Igrejas voltam a abrir portas, entre muitas polémicas, dúvidas e receios

e | 29 Abr 20

Peregrina em Fátima Peregrina em Fátima, em Abril, com o santuário vazio. Foto © Arlindo Homem.

 

Uns dão mais ênfase à suposta impaciência dos crentes, outros preferem chamar a atenção para os riscos de saúde pública. O Papa pede prudência e obediência às autoridades civis e sanitárias, mas os bispos italianos contestam o Governo e um deles até fala em ditadura. Na Alemanha e na Suíça, estabelecem-se regras claras de segurança para ter as igrejas com culto. Em Portugal, tenta fazer-se a quadratura do círculo em que o país vai entrar, reabrindo igrejas, mas prevenindo o contágio. Polémicas teológicas e jurídicas, dúvidas sobre como fazer, medos do que possa acontecer atravessam o catolicismo em vários países europeus. As mesquitas, essas, devem permanecer fechadas durante o mês de Ramadão. 

 

A Mesquita Central de Lisboa deverá continuar fechada durante o Ramadão, o mês sagrado dos muçulmanos, durante o qual os crentes frequentam mais aqueles lugares de culto. Essa é a previsão do seu responsável religioso, o xeque David Munir, à pergunta sobre o que farão se o Governo levantar a interdição ao culto religioso comunitário já a partir de segunda-feira. E o mesmo deverá acontecer com outras mesquitas, como noticiou há dias o 7MARGENS.

Já na Igreja Católica, pelo menos em Portugal, parecem predominar sobretudo as dúvidas, mesmo entre os bispos: esperam-se indicações, mas para já não há decisões sobre quando nem como fazer; fala-se em medidas rigorosas de segurança, mas não se sabe ainda concretamente quais nem como podem elas ser asseguradas.

O facto de o país passar ao estado de calamidade pública – o grau anterior ao estado de emergência – para continuar o combate à pandemia de covid-19, faz com que várias restrições sejam aliviadas. Entre elas, estarão as restrições à liberdade de culto, conforme a opinião de constitucionalistas ouvidos pelo Diário de Notícias.

Por isso, antecipando a abertura das igrejas a partir de 4 de Maio – ou, pelo menos, essa possibilidade – a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) constituiu um grupo de trabalho para estudar as medidas que devem ser tomadas quando se reiniciarem as celebrações comunitárias.

Vários bispos e outros responsáveis eclesiásticos ouvidos pelo 7MARGENS admitem que essas regras podem ser adaptadas tendo em conta as diferentes realidades locais. E alguns põem a hipótese de, mesmo diante da possibilidade legal, os bispos deverem decidir pela medida de maior prudência.

O bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, diz que espera ter indicações até quinta-feira sobre o que pode acontecer, antes de mais da parte do Governo. Depois, será a vez da CEP decidir como se pode retomar a celebração comunitária da liturgia e dos sacramentos – além das eucaristias sem a presença de fiéis, têm sido adiados casamentos e baptizados; e entre a Páscoa e o início do Verão multiplicam-se as festas de primeira comunhão de milhares de crianças.

“O levantamento das restrições deve ser gradual, salvaguardando a saúde pública, em articulação com as autoridades públicas e estudando bem os critérios a seguir”, diz o bispo Cordeiro, que tem formação especializada em liturgia. Mas, falando de uma diocese como a sua, considera que, para as comunidades rurais, “é vital poder voltar a viver a celebração ao domingo, em comunidade, quer pelo envelhecimento, quer pelas referências cristãs de muitas pessoas”.

José Cordeiro admite que o clero e os responsáveis eclesiásticos terão de preparar “uma catequese” para fazer entender as novas limitações – por exemplo, o facto de não se poder ir a Fátima em peregrinações, quer no 13 de Maio, quer nos meses seguintes (antes de Julho ou Agosto isso não deverá poder acontecer). Mas o “factor medo também é importante” neste contexto, admite, pois já houve pessoas a confessar-lhe que adiarão o regresso à igreja. “Ninguém estava preparado para isto…”

 

Igrejas com senhas à porta?

O padre José Manuel Pereira de Almeida, pároco de Santa Isabel (centro de Lisboa), não tem dúvidas sobre a solução que deveria ser adoptada: “Poderíamos abrir as igrejas se tivéssemos possibilidade de dar senhas às pessoas ou ter lugares pré-marcados”, ironiza.

Como não é essa a situação, Pereira de Almeida parte da sua formação de médico – é especialista em anatomia patológica – para dizer que “a ideia da prudência” deveria prevalecer ainda mais algum tempo. Também pode depender das zonas, admite. “Por exemplo, em Viseu há menos casos, eventualmente poderão abrir.”

De resto, a prudência deveria aconselhar a só poder abrir a igreja com uma de duas situações: ou há poucas pessoas na igreja ou a área do lugar de culto permite que elas fiquem distantes umas das outras. Ainda mais porque a Igreja Católica se antecipou nas regras de prudência (foram aconselhadas uma série de normas de precaução, antes mesmo de ser decretado o estado de emergência), recorda, e não deveria agora estragar o trabalho feito.

O bispo de Setúbal , D. José Ornelas, também coloca o acento no “bom senso” e no acatamento das “normas de preservação da saúde pública”. Mas, por outro lado, não vai tão longe quanto Pereira de Almeida: “Ir à igreja também não é um hobby, para um crente. E se tenho necessidade de ir ao supermercado e farmácia, também tenho necessidades espirituais”.

De qualquer modo, José Ornelas insiste no difícil fio da navalha – ou quadratura do círculo: “Tudo isto tem de ser acautelado, não posso ter tudo ao mesmo tempo. Devo aceitar limitações, pois mesmo o direito à mobilidade também não poder ser entendido de forma absoluta”, acrescenta.

Em abono da sua tese de que a situação não se pode prolongar por muito mais tempo, o bispo de Setúbal diz que, na realidade, muitas igrejas se mantiveram abertas, algumas horas por dia, para que as pessoas pudessem entrar e rezar. “A Igreja não fechou”, diz.

Igreja matriz das Areias. Ferreira do Zêzere Igreja matriz das Areias, Ferreira do Zêzere: “A Igreja não fechou”, mas a reabertura para as celebrações comunitárias estarão sujeitas a muitas regras de segurança. Foto © Arlindo Homem

 

“As pessoas mais frágeis são também as que sentem mais essa fragilidade”, defende. Retomar as celebrações comunitárias, com cautelas, pode ser uma maneira de aquelas pessoas voltarem a uma vida mais normal. E, acrescenta, nisso concordando com o seu colega de Bragança, também não irá toda a gente a correr para as igrejas, mal essa possibilidade volte a surgir. Mas “qualquer que seja a decisão, não se pode brincar com a saúde das pessoas”.

O bispo de Aveiro, António Moiteiro, também está de acordo que não se pode “abrir as igrejas sem mais”. E apresenta algumas ideias para contornar os problemas: missas ao ar livre, a multiplicação das celebrações, ter os espaços desinfectados e ser obrigatório o uso da máscara.

Em Fátima, os responsáveis do santuário estão a trabalhar com base em dois cenários: o de as igrejas poderem abrir, ainda que com limitações, na próxima segunda-feira, 4 de Maio; e a manutenção das celebrações de 12-13 (e mesmo nos próximos meses) sem peregrinos.

 

Os conselhos do Papa e o bispo contra a “ditadura”

O regresso à “normalidade” nas igrejas e a forma como este será concretizado é um tema que tem gerado polémica um pouco por toda a Europa. Na Itália, o Governo de Giuseppe Conte apresentou no domingo, 26 de Abril, o plano de flexibilização de algumas normas de combate à pandemia. Tal como acontece em Portugal, este deverá entrar em vigor a partir de 4 de Maio e inclui a reabertura de fábricas e parques, permite a realização de funerais, mas mantém a proibição de celebrações com a participação de fiéis.

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