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Dia Mundial dos Oceanos

“Ilhas de Plástico” no rio Minho apelam à luta ambiental

| 01/06/2021

Acácio Carvalho (â esquerda na foto), artista plástico, chamou “Ilhas de Plástico” à obra exposta junto ao rio Minho. Foto: Direitos reservados.

Se um dia tem 24 horas e durante 24 horas, o Homem se encarrega de ir destruindo o Planeta e os Oceanos (melhor; a cada minuto e segundo…), o artista idealizou como metáfora do tempo, um conjunto de 24 esculturas esféricas de grande dimensão forradas com materiais de plástico, garrafas de água, tubos de diferentes cores e feitios idênticos aos utilizados na construção civil.

Unidas entre si formam uma mega-instalação flutuante e ondulante, atractiva, pedagógica, capaz de provocar olhares desencontrados. No próximo dia 8 de Junho, Dia Mundial dos Oceanos, estará fundeada no rio Minho e por lá ficará 24 horas sobre 24 horas, dia e noite, para lembrar ao visitante a poluição nos rios, mares, oceanos.

Há muito que o Ambiente [cujo Dia Mundial se assinala no próximo dia 5, sábado] é uma bandeira agitada em todo o Mundo; sucedem-se as cimeiras com chefes de Estado e dos Governos, discussões intermináveis sobre as alterações no clima e suas consequências na vida das pessoas. O tema está na ordem do dia e ganha cada vez mais contributos.

“O Planeta está estragado”, avisava há tempos António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. Segundo um estudo publicado em Outubro do ano passado pela revista Frontiers in Marine Science, há cerca de 14 milhões de toneladas de microplásticos no fundo dos mares. Não é uma ficção, antes uma trágica realidade.

A obra recebeu um título provocatório: “Ilhas de Plástico” e à primeira vista poderá ser paradoxal a utilização de plásticos – logo um agente poluidor – numa obra visual gigante onde à qual está subjacente a defesa de princípios e causas nobres, como a ecologia, meio ambiente, preservação da Natureza. O criador afasta a criatura e a leitura redutora: “A vocação expressiva dos agentes poluidores também podem servir para chamar a atenção dos efeitos nocivos dos plásticos. Pode parecer uma contradição, mas é só aparente. A arte é um sortilégio”, diz.

"Ilhas de Plástico" rio Minho

“Ilhas de Plástico” junto ao rio Minho. Foto: Direitos reservados.


Contra ventos e marés

Acácio Carvalho, artista plástico, escultor, gráfico, designer, chamou-lhe “Ilhas de Plástico” e a sua enorme instalação site-specific, composta por 24 calotas, cada uma com quatro metros de diâmetro (num total de 430 metros quadrados) foi uma empreitada feita em cima do arame, isto é, concebida com reduzidos meios humanos, logísticos, materiais, sem grandes apoios financeiros. O costume quando o Poder não entende, ou se mostra incapaz de avaliar a Arte como instrumento de conhecimento, aprendizagem, cultura.

Em contrapartida, valeu o espírito de entreajuda de alguns amigos(as), a carolice, o improviso e, sobretudo, empenho do autor em ver o sonho cumprido. E assim foi. Contra ventos e marés, durante vários meses – a empreitada começou no Verão passado e terminou há poucos dias – quer tivesse sol, frio, chuva ou vento, o artista só baixou os braços quando a obra terminou.

“Houve muita falta de empenho humano e financeiro. Tivemos um orçamento muito baixo, cerca de 10 mil euros e uma reduzida equipa. Se não fossem os amigos e a residência artística formada por Lúcia Nunes e Daniela de Carvalho, não sei como teria sido possível terminar a mega-instalação”, contou o autor desta enorme jangada flutuante, artista com assinatura reconhecida e premiada, presença habitual na Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira desde o seu início, em 1978, ainda os pintores desenhavam poesias de Abril e a “capital das artes” abria as portas à utopia.

"Ilhas de Plástico" junto ao rio Minho. Foto: Direitos reservados.

“Ilhas de Plástico” junto ao rio Minho. Foto: Direitos reservados.

Biodiversidade na Natureza

“A instalação também foi uma forma de chamar a atenção da população, das escolas e dos visitantes, tanto portugueses como da vizinha Galiza, para as toneladas de plástico que, por incúria humana, são abandonados no meio ambiente colocando em risco a sobrevivência dos ecossistemas.

Veja-se o que está a acontecer com a destruição dos habitats marinhos e o importante papel da biodiversidade na Natureza. Todos nós ainda temos presentes as chocantes imagens de baleias com plásticos no estômago. É aterrador o que está a acontecer. A instalação é mais um grito de alarme e alerta das consciências”, reconheceu o escultor.

As 24 calotas que fazem parte das Ilhas de Plástico estão concluídas, como se referiu anteriormente; as experiências de flutuabilidade foram concluídas com êxito e, por estes dias, ultimam-se os preparativos para o seu transporte até às margens do rio Minho, colocação dos suportes/base de sustentação e instalação de um sistema de iluminação/sinalização desta monumental escultura de arte efémera.

A iniciativa faz parte integrante do projecto “LowPlast – A Arte de Reduzir o Plástico e foi realizada em parceria pelo AquaMuseu do rio Minho, Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira, Fundação Bienal de Arte Cerveira, Associação Portuguesa do Lixo Marinho e Instituto Interdisciplinar de Artes – DTK.

Resta acrescentar que a escolha do local da instalação, nas margens do rio Minho, perto do núcleo histórico de Vila Nova de Cerveira, teve por objectivo não só extravasar a Arte dos locais habitualmente utilizados (galerias, por exemplo), como proporcionar o saudável confronto com a Natureza e atrair outros olhares do público, sobretudo, da vizinha Galiza. Com mais esta mega-instalação, a Vila das Artes continuará o projecto de dinamização cultural e melhor conhecimento da sua geografia e paisagem, mas também da sua monumentalidade, gastronomia e cultura.

 

Manuel Vitorino é jornalista

 

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