In Memoriam – Diogo Lino Pimentel (1934-2019): crente, arquitecto do serviço ao outro

| 6 Fev 19

Na semana passada, apenas com um dia de diferença, morreram duas pessoas fundamentais da arquitectura e da arte religiosa portuguesa das últimas décadas: Luiz Cunha e Diogo Lino Pimentel. João Alves da Cunha traça aqui o percurso de Diogo Lino Pimentel, Paulo Miranda evoca, noutro texto, o trajecto de Luiz Cunha

Apesar de a liturgia católica nos dizer que o tempo era comum, o passado dia 27 de Janeiro revelou-se o contrário. Nesse domingo faleceu um dos mais importantes protagonistas da arquitectura religiosa em Portugal no século XX, Diogo Lino Pimentel, nascido a 1934. Neto do conhecido arquitecto Raul Lino, seguiu-lhe as pisadas na ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), onde obteveo diploma de arquitecto em 1960.

Com o tempo, Diogo Lino Pimentel tornou-se autor de uma vasta obra de arquitectura religiosa, mas manteve-se sempre avesso a protagonismos ou lugares de destaque. Viveu de forma discreta, preferindo sempre o serviço ao outro, apoiado por uma contagiante boa disposição. Dono de um apurado sentido crítico, sabia partilhá-lo com um espírito de participação construtiva que acabava por fortalecer as suas relações profissionais e de amizade. No final de 1959, Lino Pimentel rumara a Bolonha, para realizar um estágio de um ano que nunca esqueceria. Enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, trabalhou no Ufficio Nuove Chiese fundado pelo cardeal Giacomo Lercaro, sob orientação dos arquitectos Giorgio Trebbi e Glauco Gresleri, duas referências incontornáveis do seu percurso profissional.

Diogo nunca foi esquecido em Bolonha, quer pelo seu profissionalismo quer pela sua personalidade generosa e bem-humorada, tendo Glauco Gresleri feito questão de deixar registada aquela colaboração nas duas principais publicações que fazem a história do movimento bolonhês: Chiesa et quartiere: storia di una revista e di un movimento per l’architettura a Bologna(Editrice Compositori, Bologna, 2004) e Le Corbusier: Il programma litúrgico(idem, Bologna, 2001). De igual modo relatou Diogo Lino Pimentel a experiência em Bolonha na revista do Seminário dos Olivais, Novellae Olivarum, no artigo “«Centro di Studio e Informazione per l’Architettura Sacra» de Bolonha” (nº 172, out.1960, pp.179-180).

Em 1960, já em Portugal, Diogo Lino Pimentel foi convidado a integrar o recém-criado SNIP – Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, gabinete singular em Portugal fundado pelo cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, cuja direcção técnica assumiu até ao seu fecho, em 2014. Ali se dedicou inteiramente às novas igrejas, matéria sobre a qual escreveu uma importante reflexão, na já referida Novellae Olivarum, sobre “A cidade e o problema das novas igrejas” (pp.160-161). Este tema acompanhou-o toda a vida, tendo-o aprofundado tanto no trabalho no SNIP, como durante os anos do MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa. A sua ligação a este movimento começou muito cedo, desde logo comosócio estudante nº (2)10.

No entanto, o seu profundo interesse pelo MRAR levou-o a ser admitido como 15º sócio efectivo a 9 de novembro de 1956, num tempo em que os membros fundadores tinham bastantes reservas relativamente ao alargamento do núcleo duro. O empenho de Diogo Lino Pimentel foi desde logo reconhecido, como atestou o ter sido convidado pouco tempo depois, em janeiro de 1957, a substituir João Correia Rebelo no lugar de tesoureiro da direcção.

 

MRAR, exposições e música

Diogo Lino Pimentel foi um dos membros mais assíduos e activos do Movimento, tendo-o representado por diversas vezes quer em Portugal quer no estrangeiro. Participou activamente em inúmeras reuniões e encontros do MRAR quer como orientador quer como assistente, colaborou na organização de diversas exposições, proferiu conferências e esteve envolvido na criação do núcleo de Música Sacra. Tornou-se, assim, numa das vozes mais importantes do Movimento e, como tal, foi entrevistado, a 8 de fevereiro de 1961, pelo diário Novidades, na série dedicada ao tema “Rumos da Arte Sacra”. Dois anos depois, foi eleito secretário do MRAR, cargo que repetiu na direcção seguinte, a última, eleita a 26 de outubro de 1966. A 6 de agosto de 1969 foi um dos subscritores da carta de suspensão do MRAR.

Diogo Lino Pimentel em Junho de 2012, em Assy, a igreja do sul de França que reune um conjunto de obras de vários artistas contemporâneos, e que sempre desejou visitar (foto: arquivo pessoal)

Nesse ano trabalhava já intensamente no SNIP, serviço do Patriarcado de Lisboa, onde realizou uma atenta análise e reflexão sobre a arquitectura religiosa contemporânea, quer do ponto de vista teórico, quer pela prática profissional. No SNIP, e com a colaboração de outros colegas arquitectos (dentre os quais merece destaque António Flores Ribeiro – com Diogo Pimentel na foto de abertura), publicou uma revista, fez consultadoria, elaborou pareceres e planeou território. De igual modo, elaborou cerca de uma centena de projectos de novas igrejas ou intervenção em antigas, num trabalho sem paralelo em Portugal, ainda à espera de um estudo sério e completo por parte da comunidade científica.

Paralelamente à direcção do SNIP, Diogo Lino Pimentel fundou em 1966 a firma Canon, com o arquitecto Sebastião Formosinho Sanchez, no âmbito da qual foram projectadas algumas igrejas. Esta equipa foi também responsável pelas propostas classificadas em segundo lugar no concurso de anteprojectos para a Sé de Bragança (1964), em terceiro lugar no concurso para a Torre do Tombo (1982) e em segundo lugar para o remate do Palácio da Ajuda (1989).

Se Diogo Lino Pimentel permanece nas muitas obras que desenhou, a sua presença mais forte está enraizada na memória de tantos e tantos que tiveram o privilégio de o conhecer. Humilde e sincero, foi um homem de fé, crente num Deus-Pai com muitas moradas. Numa delas está hoje certamente, talvez com vista para a capela do Seminário Dominicano do Olival, na Aldeia Nova, Ourém (1964-67), a sua primeira obra, pela qual teve sempre um apreço muito especial.

João Alves da Cunha é arquitecto e autor da tese O Movimento de Renovação da Arte Religiosa e os Anos de Ouro da Arquitectura Religiosa em Portugal no Século XX (ed. UCEditora)

Breves

Suécia: Católicos e Luteranos unidos em primeiro retiro ecuménico online novidade

O bispo católico de Estocolmo e a bispa luterana de Uppsala organizaram um retiro espiritual ecuménico onde poderão participar fiéis de ambas as igrejas. O encontro decorrerá online e tem como objetivo que católicos e luteranos “rezem juntos e mergulhem numa dimensão espiritual num momento que é de stress e preocupação”. De acordo com o Vatican News, a iniciativa de Anders Arborelius e Karin Johannesson (referida pelo portal do Vaticano como “episcopisa”) é “inédita”.

Igreja organiza seminários virtuais sobre proteção de menores novidade

“Por uma Igreja mais segura” é o lema de uma série de webinars dedicados à proteção de menores que se inicia esta sexta-feira, 29 de maio, no site da Pontifícia Universidade Gregoriana. Organizados pela Conferência Internacional de Salvaguarda, os encontros virtuais dirigem-se a todos os profissionais da Igreja ou de instituições a ela ligadas e pretendem ser um contributo para o reforço das boas práticas na área da proteção de menores, em todo o mundo.

Este sábado, católicos rezam terço com o Papa para enfrentar a pandemia novidade

O Papa Francisco vai rezar o terço este sábado, 29 de maio, pelas 16h30 (hora de Portugal), a partir da gruta de Lourdes, nos jardins do Vaticano, e a ele estarão unidos santuários marianos de todo o mundo. A oração global, que tem como principal intenção “invocar a intercessão da Virgem para o fim da pandemia”, poderá ser seguida através do Facebook e do Youtube, e contará com comentários em português, anunciou o Vatican News.

Guterres manifesta “profundo reconhecimento” ao Papa Francisco novidade

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou, numa entrevista exclusiva aos meios de comunicação do Vaticano, o seu “profundo reconhecimento ao Papa Francisco” pelo apoio dado ao apelo de cessar-fogo global, mas confessou que, apesar de ter recebido também o apoio de inúmeros governos, instituições, outros líderes religiosos, e até de grupos armados, “a desconfiança continua a ser grande e é difícil traduzir estes compromissos em ações que façam a diferença”.

Boas notícias

Inimigos e rivais de longa data unem-se contra um adversário maior

Inimigos e rivais de longa data unem-se contra um adversário maior

Ofertas de material hospitalar ou de protecção, troca de pessoal médico, um judeu e um muçulmano que param ao mesmo tempo para rezar juntos e uma música gravada para apoiar uma organização de voluntários judeus, muçulmanos e cristãos. A pandemia serve também para que rivais, inimigos ou “diferentes” colaborem uns com os outros e esqueçam divergências.

É notícia

Cultura e artes

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário novidade

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Rádios católicas assumem papel “absolutamente essencial” em África

Não têm televisão, nem acesso a jornais ou revistas, e muito menos Internet, até porque muitas vezes também não têm luz: há uma parte substancial da população africana para quem o único meio de comunicação social disponível é a rádio. É através das estações de rádio, na sua maioria apoiadas por instituições católicas, que mensagens de prevenção, aulas, missas, catequeses ou peças de teatro chegam a inúmeras comunidades rurais. E se o papel das rádios locais em África já era determinante antes da pandemia de covid-19, agora tornou-se “absolutamente essencial”.

Papa Francisco: as “histórias boas” dão-nos “força para prosseguirmos juntos”

“Para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos”. Começa assim a mensagem do Papa para o  Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala a 24 de maio, mas que Francisco publicou a 24 de janeiro, dia da memória de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas, e em que parecia já adivinhar a importância que as “histórias boas” teriam nos meses seguintes.

Pessoas

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

A Senhora mais brilhante do que o Sol novidade

Quem é afinal Maria de Nazaré, a escolhida por Deus para encarnar a nossa humanidade? Os Evangelhos referem-na poucas vezes. Esse silêncio dá mais espaço à nossa criatividade e até a um certo empossamento da Mãe de Jesus. Em torno da sua figura construímos aquilo a que poderíamos chamar “questões fraturantes” entre cristãos. Mais importante que dogmas e divergências é atendermos à figura de Maria. Quem é que ela é, ou pode ser, para nós?

Evangélicos e Chega: separar as águas novidade

Em todo o debate público levantou-se novamente a questão da identidade evangélica, cuja percepção é complexa até para os próprios evangélicos e sobretudo para a maioria dos portugueses, cuja cultura religiosa é essencialmente católica-romana. Grande parte da percepção pública dos evangélicos deriva dos soundbites brasileiros e norte-americanos, onde há de facto lobbies evangélicos e ultra-conservadores, como a “Bancada Evangélica” ou o “Tea Party”. A isso, acrescenta-se a difusão dos canais de televisão e rádio neopentecostais, o que colabora para a criação de estereótipos sobre os evangélicos no seu todo.

“Fake religion”

Para que uma falsificação faça sentido e seja bem-sucedida tem que juntar pelo menos duas condições. Antes de mais, o artigo a falsificar tem de estar presente no mercado e em segundo lugar tem que representar valor comercial. Ora, o mercado religioso existe e está bem de saúde, para desespero dos neo-ateístas. E de cada vez que surge uma catástrofe, uma guerra ou uma pandemia mortal a tendência geral dos indivíduos é para recorrerem ao discurso religioso, procurando encontrar aí um sentido para o drama que estão a viver, porque o ser humano necessita de encontrar um sentido no que vê e sente acontecer à sua volta.

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