Líderes de várias igrejas protestantes e anglicanas de Moçambique chamam a atenção para a necessidade de pedir apoio aos países vizinhos e à comunidade internacional para resolver a situação de Cabo Delgado. Por seu lado, o novo bispo católico de Pemba diz que, se fosse Presidente, faria bem diferente do que Filipe Nyusi está a fazer…

Crianças apoiadas pela Oikos em Pemba: as igrejas querem mais atenção do Governo. Foto © Oikos.
O bispo Dinis Matsolo, da Igreja Metodista em Moçambique, desafia o Governo do país a levar a sério a situação de Cabo Delgado, procurando mesmo apoio regional e mundial para resolver a situação de violência na região. “A intervenção militar não pode ser evitada, mas não deve ser vista como a única solução”, diz Matsolo, citado pelo serviço de notícias do Conselho Mundial de Igrejas.
“Há necessidade de trabalhar para combater a pobreza e o desemprego, envolvendo os jovens em projectos de paz” e de “coexistência harmoniosa e antiterrorismo.”
Matsolo considera a assistência humanitária primordial e urgente, apelando a uma coordenação e planeamento adequados para atingir todos os deslocados. Ao mesmo tempo, o bispo metodista faz um apelo à comunidade internacional para que se possa eliminar o problema o mais rápido possível.
“Precisamos de agir rapidamente como um colectivo para minimizar o sofrimento do povo, mas acima de tudo, para acabar com a violência e construir resiliência para evitar que a guerra ressurja”, afirmou o bispo, de acordo com a mesma fonte.
Matsolo refere ainda que o Conselho Cristão de Moçambique (CCM) criou plataformas que tentam proporcionar “espaços de interacção e fomentar o diálogo e a coexistência pacífica e harmoniosa”. O CCM, que reúne seis igrejas cristãs (metodistas, presbiterianas, anglicanas, presbiterianas), juntou-se à Conferência Episcopal de Moçambique (católica) e ao Conselho Islâmico Moçambicano de forma a conjugar esforços para apoiar a população afectada em Cabo Delgado.
“Moçambique e os moçambicanos estão a chorar”

Mulheres e crianças estão entre as principais vítimas da situação criada pelo terrorismo. Foto © Helpo.
Nessa província, no extremo Norte de Moçambique, grupos terroristas terão já morto, desde 2017, pelo menos umas 2000 pessoas. Umas 700 mil pessoas foram obrigadas a procurar refúgio em Pemba e Nampula, mais a Sul.
Num dos últimos ataques, na cidade de Palma, a 24 de Março, terão sido mortas dezenas de pessoas, incluindo estrangeiros. Palma, um porto marítimo e centro de pesca, ganhou nova vida quando várias multinacionais de petróleo e gás ali se instalaram para explorar os grandes depósitos de gás natural descobertos na área em 2012.
“Moçambique e os moçambicanos estão a chorar. Alguns estão a chorar enquanto rezam ou andam à procura de comida, de roupa, de água. Outros estão a chorar enquanto cuidam daqueles que estão traumatizados”, afirmou a reverenda Felicidade Naume Chirinda, presidente do Conselho Cristão de Moçambique.
A bispa Joaquina Filipe Nhanala, da Igreja Metodista Unida, considera os ataques em Cabo Delgado uma “invasão exterior”, que junta a tragédia dos ataques à devastação dos ciclones Idai e Keneth.
Neste momento, acrescenta a reverenda Victoria Chifeche, do Comité Ecuménico para o Desenvolvimento Social, é necessário satisfazer necessidades imediatas como a segurança, a assistência urgente a centenas de milhares de pessoas ainda em áreas inseguras, e o apoio aos deslocados e comunidades de acolhimento.
Os deslocados – que são sobretudo mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência – “precisam de abrigo, alimentação, comida para bebés, conjuntos de cozinha e material escolar, entre outras necessidades básicas”, enumerou.
No ano passado, o Comité Ecuménico para o Desenvolvimento Social forneceu água, serviços de saneamento e higiene, ferramentas agrícolas e sementes como parte da resposta humanitária a mil famílias deslocadas em Cabo Delgado. Desde Março deste ano, a organização está a providenciar abrigo a 300 famílias deslocadas.
“Se fosse presidente, isto seria prioridade na agenda”

O bispo António Juliasse diz que a corrupção “que atinge as esferas mais altas”. Foto © Ecclesia.
Enquanto a situação no terreno continua extremamente precária para os milhares de deslocados, o administrador apostólico da diocese católica de Pemba, o bispo António Juliasse, criticou a estratégia do Governo liderado pelo Presidente Filipe Nyusi, numa entrevista nesta terça-feira, 27, ao Observador (só para assinantes).
Na entrevista, António Juliasse disse o que faria se fosse presidente: “A minha preocupação seria outra. A minha presença seria outra. Isto seria prioridade na agenda. Estaria a falar disto todos os dias. E até a delegar outras funções. Para inaugurar uma escola, tenho ministros, vice-ministros, primeiro-ministro. Para me dedicar a uma causa que realmente afecta a soberania nacional é preciso encontrar com muita urgência resultados eficazes e não minimizar um problema destes.”
Há duas semanas, o ex-bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, acusou o Governo de Moçambique de o ter ameaçado de expulsão, apreensão de documentos e de morte, por causa das suas chamadas de atenção para os atentados terroristas em Cabo Delgado.
Dias depois, como o 7MARGENS também noticiou, a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) traçou um diagnóstico severo da situação. Num documento publicado a 16 de Abril, embora não critiquem directamente o Governo, os bispos dizem que os decisores políticos têm de resolver os problemas da fome, a ausência de condições de vida digna e falta de perspectivas para os jovens, principal causa da violência.
No dia 18, num comunicado que resumia o que tinha sido na assembleia plenária da CEM, os bispos elogiavam também a acção de Luiz Lisboa, definindo o momento actual do país como de “grande tribulação”.
Na entrevista ao Observador, o bispo Juliasse critica ainda a falta de esforços contra a corrupção “que atinge as esferas mais altas” e a forma como o Governo tem minimizado a guerra em Cabo Delgado. Os bispos, diz, entendem que não se está a fazer o suficiente para resolver os problemas do povo e, em especial, dos mais jovens: “Se perguntarmos a um jovem para que lado vai o país, há uma insatisfação muito grande. Se perguntarmos qual é o seu futuro, têm dificuldade em pronunciar-se a respeito. Em nosso entender, devem ser apontados caminhos com clareza… para que lado vamos. Quando se vê que alguns poucos vão se beneficiando cada vez mais e tantos outros jovens não têm possibilidade e não descortinam essas possibilidades, ficam vulneráveis para qualquer tipo de coisas.”









