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encontro da Conferência das Igrejas Europeias, realizado em Helsínquia (Finlândia). Foto CECKinga Majewska
Cerca de 90 líderes religiosos reuniram-se para abordar “as narrativas imperiais e a ideologia do ‘Mundo Russo’”. Foto © CEC/Kinga Majewska

Ideologia do 'Mundo Russo'

Igrejas europeias denunciam abuso da fé cristã e sacralização do poder político pelo Patriarcado de Moscovo

| 09/12/2025

A denúncia da instrumentalização da fé cristã e o “desmascaramento da sacralização do poder político” por parte da Igreja Ortodoxa Russa e outras igrejas deste país surgem como pontos salientes da tomada de posição saída de um recente encontro da Conferência das Igrejas Europeias, realizado em Helsínquia (Finlândia).

Cerca de 90 líderes religiosos, parceiros ecuménicos e académicos reuniram-se de 1 a 3 deste mês para abordar, por meio da análise histórica e da reflexão teológica, “as narrativas imperiais e a ideologia do ‘Mundo Russo’”, elaboradas pelo Patriarca Cirilo, para justificar, nomeadamente, a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

O documento saído dessa reunião, intitulado Resistindo ao Império, Promovendo a Paz: Igrejas Confrontam a Ideologia do ‘Mundo Russo’, explica que esta ideologia surgiu após a queda do regime soviético, num processo em que as elites intelectuais russas e a Igreja Ortodoxa Russa foram construindo um discurso sobre “identidade social e expansionismo político sob o guarda-chuva ideológico do ‘Mundo Russo’ (Russkii mir)”.

De acordo com essa ideologia, o “Mundo Russo” é apresentado como “um espaço cultural, espiritual e geopolítico, bem como uma esfera de influência e uma civilização distinta”, enunciado em torno de ideias que – nota o documento – “frequentemente carecem de coerência interna e obscurecem a fronteira entre ideologia política e teologia”, que levam a distorcer a fé cristã.

Na década de 2020, considera o texto, essas ideias foram-se configurando “numa ideologia imperial, servindo para justificar o ataque não provocado da Rússia contra a Ucrânia como uma ‘guerra santa’, chegando a prometer preventivamente a remissão dos pecados aos soldados culpados de crimes de guerra”. Essa ideologia seria sucessora de doutrinas teopolíticas russas anteriores — como “Moscovo, a Terceira Roma” e “Santa Rússia” — assim como do expansionismo soviético.

Além disso, a ideologia do ‘Mundo Russo’ “nega a identidade nacional dos ucranianos e das nações vizinhas, bem como seu direito à autodeterminação”. Por outro lado, apoiada numa “visão dualista”, retrata o Ocidente — com sua ênfase em direitos humanos, democracia, liberalismo, igualdade de género e autonomia individual — como “um mal a ser combatido pela Rússia, através da assim chamada ‘batalha metafísica’, pelos ‘valores tradicionais’”, supostamente defendidos pela Rússia.

À Igreja Ortodoxa Russa caberia, no quadro ideológico assim desenhado, o papel de “fornecer apoio quase teológico e institucional à invasão, silenciando assim a dissidência dentro do seu próprio clero e outros membros”. Nesta linha, os atos de invasão e ocupação por parte da Rússia seriam operações de “autodefesa”.

Os problemas teológicos que uma tal ideologia suscita apontam para um quadro de heresia, segundo a tomada de posição da Conferência das Igrejas Europeias. E dá exemplos baseados em intervenções públicas do patriarca Cirilo: “a afirmação de que a morte de um soldado em serviço purifica automaticamente os seus pecados, enquadrando-a como um ato sacrificial, é herética, assim como o é descrever a invasão da Ucrânia pela Rússia como uma ‘guerra santa’ e retratar a Rússia como (…) uma força que restringe o mal global — também são heréticos”.

Nas respostas que as igrejas europeias devem dar para “resistir ao Império”, o documento sublinha, entre outras, a necessidade de “cultivar a alfabetização teológica” e “priorizar a educação democrática” para “resistir à manipulação, como propaganda e desinformação”.

Um futuro “justo e reconciliado”, que as igrejas consideram que urge construir, passa por “promover o diálogo sobre verdade e reconciliação entre as igrejas locais na Europa Oriental e Ocidental e as igrejas na Rússia que resistem a todas as formas de nacionalismo religioso, excecionalismo e conceitos imperialistas”. Passa também por “promover e apoiar a prevenção não violenta de conflitos”, pela afirmação da dignidade humana e dos direitos humanos, bem como pela defesa do direito internacional, nomeadamente pela defesa da inviolabilidade das fronteiras internacionais.

 

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