Igrejas pedem ajuda para combater praga gigantesca de gafanhotos que ameaça de fome a África Oriental

| 11 Mar 20

São milhares de milhões de insectos que desde Janeiro estão a destruir as plantações de pelo menos sete países; surto pode estender-se a 30 países até Junho

A nuvem de gafanhotos numa imagem extraída de um vídeo publicado na página da FAO na rede social Twitter.

 

Uma gigantesca praga de milhões e milhões de gafanhotos do deserto já destruiu milhares de hectares de plantações, sobretudo na África Oriental. A ONU quer ajuda para acabar com a crise, que se teme possa vir a atingir 30 países até Junho, crescendo 500 vezes. Também os responsáveis de várias igrejas dos países da região – Somália, Quénia, Uganda, Etiópia e Sudão do Sul estão entre os mais atingidos, que incluem também o Iémen e o Paquistão, na Ásia – têm apelado a uma maior acção contra esta praga, que vem aterrorizando e devastando aquela zona do mundo, desde Janeiro.

O serviço informativo do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) recorda que esta é a pior praga desde há 70 anos em alguns dos países e a mais grave em 25 anos, em outros. Está em jogo a segurança alimentar de milhões de pessoas, numa zona já massacrada por graves secas periódicas, guerras, conflitos e níveis de pobreza extrema.

Ainda nesta terça-feira, 10 de Março, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) actualizou o mapa da situação, dizendo que ela “permanece extremamente alarmante no Corno de África, especialmente no Quénia, Etiópia e Somália”, representando mesmo “uma ameaça sem precedentes” e mostrando a situação em cada um dos países já atingidos.

“Os gafanhotos estão a ameaçar a subsistência. Estão a limpar a vegetação. A segurança alimentar do povo está em perigo. Estamos pedindo ao Governo e às agências envolvidas que aumentem os esforços para conter o problema”, disse o arcebispo anglicano queniano Jackson Ole Sapit, citado pelo CMI. “Podemos ver pela forma como está a desenvolver-se, será difícil combater [a praga] sozinhos. Exorto a comunidade internacional dentro e fora de África a dar as mãos para que possamos repelir os gafanhotos.”

São cenas que remetem para a descrição do livro do Êxodo, na Bíblia: enxames de insectos abateram-se sobre a região, destruindo terras agrícolas e pastagens de animais à sua passagem.

Os gafanhotos terão sido avistados pela primeira vez no Quénia, em Dezembro, depois de depositados em aterros em Wajir, a nordeste da Somália. Outro enxame entrou no país ido da Etiópia, relata a mesma fonte. Desde então, espalharam-se por 17 regiões do país e já chegou mesmo a obrigar à suspensão de um culto, enquanto as pessoas da comunidade fugiam e tentavam afugentar os insectos.

“Estão a ser pulverizados, mas os ovos que os insectos puseram continuam a eclodir”, disse, também citado pelas informações do CMI, Jacob Nzoka, um funcionário da Cáritas da diocese católica de Kitui, uma das áreas atingidas.

Cristãos africanos: a praga de gafanhotos já obrigou à suspensão de cultos religiosos e os responsáveis das igrejas pedem ajuda internacional. Foto © Albin Hillert/WCC

São do deserto, mas nascem com chuvas fortes

A Somália decretou já a situação de emergência nacional, perante os “números sem precedentes” de gafanhotos e, a 17 de Fevereiro, os gafanhotos espalharam-se pelo Sul do Sudão – a nação mais jovem do mundo – onde milhões de pessoas já enfrentam a fome, sobretudo por causa das alterações climáticas e dos conflitos militares.

No Sudão do Sul, o receio tem outros factores de agravamento: “Antes mesmo de podermos resolver as nossas questões políticas de paz e a formação do Governo de transição e unidade nacional, o Sudão do Sul está agora a experimentar a invasão de gafanhotos”, disse o padre católico James Oyet Latansio, secretário-geral do Conselho das Igrejas do Sul do Sudão, ao jornalista queniano Fredrick Nzwili. Citado na notícia do CMI, o padre Latansio acrescenta: “As pessoas choram e pedem a intervenção de Deus.” Há seis milhões de sul-sudaneses a enfrentar a ameaça de grave insegurança alimentar e a necessitar de ajuda humanitária, segundo as agências internacionais.

A Save the Children avisou, ainda segundo a mesma notícia, que, sem medidas coordenadas de controlo dos gafanhotos, e sem aumentar o financiamento da vigilância e mobilização comunitária, os gafanhotos podem agravar a queda nos níveis de nutrição.

De acordo com a FAO, a praga terá entrado no Quénia através do Uganda. No início, os gafanhotos terão vindo do Irão, Iémen e do Paquistão, tendo este último país decretado também já a situação de emergência. Atravessou depois o Golfo Pérsico e a Pensínsula Arábica, até chegar ao Corno de África.

Os gafanhotos do deserto são a mais prejudicial espécie deste insecto, que se encontram em três dezenas de países da África, Ásia e Médio Oriente, e pode espalhar-se por um quinto da massa terrestre. Apesar de ter este nome, a espécie desenvolve-se após fortes chuvas, que faz nascer mais vegetação nos desertos e áreas áridas. Desde o ano passado, a África Oriental tem sofrido chuvas fortes ligadas ao Dipol, do Oceano Índico, um fenómeno de aquecimento da superfície do mar que provoca um aumento da precipitação.

Imagem da nuvem de gafanhotos do deserto que, desde Janeiro de 2020, tem atingido a África Oriental e os países do Golfo Pérsico e da Península Arábica. Foto reproduzida da página da FAO na rede social Twitter (https://twitter.com/faolocust)

 

2019 começou com uma seca na região do Corno de África, mas registaram-se a seguir várias inundações. Houve oito ciclones ao largo da África Oriental (dois dos quais, o Idai e o Keneth, atingiram Moçambique, em Março e Abril de 2019, o maior número desde 1976, motivado pelo aumento das temperaturas no Oceano Índico (nesta ligação, pode ver-se um curto vídeo que mostra uma parte da nuvem de gafanhotos).

Conhecidos pelo rápido crescimento e enormes apetites, os gafanhotos do deserto podem, com a actual praga (para já, a FAO designa-a tecnicamente como “surto”) destruir o equivalente à alimentação de cerca de 84 milhões de pessoas por dia, recorda o Business Insider (onde se pode ver uma galeria de fotos sobre o perigo desta espécie).

Keith Cressman, responsável pelo sector da FAO que acompanha as pragas de gafanhotos, esteve recentemente no nordeste da Somália. Citado pela mesma publicação, descreve a nuvem de insectos como “um tapete em movimento de objetos amarelos e pretos”, cada um comportando-se da mesma maneira, e embalados tão densamente que não se consegue sequer ver o chão por baixo deles.

No final de Janeiro, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, já avisara para a tragédia que pode estar a acontecer. Na sua página na rede social Twitter, escreveu: “Os gafanhotos do deserto são extremamente perigosos. Desencadeado pela crise climática, o surto está a piorar ainda mais a terrível situação de segurança alimentar na África Oriental.”

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This