Na cidade e região de Erfurt, na parte oriental da Alemanha, foi inaugurada no último sábado uma mesquita construída de raiz. O facto não teria muito de particular, não se desse o caso de o espaço de culto estar implantado numa cidade onde o partido de extrema direita AfD tem um dos seus redutos e onde quase 50 por cento dos habitantes apoia a proibição da imigração.
Talvez por isso, o edifício da mesquita tem, no exterior da fachada, uma inscrição que se estende por largos metros e que diz “Libe für Alle, Hass für Keinen” (Amor para todos, ódio para ninguém). Essas palavras integram os princípios básicos da comunidade muçulmana Ahmadiyya, um movimento islâmico que remonta ao século XIX, que tem como valores de referência a paz, a educação e a propagação pacífica do islão.
Situada numa zona industrial da cidade, a construção, diz uma notícia da estação Deutsche Welle, demorou mais de dez anos a passar do projeto à abertura de portas. Ao longo do processo, foram várias as manifestações de ódio e protestos, que levaram construtoras a abandonar mais do que uma vez os trabalhos e a terminar contratos que haviam assinado.
Compõem o complexo a sala de oração, um minarete discreto de cerca de oito metros e um pequeno apartamento para residência do imã.
Todos estes aspetos fizeram do ato de inauguração um “acontecimento histórico”, que contou com a presença de representantes de outras religiões, nomeadamente o presidente da comunidade judaica e bispos das Igrejas Católica e Protestante, bem como de autoridades políticas como o deputado Bodo Ramelow, vice-presidente do Bundestag, que foi ministro-presidente da Turíngia até 2024 e um forte apoio na viabilização da construção da mesquita.
No dia da abertura, a polícia esteve presente nas imediações, para acautelar qualquer iniciativa que perturbasse o ato. A AfD recebeu, nas últimas eleições, um terço dos votos e o seu líder local liderou forte contestação à mesquita.
Perto de 70 por cento dos 220.000 habitantes de Erfurt não estão ligados a qualquer comunidade religiosa, mas a terra em que Lutero estudou, nos primeiros anos do séc. XVI, caracteriza-se pelos seus múltiplos locais de culto. E foi mesmo o único local da antiga RDA em que foi construída uma sinagoga, tendo-se tornado um exemplo de convivência inter-religiosa, mais do que sugere a sua reputação.



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