutar a terra, uma vertente do trabalho aparentemente menos desenvolvida. Esta escuta “requer novas capacidades”, para responder a “lacunas na forma como as Igrejas locais atualmente ouvem e respondem ao clamor da terra”, nomeadamente no que diz respeito a “novas competências” e “uma consciência ecológica mais profunda”.

 

Poligamia: Igreja é contra, mas “respeita trajetórias individuais”

Poligamia. Foto Pexelshot

Ao longo dos séculos, os contactos com o Islão, primeiro e, depois com o cristianismo, ora reforçaram ora enfraqueceram as práticas matrimoniais polígamas. Foto © Pexelshot

O trabalho sobre “O desafio pastoral da poligamia” foi atribuído pelo Papa Francisco ao Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SCEAM), um continente em que a problemática se faz especialmente sentir, ainda que não seja exclusiva desta zona do mundo. O resultado assemelha-se mais a um documento doutrinal do que a um trabalho sinodal, não havendo referências à metodologia seguida.

Os bispos começam por enfatizar o contexto em que deve ser compreendia a instituição da poligamia. “A família africana – salientam logo na abertura – constrói-se sobre alianças: alianças entre grupos humanos, alianças com os antepassados, alianças com Deus. No coração desta família, a criança representa um tesouro inestimável, uma bênção divina. A criança perpetua o nome da linhagem e, ao mesmo tempo, ajuda a fortalecer a vida presente. Ter numerosos descendentes é uma dádiva de Deus”.

A poligamia inclui quer a poliandria (uma mulher que tem vários maridos simultaneamente) quer a poliginia (um homem com várias esposas). “A poliandria praticamente desapareceu”, pelo que o sentido de poligamia se reduz à situação de um homem com várias mulheres simultaneamente.

Referindo-se aos fatores que concorrem para a poligamia, os bispos africanos referem-se, além da questão da infertilidade da mulher, a “imperativos de sobrevivência e expansão” que eram facilitados com famílias numerosas, em contextos agrários e de nomadismo. “O casamento tinha uma forte dimensão comunitária e religiosa: envolvia famílias alargadas e inscrevia a união numa ordem sagrada”, enfatiza o texto.

Contudo, o ideal de família monogâmica estava presente em sociedades polígamas: “a primeira esposa detinha um estatuto único, enquanto as outras ocupavam uma posição secundária”. Ao longo dos séculos, os contactos com o Islão, primeiro e, depois com o cristianismo, ora reforçaram ora enfraqueceram as práticas matrimoniais polígamas.

O relatório passa, de seguida, para a visão bíblica do matrimónio, que evolui da aceitação da poligamia para a monogamia, defendida já em alguns livros do Antigo Testamento, mas enfatizada na visão de Jesus na unidade original do matrimónio: “os dois se tornarão uma só carne”.

Quanto à abordagem pastoral, os bispos recordam a primeira abordagem dos missionários, que consistia em combater a poligamia, por ser uma “forma de escravização da mulher” e, portanto, “imoral”. A intransigência ia ao ponto de colocar o casamento monogâmico como requisito para se ser cristão.

“No contexto africano contemporâneo, têm sido adotadas diversas práticas pastorais para lidar com situações de poligamia”, refere o relatório. Nuns casos exige-se que o homem polígamo que deseja receber os sacramentos “escolha apenas uma esposa, garantindo justiça e sustento para as restantes e para os seus filhos”; noutros estabelecem um “catecumenado permanente”, acolhendo o indivíduo na comunidade sem acesso aos sacramentos”; noutros ainda, a “poligamia velada” — uniões múltiplas não oficiais — “exige um apoio específico, frequentemente dirigido à mulher e aos filhos”.

O caminho que o SCEAM aponta é o de uma certa exigência, mas ao mesmo tempo, de valorização de um processo de amadurecimento, pautado pela proximidade, pela escuta e pelo respeito pelas suas trajetórias individuais. “Deve-se – entendem os bispos – privilegiar uma preparação paciente e exigente, orientada para um compromisso concreto com o matrimónio monogâmico antes do batismo. Não se trata de rejeição ou estigmatização, mas de acompanhar os indivíduos rumo a uma conversão genuína e à plena integração sacramental”, visando também “a preservação da dignidade da mulher”.

 

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