Infinito

| 9 Ago 20

Ser crente é acreditar que duas linhas paralelas se cruzam necessariamente no Infinito, e que esse ponto onde se cruzam é Deus. É acreditar que no fim, como no princípio de Tudo, há um ponto sem extensão nem duração, que é Deus. E que esse ponto está em toda a parte, inteiramente, absolutamente, sem estar todavia em parte nenhuma, pois ele não pode estar num sítio em detrimento de outro. Cada parte, cada lugar, cada ínfimo pedaço do universo, onde quer que esteja, está em íntima conexão com ele, não obstante esteja infinitamente distante dele. E cada coisa, por mais ínfima que seja, onde quer que esteja relativamente a todas as outras coisas, contém dentro do si o Infinito que a contém. Quer dizer, no Infinito, todos os pontos do universo, que é espaço e tempo, se cruzam num único ponto fora do espaço e do tempo – um único ponto que é Tudo.

Já G. Brunno o havia mostrado: não se pode conceber o Infinito físico, quer dizer, a extensão ou duração infinitas, sem se conceber uma potência infinita que nunca cessa de criar, bem radicada no fundamento de Tudo. E o bom Plotino, grande Plotino, bem dizia que tal fundamento tem de ser necessariamente Uno de uma unidade absoluta, quer dizer, irredutível, eterna, inesgotável, de tal maneira que o universo se cria continuamente na eternidade do Uno sem que o Uno jamais se veja diminuído. Ele que tudo cria desde sempre e para sempre, inclusive a si próprio. Ele que é a permanência absoluta, a absoluta impassibilidade, que necessariamente assiste a todo o movimento, a toda a transformação e toda a mudança. O “motor imóvel” aristotélico que, todavia, tudo move. Sim, é basicamente a suástica de mais de três mil anos: o ponto imóvel e sem extensão no centro absoluto de todo o movimento de criação e destruição. Axis mundi. O movimento relativo exige a permanência de um absoluto. A mudança exige a imutabilidade. No infinito.

O crente “vê” que o finito não pode ser para sempre nem ter a última palavra. Isto é, o crente “vê” que o finito não pode ser infinito por si mesmo. Como poderia ser? Para onde quer que se olhe, o Infinito impõe-se, quer seja no domínio do infinitamente pequeno quer no domínio do infinitamente grande, quer seja no nosso próprio infinito interior. Vejamos: nós somos, quer exista um mundo exterior quer não exista, quer tudo seja uma simulação ou não, nós somos. Basta a evidência de que podemos percecionar, sentir, experimentar no reduto da nossa exclusiva interioridade, para demonstrar que necessariamente somos. Isto não se pode provar a outrem; pode apenas percecionar-se como uma evidência intelectual subjetiva. E se somos, então, acerca do mundo, há pelo menos algo que podemos saber com certeza que é, quer dizer, que existe. Não é aquela mesa ou a aquela cadeira ou as aquelas estrelas – é eu, quer dizer, esta subjetividade que me habita e que eu habito.

Ora se há algo, esse algo poderia acaso não ter sido? Ou pode ser obliterado, destruído de uma vez para sempre, transformado em nada absoluto? Morrer? Uma vez que há algo (quem duvidaria de que há efetivamente ALGO, quanto mais não seja esse algo que necessariamente somos), é pois necessário que ele tenha uma origem e um fundamento, pois o Ser não pode ter origem no nada absoluto, nem sustentar-se no nada absoluto. Ora se o Ser não tem origem no nada absoluto, o nada não pode, por conseguinte, existir enquanto tal, pois mesmo que existisse enquanto tal teria de ser para poder existir.

Em consequência, o Ser é necessariamente. Quer dizer, o Ser não pode, em absoluto, não ser. Se o Ser é necessariamente – mesmo que seja só o Ser que posso intuir como necessário em cada um das minhas perceções subjetivas, ou seja, a minha própria subjetividade –, então esse Ser, devo concluir, existe necessariamente. Há qualquer coisa em mim que sou eu da forma mais radical possível, e que sendo necessariamente, não pode morrer. Mais: se há algo e não há nada, esse algo é, por conseguinte, TUDO (ou, como também se diz, o TODO), pois nada pode haver fora dele que não seja ele próprio, sem limites.

Por outras palavras, o Tudo é Infinito, porque o Ser não pode não Ser. E se em nós há algo que é – o que quer que isso seja – tem necessariamente de se fundar num absoluto que não pode ser destruído.

O ateísmo é, a meu ver, metafisicamente precipitado, pois o que sustenta é que, em última instância, o Ser pode não ser, quer dizer, pode ser obliterado, absolutamente “nadificado”. Ora isto dificilmente pode ser, a meu ver. O ateísmo é a negação do Ser enquanto Ser. É uma fé negativa naquilo que não pode, em absoluto, ser, porque é nada absoluto. Ora, o Ser não pode não ser, o infinito não pode perecer, o absoluto é necessariamente desde sempre e para sempre. E nós que sentimos, intuímos ser algo, no reduto intransmissível e absolutamente pessoal das nossas consciências; nós que nos vemos de súbito despertos para o facto assombroso de que nos habitamos de uma forma absolutamente única, para além de qualquer discurso racional – nós que somos, de uma evidência anterior a qualquer outra, escolhemos negar todas as consequências dessa evidência subjetiva, que sem qualquer palavra parece gritar-nos que aquilo que radicalmente somos, não só não tem limites como não pode morrer.

“Os limites da alma não é possível descobri-los, mesmo percorrendo todos os caminhos, tão profundo é o Logos que a sustenta.”, palavras do bom Heraclito…

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Gracia Nasi, judia e “marrana”

Documentário na RTP2

Gracia Nasi, judia e “marrana” novidade

Nascida em Portugal em 1510, com o nome cristão de Beatriz de Luna, Gracia Nasi pertencia a uma uma família de cristãos-novos expulsa de Castela. Viúva aos 25 anos, herdeira de um império cobiçado, Gracia revelar-se-ia exímia gestora de negócios. A sua personalidade e o destino de outros 100 mil judeus sefarditas, expulsos de Portugal, são o foco do documentário Sefarad: Gracia Nasi (RTP2, 30/11, 23h20).

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas

Uma forma de "construir pontes"

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas

Amir tem cinco anos e, até agora, não podia correr nem brincar como a maioria das crianças da sua idade. Quando tinha apenas 24 meses, apanhou um vírus que resultou no bloqueio de uma das suas artérias coronárias, pelo que qualquer esforço físico passou a ser potencialmente fatal. Mas, muito em breve, este menino palestiniano poderá recuperar o tempo perdido. Com o apoio da organização humanitária israelita Save a Child’s Heart, Amir acaba de ser operado num hospital em Tel Aviv e está fora de perigo.

É notícia

Dia dos Mártires

Igreja na Índia recorda massacre de 2008

Treze anos depois da onda de violência que varreu o Estado de Orissa, na Índia, provocando mais de 100 mortos, a justiça é ainda uma miragem, denuncia a Fundação AIS. Desde 2016 que é celebrado pela Igreja em Orissa o dia dos Mártires. 

Fundação AIS

Padre haitiano morto a tiro

Um padre que dirigia um orfanato no Haiti foi morto a tiro, Andrè Sylvestre, de 70 anos de idade, foi assassinado na tarde de segunda-feira, 6 de setembro, durante uma tentativa de assalto, revelou a Fundação AIS. 

IndieLisboa

Cinema: prémio Árvore da Vida atribuído a “Sopro”

O filme “Sopro”, realizado por Pocas Pascoal, uma cineasta angolana de 58 anos, foi distinguido na segunda-feira com o prémio Árvore da Vida, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), no final da 18.ª edição do festival de cinema independente IndieLisboa. 

Máximo histórico

Quatro em cada dez espanhóis dizem-se ateus ou não crentes

O estudo mais recente do Centro de Investigações Sociológicas de Espanha revela que quase quatro em cada dez espanhóis (38,7%) se declaram ateus ou não crentes e são apenas 16,7% os inquiridos que se assumem como católicos praticantes. Trata-se do máximo histórico do número de não crentes e do valor mais baixo alguma vez registado em relação aos católicos praticantes. Se a tendência se mantiver, estima-se que dentro de dois anos o número de não crentes no país ultrapasse, pela primeira vez, o de crentes.

Entre margens

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Sentido e valor da dualidade sexual

Sentido e valor da dualidade sexual

A sociedade edifica-se a partir da colaboração entre as dimensões masculina e feminina. Em primeiro lugar, na sua célula básica, a família. É esta que garante a renovação da sociedade através da geração de novas vidas e assegura o desenvolvimento harmonioso e complexo da educação das novas gerações. Por isso, nunca um ou mais pais pode substituir uma mãe e nunca uma ou mais mães podem substituir um pai.»

Cultura e artes

“Cheguei a pensar ser padre… não é muito diferente de ser comediante”

António Raminhos em entrevista

“Cheguei a pensar ser padre… não é muito diferente de ser comediante”

Andou na catequese, foi escuteiro, e, em plena adolescência, quis ser padre – talvez porque também nesse papel teria de falar às pessoas e cativá-las. A obrigatoriedade do celibato assustou-o. Mais tarde, o sentir que havia falta de coerência dentro da Igreja Católica também. É apaixonado pelas religiões (até gostava de fazer um programa de televisão sobre elas), mas é a figura de Jesus Cristo que verdadeiramente o inspira. Hoje, apesar de ter decidido batizar as três filhas ou de ter ido recentemente a Fátima a pé, não se revê na falta de abertura da Igreja Católica e diz-se mais cristão do que católico. Em plena digressão do seu mais recente espetáculo “Não sou eu, é a minha cabeça”, o comediante António Raminhos falou ao 7MARGENS sobre a sua relação com a fé e a forma como esta pode ajudar pessoas que, como ele, sofrem com distúrbios de ansiedade. E também de como a religião é um terreno fértil para o seu trabalho…

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

Clássicos em Cena em 7ª edição

A “Castro” e outros clássicos do teatro para descobrir em Lisboa (e no YouTube)

A Castro, de António Ferreira, e outras duas peças clássicas, serão objecto de duas leituras encenadas nas próximas sexta-feira e domingo. As sessões incluem-se no programa da 7ª edição dos Clássicos em Cena, que decorre na Livraria/Galeria Sá da Costa (R. Serpa Pinto, 19, ao Chiado, em Lisboa), com entrada livre, e também no canal do Teatro Maizum no YouTube.

Festival de música sem concertos, mas com “elevações espirituais”

No Vaticano e em Roma, nos 150 anos de Perosi

Festival de música sem concertos, mas com “elevações espirituais”

A 21ª edição do Festival Internacional de Música e Arte Sacra, realiza-se, no Vaticano e em Roma, de 12 a 15 de novembro e, segundo o seu programador, Hans-Albert Courtial, presidente da Fundação Pró Música e Arte Sacra, não terá concertos, mas sim momentos de “elevação espiritual”, de acesso livre e gratuito. Obras de Lorenzo Perosi, de quem se celebram os 150 anos do nascimento, serão tocadas na abertura, já no próximo sábado.

O sentido humanista na obra de José Afonso

Discografia reeditada

O sentido humanista na obra de José Afonso

Tem vindo a ser noticiada a reedição da obra discográfica de José Afonso (1929-1987). De seu nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, toda a obra se desenrolou e notabilizou sob este nome de José Afonso, entre o familiar e o funcional. A reedição do principal da sua obra constitui uma iniciativa digna de todos os encómios, já que será salvaguardada a qualidade original e a interpretação pessoal do autor.

Sete Partidas

Desobediência

Desobediência

Recentemente fui desafiada a algo que não esperava. Provavelmente deveria começar a ensinar a minha filha a prevaricar, disse-me o meu pai. Foi a palavra escolhida. O sentido era o de rebeldia, de desobediência. Eu fiquei a pensar.

Aquele que habita os céus sorri

pode o desejo

pode o desejo

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This