Impotência ou inércia?

| 13 Jun 2024

À Margem_José Centeio

No último à Margem, Jorge Wemans brindou-nos com um excelente texto que eu senti como um grito de revolta face à “normalização do intolerável” e, simultaneamente, como um grito de desespero por não se saber qual o caminho para a construção de um futuro alternativo perante um presente demasiado sombrio.

Neste texto, em diálogo com o que o Jorge escreveu, tento refletir sobre qual o caminho ou caminhos a percorrer rumo a um futuro que desconhecemos, mas que confiamos seja melhor. Mas como podemos nós percorrer esses caminhos se, logo à partida, nem sequer sabemos se existem? Cruzaremos os braços? Nada disso: “Não somos os derrotados da história. Temos esperança.”  O primeiro passo, creio, é perguntarmo-nos. Questionarmo-nos sobre a realidade – entender os sinais dos tempos -, mas também, crentes ou não crentes, sobre o nosso lugar nessa mesma realidade. De pouco adiantará tentar construir respostas sem esse duplo questionamento, pois corremos o risco de se desmoronarem ao primeiro embate ou serem olhadas como falsas promessas.

Não pretendo aqui descrever essa nossa realidade, já que o Jorge, dando vários exemplos, nos colocou diante dos olhos o que torna tão sombrio este nosso tempo. Pretendo antes tentar entender qual o cenário que nos impede de ter uma perceção mais clara do todo e a partir daí descobrir os caminhos a calcorrear. Apontarei apenas três aspetos que me parecem definidores do cenário deste nosso tempo.

Primeiro, penso que se perdeu um certo universalismo, o desejo de que todos, mas mesmo todos, caminhem connosco, que todos independentemente de quem são, do lugar de onde vêm ou do lugar onde vivem, tenham uma vida digna. Tenham esperança num futuro melhor. A nossa luta deve ser também por aqueles e aquelas que não têm voz. O globalismo e a ideia de que todos dele iriámos usufruir tornou-nos muito iguais no desespero entregando nas mãos dos poderosos o tempo que nos resta e o futuro dos nossos netos. Deixámos que nos roubassem o tempo da Utopia, da Promessa. Sem elas o presente torna-se claustrofóbico e o futuro um monstro que nos assusta e com o qual não sabemos lidar.

Segundo, a globalização criou em nós, sobretudo nas gerações que dela mais usufruíram, a ideia de que era possível alcançar a felicidade individualmente. Ao entregarmos o futuro aos interesses dos poderosos e dos influentes, aquele deixou de ser uma visão coletiva para se tornar um desejo individual facilmente manipulável. Essa ideia interiorizada com a ajuda de uma certa psicologia utilitarista (veja-se a indústria da felicidade com os livros, por exemplo, de autoajuda e de liderança) destruiu a necessidade de mediações que nos permitissem ligar-nos coletivamente ao mundo, à realidade, através do questionamento e procura coletivos. O aparecimento das redes sociais reforçou ainda mais essa ideia de individualidade trazendo consigo um maior grau de manipulação da autoestima de cada um e de cada uma e criando a ilusão de poder. Recentemente, a introdução da Inteligência Artificial no nosso quotidiano – e estamos ainda apenas na pré-história – tenta induzir-nos o sentimento de que o mundo pode muito bem funcionar sem o outro. Ou seja, entregando o poder de definição do futuro aos interesses de quem detém e explora a tecnologia.

Terceiro, o tempo disponível. Este aspeto sendo importante, é bastante contraditório. Era suposto que as tecnologias, ao libertarem-nos de certas tarefas, nos disponibilizassem mais tempo para a procura de outros interesses, nomeadamente para sonharmos com outros. Mas aconteceu precisamente o contrário: roubaram-nos tempo e aceleraram vertiginosamente as nossas vidas. Por outro lado, face a um futuro visto como precário, os jovens investem muito do seu tempo e energias na procura individual de soluções para a sua vida. Acresce ainda o facto de uma forte presença nas redes sociais os expor a solicitações permanentes e pouco “rentáveis”. A esta incapacidade para gerir o seu próprio tempo juntou-se a ideia do capitalismo em transformar os tempos livres numa indústria lucrativa do lazer. Atualmente não existem tempos livres, apenas tempos mortos. Para os mais jovens imagino que seja uma enorme canseira pretender manter-se ligado, embora perdendo a ligação ao mundo real e aos amigos reais.

Os sonhos até podem ser individuais, mas eles só terão a possibilidade de se tornarem futuro quando construídos coletivamente.

É com este cenário como pano de fundo que teremos que encontrar caminhos. É urgente sair desta bolha ou impasse em que nos encontramos, pois pior do que o intolerável é convivermos de forma pacífica com a situação, rendendo-nos à realidade sem tentarmos perceber como podemos ser agentes de mudança, construtores de futuro.

 

Como romper a bolha?

Peregrinos percorreram zona afetada pelo incêndio de 2022. Foto © Filipe Ribeiro (1)

Peregrinos percorreram zona afetada pelo incêndio de 2022. Foto © Filipe Ribeiro

Não será fácil tentar sair desta bolha e lutar contra o que aparenta ser um tempo de trevas. Gostaria de lhe chamar de transição, pois é menos definitivo e alimenta-nos a esperança para além deste período. Confiamos que o futuro é uma possibilidade. Mas para que essa possibilidade seja um dia realidade é necessário que nos ponhamos a caminho com outros. Nesta vida somos todos peregrinos a caminho, unidos no cuidado desta Casa Comum e de quem a habita.

Arrisco deixar-vos algumas pistas, tendo como única certeza a necessidade de nos encontrarmos e de refletirmos.

Primeiro, penso ser urgente encontrar formas de mediação que saibam acolher a diferença, sejam elas institucionais, mais formais ou até informais. E não há que ter receio de ser disruptivo se necessário. Estas formas de mediação devem assentar nas tecnologias sem deixarem de privilegiar o encontro. Devem ser criadas ou revalorizadas com as pessoas e não serem pensadas para as pessoas.

Segundo, envolver os jovens na procura de caminhos. Mas envolvê-los significa ir ao encontro, tentar perceber o que fazem, mesmo não estando nós de acordo, e inserir-nos nas suas atividades e não criar novas para eles e por eles. O futuro também depende da forma como se passa o testemunho (aqui empregue em duplo sentido).

Terceiro, importa criar pensamento e memória face aos novos desafios deste nosso tempo, assim como revitalizar as memórias coletivas. O pensamento, mesmo se individual, constrói-se e consolida-se em interação com outros. Quando assim é, ele torna-se representativo de coletivos mais ou menos alargados. Talvez seja disso que necessitamos: voltar à militância do pensar e agir, de construir com outros caminhos de utopia, caminhos de esperança.

Uma palavra final para os crentes, nomeadamente para os católicos. O caminho sinodal encontra-se na sua última etapa que terminará com a segunda sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorrerá de 2 a 27 de outubro de 2024 e que será conclusiva. Neste já longo caminho começam a aparecer sinais de cansaço, do gorar de expectativas e de uma desesperança que se instala. Acho perigoso confundir-se expectativas com esperança, já que a não correspondência das primeiras, por dura que seja, é-nos exterior, enquanto a segunda depende em grande parte de nós mantê-la viva apesar das circunstâncias (Que espero do Sínodo – Expetativas ou esperança?).  Como respondia Moltmann à pergunta, colocada por António Marujo,  “Em que devem as pessoas pôr a sua esperança? Nas igrejas, na religião, na política?” : “Em Deus, espero, não nas instituições. A única razão pela qual a humanidade deve sobreviver é confiar que Deus quer que a humanidade sobreviva. Se não houver uma boa razão, porque devemos sobreviver?”.

A esperança reside em Deus e não nas instituições, Ele quer que sobrevivamos porque o mundo, o outro, necessita do nosso cuidar. Quando Jesus dizia que o Seu Reino não era deste mundo, não se referia – penso eu – apenas ao sistema político (um rei que os salvasse), mas também a um sistema religioso excludente e assente no poder. Há quem pense ser herdeiro de uma doutrina, de uma instituição, de uma espécie de monarquia religiosa, esquecendo o essencial: o encontro com Jesus Cristo e a Sua mensagem. O encontro com o outro. Somos responsáveis por um legado que não é material, mas de uma mensagem que Jesus nos deixou e que, apesar da exigência, só ela nos pode salvar: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

A Igreja Católica, que poderia ter – como já teve com os Movimentos da Ação Católica – um papel dinamizador, implementando dinâmicas transformadoras que conduzissem a uma maior intervenção cidadã nos vários setores da sociedade, sente agora uma enorme dificuldade em abrir-se ao outro. É uma Igreja envelhecida, que há muito perdeu os jovens e cujas paróquias são também elas envelhecidas e pouco atreitas à mudança.

O Papa Francisco tem-nos lançado desafios a partir dos quais é possível, coletivamente, e independentemente da instituição, construir futuro e construir igreja: economia, ecologia, teologia do cuidado, fraternidade universal, diálogo inter-religioso, luta pela paz, defesa da vida em todas as suas dimensões… Há nestes desafios muito caminho a percorrer independentemente das expectativas goradas. Importa ter presente que as instituições, sejam elas quais forem, quando assentes no poder, falta-lhes a humildade e a flexibilidade para serem motores de mudança. E quando mudam, já os sinais dos tempos são outros. As instituições, por mais que mudem, andam sempre uns dois passos atrás. Mas as pessoas podem mudar as instituições e essa é uma liberdade e uma responsabilidade que lhes cabe. Podem, pelo menos, deixar a sua marca. Francisco deixará certamente a sua, independentemente do futuro. E nós?

Cuidemos do essencial e não nos percamos em lutas estéreis, por mais importantes que possam parecer.. E o essencial é a mensagem e não quem dela se pretende apoderar ou se diz único intérprete.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This