Iniciativa Educação: Uma janela aberta à aprendizagem

| 2 Jul 20

Há uns anos – ainda era professora do ensino secundário –, uma pessoa amiga tinha duas filhas com personalidades muito diferentes. Foi chamada à escola do 1º ciclo do ensino básico. A professora disse-lhe que a filha mais nova não conseguira chegar aos objectivos propostos e que caberia a ela, mãe e responsável pela educanda, decidir se a filha deveria passar para o ano seguinte ou não. A minha amiga – que era também professora do ensino secundário – disse que preferiria que a filha repetisse o ano. Eu deitei as mãos à cabeça: com que então os pais é que decidem se o filho deve ou não passar?

Não me devia ter espantado tanto. Estava ciente, como professora de Português, das dificuldades dos alunos quando iniciavam o ensino secundário, no 10º ano. E dos “protestos” de alguns pais, de uma turma – no meu caso – no tempo da famigerada ministra da Educação do governo do PS, liderado por José Sócrates “porque dava notas baixas” no fim do período. Não era de espantar: a ministra decretara o sucesso escolar! Até ali, houvera uma grande facilitação e pensavam – pais e alunos – que tudo ia correr da mesma maneira.

Anos atrás, no antigo liceu de Guimarães, chamara um Poeta a uma aula do 12º ano de Humanidades – não tivera os alunos nos anos anteriores – porque a turma, na sua grande maioria, não sabia “lidar” com a linguagem poética. Desconhecia, não compreendia a razão de ser de uma simples metáfora! E perguntavam inocentemente ao Vergílio Alberto Vieira – que por acaso era também professor do ensino básico na escola ao lado – por que razão escrevia assim. Estes alunos – e infelizmente não eram caso único – nunca tinham tido, nos onze anos anteriores, verdadeiro acesso à aprendizagem da poesia.

Reformei-me muito antes dos 65 anos, com uma grande penalização porque estava esgotada, embora gostasse muito da minha profissão. Não quis mais saber do que se passava nas escolas. Quando Nuno Crato foi ministro, reparei que ele dava grande importância à aprendizagem dos primeiros anos do básico e aplaudi para mim mesma essa atitude, visto que há muito tempo achava que era nesse momento da escolaridade, na infância – não diz o ditado: “de pequenino se torce o pepino?” – e não na adolescência que se aprende a ler, escrever e contar e a decorar. Este último verbo era (ainda é?) considerado uma infâmia, no ensino pós-25 de Abril, por certos sectores de esquerda que tomaram de assalto as direcções-gerais do Ensino e o próprio Ministério. O “ensino unificado”, o desaparecimento das escolas técnicas, uma aberração. Criámos licenciados que não sabem ler nem escrever (pelo menos, nos cursos de Letras, eu sei, pois orientei estágios de Português). Adolescentes que ficaram à deriva, depois do 9ºano “unificado”. Mas vamos ao que importa:

Surgiu um Projecto inovador de Teresa e Alexandre Soares dos Santos, chamado Iniciativa Educação, liderada pelo ex-ministro Nuno Crato e outros que “ajuda a procurar o sucesso dos jovens”.

Há neste momento três projectos, sobretudo para jovens que têm debilidades “económicas, familiares, educacionais e sociais e que não atingem os resultados que poderiam obter”:
– Promoção da aprendizagem da leitura: Ler Melhor, Saber Mais.
– Desenvolvimento do Ensino Profissional: Programa Ser PRO, facilitando colaboração entre escolas e empresas.
– Divulgação de informação e conhecimento sobre educação: Projecto de informação on-line: AD-ON.

Existem apoios a estes projectos denominados Arco Maior (no Porto) e Semear (em Lisboa). Parabéns!

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

 

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