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Batismo na Missão Cristã Internacional, abril 2025. Foto MCI
A média de batismos por igreja evangélica aumentou 44% nos últimos dois anos. Foto © MCI

Estudo da AEP

Igrejas evangélicas crescem em Portugal, não só por causa dos migrantes: há muitos portugueses católicos a converter-se

| 04/06/2025

A esmagadora maioria dos líderes evangélicos em Portugal assegura que as suas igrejas estão a crescer e os números confirmam: a média de frequência nos atos de culto aumentou 21% nos últimos dois anos e os batismos cresceram 44%, revela um estudo da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) a que o 7MARGENS teve acesso em primeira mão. Mas desenganem-se os que pensam que este crescimento se deve apenas – ou sobretudo – à imigração: a mesma pesquisa revela que a maior parte dos novos convertidos nasceu em Portugal e 48% eram “católicos não praticantes”.

“A maioria dos novos convertidos são mulheres jovens (82% com menos de 43 anos), nascidas em Portugal (54%) e com uma experiência religiosa anterior, principalmente como católicos não praticantes (48%)”, indica o estudo conduzido pela AEP. Intitulado “Igrejas Evangélicas em Portugal vistas de perto – Relatório 2025”, o trabalho foi coordenado por Pedro Silva e teve por base 509 entrevistas com líderes de igrejas em Portugal Continental e também nas Regiões Autónomas.

“Temos consciência de que a imigração tem sido um dos motores para o crescimento das igrejas evangélicas em Portugal. Acolher o ‘estrangeiro’ é um mandamento dado ao povo de Deus. Ao longo dos anos, as Igrejas Evangélicas em Portugal tornaram-se a casa de muitos imigrantes, que ali descobriram uma família com irmãos de várias nações, mas com um Deus em comum”, reconhece Elsa Correia Pereira, investigadora em Sociologia da Religião (ISUP-FCT) e responsável pela revisão do estudo, em declarações ao 7MARGENS.

No entanto, “o facto de mais de metade dos convertidos ter nascido em Portugal, contraria a ideia de que o crescimento evangélico se deve essencialmente a comunidades migrantes”, assinala a investigadora, que tem colaborado voluntariamente com o Gabinete de Estudos e Pesquisa da AEP.

Para Elsa Correia Pereira, não restam dúvidas de que “existem outras explicações que justificam o crescimento das igrejas evangélicas” e de que o perfil dos novos convertidos revela “uma procura por espiritualidade fora do catolicismo institucionalizado e mostra que as igrejas evangélicas estão a atrair pessoas em busca de comunidade, acolhimento e sentido de pertença”. “O aumento dos ‘sem religião’ entre os mais jovens também pode estar a contribuir para o crescimento evangélico”, acrescenta.

Dos 509 líderes que responderam ao questionário da AEP – disponibilizado online entre 28 de março e 28 de abril deste ano – 88% afirmam que as suas igrejas estão a crescer, com a média de assistência (frequência em atos de culto) a subir para 104 pessoas por igreja (mais 21% do que em 2023) e a média de batismos (por imersão, realizados a jovens e adultos “que assim desejem, como cumprimento do mandamento bíblico de dar testemunho público da sua escolha de seguir Jesus de livre vontade”) a aumentar também (são agora 13 por igreja, mais 44% do que em 2023).

Cerca de um terço dos líderes (34%) adiantam ainda que as suas igrejas não só estão a crescer como também estão a “plantar novas igrejas” e há mesmo 70% a revelar que têm “planos e local definido para plantar novas igrejas nos próximos cinco anos”.

 

 

2.100 salas de culto em funcionamento, nem todas “associadas formalmente”

Culto na igreja evangélica A Casa da Cidade. Foto A Casa da Cidade

Momento de uma celebração na igreja evangélica A Casa da Cidade, em Lisboa. Foto © A Casa da Cidade

De acordo com o mais recente relatório da AEP, cerca de 13% das igrejas foram fundadas no período compreendido entre 2021 e 2024, o que corresponde a uma taxa média anual de crescimento de 3,25% no número de igrejas. Este valor coincide com o registado no inquérito anterior (realizado pela AEP em 2023), e evidencia “uma estabilidade consistente no ritmo elevado de plantação de novas igrejas ao longo do tempo”.

Para Elsa Correia Pereira, “é particularmente relevante que apenas 2,9% das igrejas não tenham registado conversões nem batismos nos últimos dois anos, o que representa uma descida acentuada face aos 6,6% em 2023”.

Mas a que critérios obedece a plantação de uma nova igreja? “A AEP não estabelece critérios formais para a fundação/ plantação de uma nova igreja, dado o carácter autónomo e local das igrejas evangélicas”, explica a investigadora. Assim, “os critérios que definem o que é considerada uma ‘nova igreja’ diferem entre as denominações devido a entendimentos distintos”.

Há algumas denominações que têm comunidades de 200 pessoas, mas que continuam a considerá-las “missões”, ou parte de uma igreja maior, mas “outras consideram que um pequeno grupo de 12 pessoas que se reúne em casa já é uma igreja nova”, exemplifica Elsa Correia Pereira.

Mas precisamente por representar denominações evangélicas e igrejas independentes muito distintas, “é necessário ter critérios para preservar a idoneidade das igrejas que querem ser membros da AEP”, salvaguarda. Nesse caso, “os critérios principais são a identidade evangélica, organização, liderança e funcionamento autónomos, de acordo com os princípios da reforma protestante e a declaração de fé Evangélica. Se porventura surgir qualquer suspeita de erros doutrinários ou práticas contrárias à fé Cristã Evangélica ou relativamente à idoneidade dos seus líderes ou de organizações parceiras, o candidato não será admitido”, sublinha.

Quanto ao número absoluto de igrejas evangélicas em Portugal, é difícil quantificar. “A amostra de 509 líderes entrevistados indica já uma rede muito significativa”, diz a responsável pela revisão do estudo, recordando que “a AEP já mencionou em comunicações anteriores que há cerca de 2.100 salas de culto em funcionamento, embora nem todas estejam associadas formalmente”.

 

Uma geração de líderes evangélicos que “valoriza um cristianismo visível”

Momento da conferência da Missão Cristã Internacional de 2022. Fotp MCI

As igrejas evangélicas têm sido cada vez mais procuradas “como espaços de escuta e acompanhamento”. Foto © MCI

Mesmo sem uma informação exata relativamente ao número de igrejas evangélicas existentes em Portugal, uma coisa é certa: “o ritmo no estabelecimento de novos lugares de culto tem-se mantido forte e constante e percebemos que cada igreja (recém formadas e já estabelecidas há mais tempo) são comunidades que abençoam a população residente nas suas mais diversas necessidades”, destaca Elsa Correia Pereira.

Para a investigadora, é preciso considerar a relação entre “o estabelecimento de novos lugares de culto e o apoio social prestado por estes”, até porque a pesquisa demonstra 86% das igrejas “estão envolvidas em ação social”, seja em nome próprio (45%) ou através de uma associação/fundação criada para esse fim (25%), ou ainda em colaboração com outras entidades.

Neste âmbito, “as igrejas têm sido procuradas não apenas por ajuda alimentar (44%), mas também como espaços de escuta e acompanhamento”. E este aumento significativo dos pedidos de apoio emocional (18%), “está possivelmente ligado a crises de saúde mental agravadas pela pandemia, instabilidade económica e solidão, sobretudo nos centros urbanos”, aponta a investigadora. Em 9% dos casos, os pedidos de ajuda estão relacionados com a procura de habitação.

O facto de o número de igrejas a atuar em nome próprio ter crescido de 29% (em 2023) para 45% pode indicar, segundo Elsa Correia Pereira, que “as igrejas têm agora maior confiança nos próprios recursos que poderão usar voluntariamente, pelo menos numa fase inicial” e “também pode revelar uma estratégia: ganhar legitimidade pública e visibilidade como agente relevante na sociedade”.

“Teologicamente, este facto pode identificar-se com o conceito de missão integral (combinar evangelismo com justiça social)”, acrescenta a especialista em Sociologia da Religião. “A nova geração de líderes evangélicos valoriza um cristianismo visível, relevante e aplicado à vida — não apenas no culto, mas no bairro, na escola, na imigração, etc. Este compromisso é muitas vezes visto como um testemunho público da fé, e não só como uma ‘obra de misericórdia'”, sublinha.

O relatório completo será brevemente disponibilizado no sítio da AEP, estando prevista a realização de um novo estudo em 2028. “O nosso objetivo em pesquisas futuras é continuar a perceber as tendências em termos de crescimento das igrejas, do perfil dos novos convertidos, da liderança, da ação social, e avaliar o progresso da evangelização em cada região do nosso país”, adianta o coordenador do estudo ao 7MARGENS. “A AEP tem realizado este estudo de forma sistemática (2016, 2020, 2023, 2025). (…) A continuidade permite comparações longitudinais e um diagnóstico mais preciso da realidade evangélica no país”, conclui.

 

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