Influenciadores ou a futilidade encantatória do espelho

| 30 Abr 2024

Espelho. Imagem

“A figura do influenciador, muitas vezes, resume-se a um espelho de ostentação, refletindo uma vida de luxos, viagens exóticas, restaurantes estrelados e corpos esculturais.” Foto © Vince Fleming / Unsplash

Estou chocada. Apetece-me insistir nisto. O mundo dos influenciadores nunca foi um espaço digital por onde gostasse ou tivesse o hábito de deambular. Como há sempre uma “primeira” vez, lá fui eu um destes dias. Coloquei primeira entre aspas, pois, muito esporadicamente, já tinha ido cuscar algo específico, por mera curiosidade e para combater a minha iliteracia em matéria de algumas conversas. Fico espantada com a admiração de alguns ao dizerem – a pessoa X ou Y tem dezenas de milhares de seguidores. É bem feita, mostra marcas giríssimas… Enfim eu tenho mesmo muito pouca paciência para tanta banalidade já que, em muitas circunstâncias, não passa disto. Ou melhor, pode até passar, acrescentando frases que a única coisa que conseguem inspirar é vergonha alheia, de tão ocas serem.

Dizia eu – desta vez acerquei-me com mais afinco porque me falaram de alguém, em contexto profissional. E eis o que encontrei – vazio.

Pensei – num mundo cada vez mais dominado pelas imagens e pela exterioridade, o poder dos influenciadores ergue-se como um colosso digital a moldar sonhos e desejos de milhões. A verdade é que, por trás da cortina de filtros, poses perfeitas e ridicularias exibidas sem noção do próprio ridículo, esconde-se a fragilidade de um culto à futilidade e uma busca por validação online, que se torna a moeda de troca para a construção de uma identidade balofa.

A figura do influenciador, muitas vezes, resume-se a um espelho de ostentação, refletindo uma vida de luxos, viagens exóticas, restaurantes estrelados e corpos esculturais. Essa obsessão pela exibição material e pela perfeição física cria um padrão inalcançável para a maioria, alimentando sentimentos de inadequação, frustração e, tantas vezes, profunda tristeza também ela envergonhada. A busca incessante por “likes” e seguidores torna-se um ciclo vicioso, no qual a autoaceitação se perde, mesmo sem essa consciência, na busca por aprovação externa.

Mas a superficialidade dos influenciadores não se limita apenas à estética. A inutilidade das frases transmitidas, muitas vezes focadas em consumo desenfreado e apenas exibição, contribui para a banalização de valores importantes como a autenticidade, a criatividade e até a empatia. As mensagens repetitivas e sem qualquer valia, muitas vezes patrocinadas por marcas, transformam os autores em meras marionetes do marketing, vendendo sonhos e prometendo quimeras, em troca de cliques e comentários confirmadores de “não sei quê”.

Como sempre digo, não podem fazer-se generalizações. É fundamental reconhecer que nem todos os influenciadores encaixam neste perfil. Existem aqueles que utilizam as suas plataformas para promover valores positivos, como a sustentabilidade, a inclusão social ou até a saúde mental. Esses, que se focam em conteúdos significativos, podem ter um impacto positivo na sociedade, inspirando e motivando os seus seguidores a serem a melhor versão de si mesmos.

A verdadeira influência reside, pois, na capacidade de inspirar e transformar, não na ostentação de bens materiais ou na busca por validação superficial. É importante que os consumidores de conteúdo digital sejam críticos e seletivos, procurando consistentes fontes inspiradoras que contribuam para a construção de uma sociedade mais consciente e mais responsável. De facto, todos somos gestores das nossas escolhas; todos podemos optar por fazer a diferença no mundo pelo qual estamos a passar.

Os influenciadores podem até ser ferramentas valiosas para a comunicação e a disseminação de ideias, mas não devem ser tomados como modelos absolutos de vida. A busca pela felicidade e realização pessoal deve ser guiada por valores intrínsecos, não por likes e seguidores numa rede social ou em qualquer outro ambiente virtual.

Ostentação. Compras

“Na verdade este artigo podia chamar-se – os perigos da ostentação. É que estes fenómenos, dominadores nos nossos dias, são estupidamente perigosos.” Foto © freestocks / Unsplash

Na verdade este artigo podia chamar-se – os perigos da ostentação. É que estes fenómenos, dominadores nos nossos dias, são estupidamente perigosos. As ameaças estão ao nosso redor, mas nós fazemos os possíveis por esquecer o que nos incomoda, alienando-nos a admirar deslumbrantes vazios, como se estes nos ensinassem alguma coisa sobre o que de verdade importa.

E, já agora, convém sublinhar que os pilares de um verdadeiro influenciador deveriam ser, no mínimo, a autenticidade e o propósito; a promoção da inspiração e de mudanças positivas no mundo; o contributo para a construção de um futuro mais justo, sustentável e humano, desde que este não correspondesse a uma manobra autopromocional de egos que apenas querem atuar em proveito próprio e não ao serviço de outros ou de qualquer alguém.

Termino este texto com uma citação que li, atribuída a Cecília Sfalsin[1] – «Cuide de si. Mesmo que isso lhe custe tempo e renuncias, cuide do seu coração, faça algo que o deixe bem, que lhe acrescente e resguarde-se de tudo o que possa tirar a sua paz ou entristecer a sua alma. Às vezes deixamos de cuidar de nós pelos outros; deixamos de olhar para nós por tantas obrigações que temos; esquecemo-nos que também temos sonhos, vontades e sentimentos; que precisamos de nos resgatar de certos cansaços para que a nossa força não se enfraqueça diante daquilo que não fazemos por nós e para que a nossa fé não desfaleça pelos vazios que as lutas diárias nos causam.»[2]

Na realidade, o que mais necessitamos é de procurar equilíbrios – para o que quer que seja – nem só forma nem só conteúdo. Tudo nos integra, desde que seja vivido na dose certa.

 

[1] Julgo que se trata de uma escritora. Apenas conheço de si citações e não obras completas.
[2] Tradução grosseira, mas na qual procurei ser fiel.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

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