O mundo ortodoxo sentiu de forma particularmente vigorosa a morte do Papa Francisco, reconhecendo os passos que este deu para se aproximar das diversas Igrejas. Isso é visível pela multiplicação de mensagens e de declarações tornadas públicas logo na segunda-feira, 21, em especial as do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, e do Patriarca de Moscovo, Cirilo, chefe da Igreja Ortodoxa Russa.
Boa parte das mensagens de pêsames sublinharam o facto de o Papa se ter despedido de todos no dia de Páscoa e de ter partido no segundo dia da Semana Pascal, que no cristianismo ortodoxo é também designada por “brilhante” e num raríssimo ano em que as várias igrejas cristãs celebraram a Morte e Ressurreição de Jesus na mesma data. “É quase como se o Senhor tivesse adiado a morte do Papa para que ele pudesse experimentar a última Páscoa muito simbólica”, observou o norte-americano Peter Anderson, que é um conhecido observador e estudioso do campo ortodoxo.
E, conforme os posicionamentos dos dirigentes estão mais próximos do lado russo ou do lado ‘ecuménico’, as manifestações sublinharam mais ora a simplicidade de Francisco e a humildade e proximidade com os descartados e os pobres, ora as suas convicções e tomadas de posição a favor das pontes e da paz entre os povos.
Anderson sublinha que melhorar as relações com as Igrejas ortodoxas e orientais “foi uma grande prioridade” para o Papa Francisco e sugere que estava em perspetiva uma eventual viagem do Pontífice a Niceia (Iznik), na Turquia, em finais de maio próximo, para a celebração dos 1.700 anos do Concílio de Nicéia em conjunto com o seu amigo Patriarca Bartolomeu.
Francisco fez questão de visitar vários países em que que a Igreja ortodoxa é dominante ou tem forte expressão (Jerusalém-Israel, Albânia, Turquia, Bósnia e Herzegovina, Grécia, Arménia, Geórgia, entre outros). Muitos primazes que contactaram pessoalmente com Francisco ficaram tocados pela sua humildade e calor pessoal. Com o Patriarca Cirilo, as relações foram dificultadas nos anos mais recentes, pela sua legitimação da invasão e guerra com a Ucrânia e apoio incondicional a Putin, mas registou-se, em fevereiro de 2016, o célebre encontro de Havana, o primeiro entre um Papa e um Patriarca de Moscovo, em mais de mil anos. As relações com o Patriarca Bartolomeu tornaram-se tão significativas e regulares que Francisco tinha sobre a sua secretária uma foto do seu amigo.
Peter Anderson faz notar, nesta mesma linha, alguns traços de união ao mundo ortodoxo que decorrem da ligação do Papa argentino à Basílica de Santa Maria Maior, onde ia, antes e depois de cada viagem apostólica, para rezar e agradecer a Maria Salus Populi Romani, um ícone bizantino que remonta aos primeiros séculos do cristianismo e que terá sido trazido de Creta no ano de 590.
“Deste modo, remata o estudioso, o local de descanso final do Papa Francisco tem uma forte conexão” com as Igrejas ortodoxa e católica orientais”.
Na sua mensagem, o Patriarca Bartolomeu chama-lhe “um amigo fiel”, “um amigo genuíno da ortodoxia”. Recorda a viagem que, por sua iniciativa, ambos fizeram a Jerusalém logo no início do pontificado, onde “rezaram, de joelhos, lado a lado, diante do túmulo do Senhor” e do sonho que aí partilharam de um dia se juntarem na celebração em comum da festa da Páscoa. Terminou desejando que no “trono de S. Pedro” se venha a sentar “um sucessor digno, alguém que abrace e adote as visões do Papa Francisco e continue o seu valioso trabalho para toda a humanidade – especialmente para os cristãos e, mais particularmente, para a aproximação das nossas igrejas irmãs”.
O Patriarca Cirilo, por sua vez, dirigiu a sua mensagem de pesar ao cardeal camerlengo e recordou o encontro que teve com Francisco em 2016, enfatizando o seu caráter “histórico”, e salientando que “marcou o desejo das duas Igrejas de curar ‘as feridas infligidas pelos conflitos do passado distante e recente’ e de ‘unir esforços em ordem a testemunhar o Evangelho de Cristo e a herança partilhada da Igreja do Primeiro Milénio’”. Da pessoa do Papa, Cirilo disse que ele “chamou a atenção para casos de injustiça, muitas vezes deliberadamente negligenciados, violações da dignidade humana e várias formas de perseguição”, recordando “com gratidão as suas declarações em defesa da liberdade religiosa, particularmente em relação à Igreja ortodoxa ucraniana perseguida”.
O Patriarca de Antioquia afirmou que a morte de Francisco é “uma perda para toda a humanidade”, enquanto o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém considerou que o Pontífice foi “um testemunho luminoso do evangelho, uma testemunha incansável da misericórdia ilimitada de Cristo, um campeão firme dos pobres e um farol de paz e reconciliação entre todos os povos”.
O arcebispo Jerónimo, da Grécia, considerou Francisco “uma personalidade forte, que se gastou pela prevalência de tudo o que é bom e dos valores do ser humano como criatura de Deus”, fazendo os pobres, em particular os migrantes e os refugiados, “ocuparem um lugar central”. Por fim, o Papa Tawadros II, da Igreja Ortodoxa Copta, considerou que Francisco foi “uma voz a favor da paz em todas as crises e conflitos em todo o mundo”, reconhecendo as relações de respeito e confiança entre as duas confissões e agradecendo a visita que o Papa lhes fez, no Egito, em 2017.










