Os combates continuam no leste da República Democrática do Congo (RDC), onde o movimento M23 tomou na última semana mais uma cidade estratégica, Walikale, no Kivu do Norte. No meio da violência em curso, que já fez perto de oito milhões de deslocados internos, uma delegação conjunta da Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) e da Igreja de Cristo no Congo (ECC) está a realizar encontros de alto nível para envolver todas as partes no seu “Pacto Social para a Paz e a Coexistência na República Democrática do Congo e na Região dos Grandes Lagos”. O documento foi assinado em janeiro, e as Igrejas não desistem de levá-lo à prática.
Os esforços dos bispos católicos e da ECC (organismo que reúne 64 denominações protestantes e evangélicas no país) já conduziram a encontros com representantes das diferentes fações do conflito, nomeadamente o Presidente congolês Félix Tshisekedi, o Presidente do Ruanda Paul Kagame, e um coordenador da Alliance Fleuve Congo (AFC), a ala política do movimento de guerrilha M23. No passado dia 19 de março, os líderes religiosos reuniram também com o Presidente francês Emmanuel Macron, que manifestou o seu total apoio ao roteiro de paz das Igrejas cristãs. Estas pretendem levar a voz da sociedade civil congolesa à comunidade internacional e, em particular, ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, adianta o Vatican News.
A urgência desta missão aumenta à medida que se agrava a crise humanitária no terreno. Cidades como Goma e Bukavu são dominadas pelo medo, e os civis são sujeitos a violência tanto por parte de rebeldes como de elementos criminosos. As forças policiais e governamentais fugiram ou foram dominadas, deixando os residentes vulneráveis a pilhagens, extorsões e execuções sumárias.
A crise dos deslocados internos – que são já pelo menos 7,8 milhões – está a agravar-se, com milhares de mortos e muitos mais obrigados a fugir das suas casas. A fome é galopante e os esforços de ajuda continuam a ser insuficientes devido a restrições logísticas e de segurança. Para além de uma grande crise humanitária e de deslocações em massa, os combates e a insegurança em curso provocaram o encerramento de escolas e paralisaram a economia local, alertam ainda os média do Vaticano.
As mulheres, entre a vida e o desespero

As congolesas “estão a lutar e querem que toda a humanidade entenda sua história”. Foto © Mujeres en Marcha
Dentro do conflito, desenvolve-se também “uma emergência silenciosa”: “aquela sofrida por mulheres e meninas”, sendo que “mais de 100 mil foram violadas e torturadas, uma a cada quatro minutos”, alerta uma reportagem da revista Vida Nueva publicada esta segunda-feira, 24 de março. Segundo relata o jornalista Enrique Villalba, há uma “relação direta” entre a escalada do conflito e o aumento da violência contra as mulheres. “Gravidezes indesejadas, HIV e fístulas… Os corpos das mulheres tornam-se uma tela para o terror e a desumanidade, com o objetivo de destruir comunidades e frustrar qualquer resistência”, escreve.
Também perante esta faceta da guerra, a Igreja tem assumido um papel determinante, com as ONG jesuítas Entreculturas e Alboan a promover o programa Mulheres em Marcha, que promove a recuperação física e psicológica de mulheres sobreviventes de violência sexual, através de vários projetos para promover o seu desenvolvimento pessoal, educacional, económico e social, com o objetivo de ajudá-las a “sair de uma posição de vulnerabilidade para se tornarem donas das suas próprias vidas”.
Apesar da violência, as mulheres resistem. “Nós encontramo-las com coragem, com esse comprometimento de poderem transformar-se. Elas dizem a si mesmas que a dor indescritível que vivenciaram as torna mais fortes e as motiva a continuar o caminho para que as nossas filhas, para que as gerações futuras, não tenham que passar pela mesma coisa”, diz Julienne Baseke, uma jornalista e ativista local. Por sua vez, Caddy Adzuba, advogada congolesa, ressalta que, no meio de todo o horror e desespero, “também há mulheres que se tornaram defensoras dos direitos de outras mulheres. Elas estão a lutar e querem que toda a humanidade entenda sua história”.
Assim, mesmo com todas as dificuldades que atravessam, “as mulheres congolesas são uma represa, talvez a última, entre a vida e o desespero” naquele que é o pior conflito no Leste do Congo desde a guerra de 1998-2003 que envolveu vários países vizinhos e resultou em milhões de mortos, conclui por seu lado Villalba.
A verdade é que, com a participação de tropas da RDC, do Ruanda e do Burundi nos atuais combates, corre-se o risco de evoluir novamente para uma guerra regional mais vasta. Guerra essa que, tal como foi recordado pelos participantes de uma conferência organizada no passado dia 20 pela Pontifícia Universidade Antonianum e intitulada “Repensar a Paz na República Democrática do Congo”, está enraizada nas consequências do genocídio do Ruanda em 1994 e na competição pelas riquezas minerais, incluindo cobalto, ouro, diamantes e recursos minerais metálicos, com as empresas multinacionais a “aproveitar-se da fraqueza do Estado para os seus próprios interesses”.
(Imagem de destaque: O conflito na RDC está a gerar milhões de deslocados internos. © AcnurBernard Ntwari)










