AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu, durante a peregrinação apostólica a Jerusalém, em maio de 2014. Foto Nikolaos Manginas
Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu, durante a peregrinação apostólica a Jerusalém, em maio de 2014. Foto © Nikolaos Manginas

Recordando as pontes que criou

Igrejas ortodoxas: onda de admiração e agradecimento ao Papa Francisco

| 23/04/2025

O mundo ortodoxo sentiu de forma particularmente vigorosa a morte do Papa Francisco, reconhecendo os passos que este deu para se aproximar das diversas Igrejas. Isso é visível pela multiplicação de mensagens e de declarações tornadas públicas logo na segunda-feira, 21, em especial as do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, e do Patriarca de Moscovo, Cirilo, chefe da Igreja Ortodoxa Russa.

Boa parte das mensagens de pêsames sublinharam o facto de o Papa se ter despedido de todos no dia de Páscoa e de ter partido no segundo dia da Semana Pascal, que no cristianismo ortodoxo é também designada por “brilhante” e num raríssimo ano em que as várias igrejas cristãs celebraram a Morte e Ressurreição de Jesus na mesma data. “É quase como se o Senhor tivesse adiado a morte do Papa para que ele pudesse experimentar a última Páscoa muito simbólica”, observou o norte-americano Peter Anderson, que é um conhecido observador e estudioso do campo ortodoxo.

E, conforme os posicionamentos dos dirigentes estão mais próximos do lado russo ou do lado ‘ecuménico’, as manifestações sublinharam mais ora a simplicidade de Francisco e a humildade e proximidade com os descartados e os pobres, ora as suas convicções e tomadas de posição a favor das pontes e da paz entre os povos.

Anderson sublinha que melhorar as relações com as Igrejas ortodoxas e orientais “foi uma grande prioridade” para o Papa Francisco e sugere que estava em perspetiva uma eventual viagem do Pontífice a Niceia (Iznik), na Turquia, em finais de maio próximo, para a celebração dos 1.700 anos do Concílio de Nicéia em conjunto com o seu amigo Patriarca Bartolomeu.

Francisco fez questão de visitar vários países em que que a Igreja ortodoxa é dominante ou tem forte expressão (Jerusalém-Israel, Albânia, Turquia, Bósnia e Herzegovina, Grécia, Arménia, Geórgia, entre outros). Muitos primazes que contactaram pessoalmente com Francisco ficaram tocados pela sua humildade e calor pessoal. Com o Patriarca Cirilo, as relações foram dificultadas nos anos mais recentes, pela sua legitimação da invasão e guerra com a Ucrânia e apoio incondicional a Putin, mas registou-se, em fevereiro de 2016, o célebre encontro de Havana, o primeiro entre um Papa e um Patriarca de Moscovo, em mais de mil anos. As relações com o Patriarca Bartolomeu tornaram-se tão significativas e regulares que Francisco tinha sobre a sua secretária uma foto do seu amigo.

Peter Anderson faz notar, nesta mesma linha, alguns traços de união ao mundo ortodoxo que decorrem da ligação do Papa argentino à Basílica de Santa Maria Maior, onde ia, antes e depois de cada viagem apostólica, para rezar e agradecer a Maria Salus Populi Romani, um ícone bizantino que remonta aos primeiros séculos do cristianismo e que terá sido trazido de Creta no ano de 590.

“Deste modo, remata o estudioso, o local de descanso final do Papa Francisco tem uma forte conexão” com as Igrejas ortodoxa e católica orientais”.

Na sua mensagem, o Patriarca Bartolomeu chama-lhe “um amigo fiel”, “um amigo genuíno da ortodoxia”. Recorda a viagem que, por sua iniciativa, ambos fizeram a Jerusalém logo no início do pontificado, onde “rezaram, de joelhos, lado a lado, diante do túmulo do Senhor” e do sonho que aí partilharam de um dia se juntarem na celebração em comum da festa da Páscoa. Terminou desejando que no “trono de S. Pedro” se venha a sentar “um sucessor digno, alguém que abrace e adote as visões do Papa Francisco e continue o seu valioso trabalho para toda a humanidade – especialmente para os cristãos e, mais particularmente, para a aproximação das nossas igrejas irmãs”.

O Patriarca Cirilo, por sua vez, dirigiu a sua mensagem de pesar ao cardeal camerlengo e recordou o encontro que teve com Francisco em 2016, enfatizando o seu caráter “histórico”, e salientando que “marcou o desejo das duas Igrejas de curar ‘as feridas infligidas pelos conflitos do passado distante e recente’ e de ‘unir esforços em ordem a testemunhar o Evangelho de Cristo e a herança partilhada da Igreja do Primeiro Milénio’”. Da pessoa do Papa, Cirilo disse que ele “chamou a atenção para casos de injustiça, muitas vezes deliberadamente negligenciados, violações da dignidade humana e várias formas de perseguição”, recordando “com gratidão as suas declarações em defesa da liberdade religiosa, particularmente em relação à Igreja ortodoxa ucraniana perseguida”.

O Patriarca de Antioquia afirmou que a morte de Francisco é “uma perda para toda a humanidade”, enquanto o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém considerou que o Pontífice foi “um testemunho luminoso do evangelho, uma testemunha incansável da misericórdia ilimitada de Cristo, um campeão firme dos pobres e um farol de paz e reconciliação entre todos os povos”.

O arcebispo Jerónimo, da Grécia, considerou Francisco “uma personalidade forte, que se gastou pela prevalência de tudo o que é bom e dos valores do ser humano como criatura de Deus”, fazendo os pobres, em particular os migrantes e os refugiados, “ocuparem um lugar central”. Por fim, o Papa Tawadros II, da Igreja Ortodoxa Copta, considerou que Francisco foi “uma voz a favor da paz em todas as crises e conflitos em todo o mundo”, reconhecendo as relações de respeito e confiança entre as duas confissões e agradecendo a visita que o Papa lhes fez, no Egito, em 2017.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This