Irlanda celebra 50 anos do Domingo Sangrento

Igrejas juntas, políticos de costas voltadas

| 29 Jan 2022

Memorial do Domingo Sangrento, em Derry (Irlanda do Norte): “A instabilidade causada pelo Brexit espalha-se em muitas outras áreas, incluindo aniversários como o do Domingo Sangrento e em outros problemas que ainda estão por vir”, escreveu The Guardian. Foto ©  AlanMc | Wikimedia Commons

 

O bispo católico de Derry, Donal McKeown, e o bispo anglicano Andrew Forster presidiram no sábado, 29 de janeiro, a uma celebração conjunta na Igreja de Santa Maria, em Creggan (Derry, Irlanda do Norte) em memória das 14 vítimas do Domingo Sangrento (30 de janeiro de 1972), mortas pelo exército britânico quando realizavam uma marcha pacífica.

Em entrevista ao Vatican News, o bispo Donal McKeown disse estarem previstas para este domingo, 30 de janeiro, várias “manifestações, apresentações teatrais e até uma celebração no monumento dedicado às vítimas, na presença de políticos e representantes das Igrejas Católica e protestantes”.

Quanto ao conflito que opõe protestantes (unionistas) e católicos (nacionalistas) McKeown afirmou-se convicto de que “a guerra acabou”, mas “o conflito permanece no sentido de que não é um conflito dentro da Irlanda do Norte, mas diz respeito à questão de saber se a Irlanda do Norte deve pertencer à Grã-Bretanha ou à República da Irlanda”. Esse “conflito continua, mas politicamente e de forma pacífica” e, assim, de acordo com o bispo de Derry, é possível “olhar para o futuro com esperança e alegria”.

A parte norte da Irlanda integra o Reino Unido, embora a população católica (minoritária, mais pobre e mais marginalizada) defenda o fim dessa união e a integração na República da Irlanda (Estado do restante território da ilha).

 

Brexit complicou tudo

Menos esperançoso está o jornal The Guardian que, em editorial da sua edição de dia 28 de janeiro, escrevia: “O primeiro-ministro do DUP [o maior dos partidos unionistas] Paul Givan, recusou-se a participar em qualquer um dos eventos deste fim de semana (em vez disso, na quinta-feira, os seus aliados comemoraram o assassinato de dois polícias nos dias anteriores ao Domingo Sangrento). O líder do SDLP [o terceiro maior partido da Irlanda do Norte], Colum Eastwood, cujo eleitorado inclui Derry, disse que o regimento de paraquedistas foi ‘enviado à minha cidade para assassinar’ e exigiu desculpas oficiais por parte do exército britânico. Em Derry no domingo, o primeiro-ministro irlandês provavelmente estará presente, mas, ao que parece, o primeiro-ministro britânico estará ausente.”

Os editorialistas do jornal britânico recordam que “o Reino Unido e a República da Irlanda comemoraram juntos alguns importantes centenários históricos irlandeses de maneiras criativas e cooperativas que ajudaram a fortalecer o processo de paz e as boas relações entre as nossas ilhas, em vez de enfraquecê-las. Parece que agora estamos deixando para trás essa previdente abordagem”.

Mais do que o avanço do sentimento nacionalista (leia-se, integração na República da Irlanda) que todas as sondagens vêm revelando, ou os picos de violência da primavera de 2021, The Guardian aponta o Protocolo relativo à Irlanda do Norte – anexo ao Acordo de saída da Grã-Bretanha da União Europeia (Brexit) – como o maior desestabilizador da situação na parte setentrional da ilha: “A instabilidade causada pelo Brexit espalha-se em muitas outras áreas, incluindo aniversários como o do Domingo Sangrento e em outros problemas que ainda estão por vir.”

No final de setembro do ano passado os líderes dos quatro partidos unionistas da Irlanda do Norte escreveram ao primeiro-ministro britânico para que este pusesse fim ao protocolo irlandês e integrasse de novo, sem quaisquer barreiras alfandegárias ou burocráticas, a Irlanda do Norte no Reino Unido. A liberdade completa de circulação de mercadorias entre os dois territórios deixou de existir a partir do momento em que o Reino Unido deixou a UE, pois para que tal liberdade se mantivesse absoluta seria necessário interromper a liberdade de circulação entre a Irlanda do Norte (agora fora da UE) e a República da Irlanda (Estado-membro da União Europeia) o que poria em causa os acordos de paz que puseram termo a anos de guerra civil na parte setentrional da ilha.

A Irlanda do Norte é governada por uma coligação em que participam o DUP e o Sinn Féin e terá eleições legislativas no próximo mês de maio. Nas últimas eleições (2017), o DUP ficou à frente com 28,1 por cento dos votos, seguido de perto pelo Sinn Féin (27,9%), tendo o SDLP obtido 11,9 por cento dos votos.

 

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