Não costumo ler as crónicas do Rodrigo Guedes de Carvalho no Expresso. Li vezes que bastassem para perceber que não gosto do estilo e sei que ao dizê-lo estou a quebrar uma regra de ouro para a sobrevivência em Portugal: Nunca critiques alguém que esteja acima de ti nos patamares da hierarquia do bom-sucesso, ou arriscas-te a ouvir cenas do tipo “mas quem és tu para opinar sobre alguém que está onde nunca vais chegar?” ou “Deixa mas é de ser invejosa”. Já repararam que é sempre a inveja? De cada vez que uma apreciação nossa não beija os pés das figuras do altar, lá a está a inveja como contra-argumentação.
Mas não há outra maneira de olhar para os semi-deuses sem ser com inveja?
É que, às tantas, o abuso de poder ultrapassa todos os limites alguma vez imaginados. Não são só os outros que perderam a vergonha, estamos num tempo em que já nem os intocáveis controlam o impulso das observações apócrifas.
Quer dizer, então, que somos todos feitos de matéria insuflável a boiar na superfície?
Apesar de não ter o costume de ler os seus textos, li na íntegra a crónica “O parafuso” (apenas para assinantes) publicado no Expresso de dia 28 de maio 2026, para poder escrever com a total noção do objeto a que me referia – não fossem as gordas, que me fizeram ir lá parar, estar descontextualizadas.
E essas gordas – aquelas frases que ninguém pediu para ver, mas que nos aparecem no ecrã do telemóvel de cada vez que abrimos a app de um jornal – diziam o seguinte: “Não me venham cá com as infâncias infelizes dos agressores, nem com as fragilidades psicológicas, nem com a toxicodependência, nem com o álcool.” Bla bla bla, e que são monstros e tal.
Está bem, são monstros. É claro que, à partida – tomados pelo instinto reptiliano – sentimos todos essa repulsa, e é legítimo. O facto de permanecermos nesse lugar após o período de reflexão é que é perigoso e nos incompatibiliza com a real resolução do problema – isso é que é verdadeiramente primitivo e involutivo.

Crianças abandonadas. Foto: reprodução das Redes Sociais. DR
A questão que se põe é que quem tem responsabilidades agregadas ao facto de ser uma figura pública de excelência (diz-se), ao falar potencia a indução de perceções coletivas nos leitores e admiradores do pequeno ecrã. A argumentação retórica do texto em questão é sustentada por uma arrogância tal que inviabiliza qualquer análise ao assunto na sua origem. Essa arrogância que começa sempre por dizer “Não me venham com…” insurge-se contra perspectivas que podem, realmente, contribuir para mudanças positivas e estruturadas dos comportamentos analisados. Neste caso concreto, o gatilho que motivou um casal a abandonar duas crianças – com aquele grau de frieza, indiferença e impassibilidade –, e horas depois ser capaz de estar numa esplanada a beber minis enquanto batem os sinos da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.
É que Rodrigo Guedes de Carvalho, com essa nota dos “não me venham com fragilidades psicológicas” não está só a querer apoderar-se da verdade e do conhecimento, como descredibiliza os inúmeros trabalhos de pesquisa, experimentação e investigação científica de sociólogos, psicólogos e psiquiatras na área do comportamento humano.
Depois compara estes tipos a um amigo da infância que esmagava gatos, ou lá o que era, dando a entender que esse amigo nunca se há de ter endireitado e que provavelmente se tornou terrorista.
Essa visão fatalista que RGC tenta forçar, associada à conduta deste tipo de pessoas, inscreve-se na lógica defendida pelos adeptos da castração química e das joelhadas que os chimpanzés aplicam nos narizes de mulheres indefesas. É mais fácil vedar a tampa do esgoto do que mergulhar na fossa. Mergulhar na fossa dói, é uma viagem às entranhas da podridão e causa náuseas, mas é nesse antro – cuja responsabilidade da caca é totalmente coletiva – que nascem os problemas mais graves. Só é possível aniquilar o problema através desse mergulho doloroso – o resto é máscara, manipulação e sensacionalismo.
Assumir que esta gente é monstruosa porque se nasce assim e ponto final, é a maneira mais fácil de sacudir a caspa dos ombros.
De alguma maneira, estamos organizados de forma a possibilitar que certas pessoas desenvolvam estas características. Andamos desatentos, com a boca cheia de razão, não há tempo para parar e refletir, para agir em conformidade com a mudança, porque essa dá um trabalho do caraças.
O mundinho dos maus contra os bons é mais fácil de engolir, principalmente quando se traz o privilégio debaixo do braço. Falar dos direitos dos animais e quase chorar em público, de tanta indignação, sentir o trauma florescer sessenta anos depois do amigo ter matado o gato à sua frente, descredibilizar os profissionais da saúde mental (nem sei se consciente ou não do perigo que isso acarreta) em prol de verdades absolutas fundamentadas em coisas nenhuma – isso sim, é bonito e comovente. Estratégia implacável para escalar ao pódio da adoração.
E eu indigno-me, porque penso na quantidade de gente que deve ler as gordas de crónicas como a de O Parafuso e assumir aquelas patetices como verdades absolutas e constatações a reproduzir. Os intocáveis – essas lapas encrostadas no cerne da mediatização – deviam pensar melhor no que escrevem, e dizem – ter o mínimo respeito pela condição de quem os lê e se reflete nas suas palavras.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
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