Injustiça social: “ukati, ovaxini vangahona vasati?”*

| 26 Dez 19

“Em 2030, as mulheres viverão em média três anos a mais que os homens, serão mais que os homens, serão 60% dos estudantes universitários, 60% dos graduados e 60% dos titulares de mestrado. E muitas mulheres casarão com um homem mais novo que elas […]. Por tudo isto estarão no centro do sistema social.” (Domenico De Mais)

 

Trago desta vez um tema que me é difícil de abordar, por criar cisões entre diferentes estratos sociais, em Moçambique. Irei abordá-lo com exemplos muitos gerais, relativos a vivências do Sul do país, uma sociedade patrilinear. Utilizarei como pano de fundo uma música e uma canção entoadas em tsonga; as quais irei traduzir de modo aproximado, apenas para que se apreendam os sentidos. Não se trata de transposições de uma profissional de tradução.

Como ponto de partida, confira-se a música intitulada ukati, da cantora moçambicana Marleen. Ukati, como se depreende, é uma palavra que foi aproveitada para fazer parte do título deste texto e significa lar matrimonial. Marleen é uma mulher muito jovem que, na sua música, destaca, à náusea, que estar casada requer força, um esforço a ser feito, pelas mulheres, através do coração. A melodia é lindíssima e tem animado imensas festas cá pelas nossas terras. Acredito que nem todos se animem pelo significado da letra, mas mesmo pelo seu ritmo.

Marleen faz referência a uma injustiça social. Ao facto de se colocar “por cima dos ombros da mulher” a responsabilidade pelo casamento e pela família. Devo referir que, tradicionalmente, no Sul de Moçambique, o casamento de um homem e de uma mulher, na maior parte das vezes, é um compromisso entre as famílias dos dois. O que Marleen refere na música é que a família de uma determinada esposa se sente orgulhosa, pelo facto de a filha se ter casado. Mas chama-lhe à atenção para o facto de que na casa do seu esposo terá muitas responsabilidades: cuidar da sua família alargada, dos seus pais, dos seus irmãos e dos idosos que lá encontrar. Há uma metáfora que a cantora utiliza com humor: “terás que lavar a louça, incluindo gatos.” Os gatos são referência a idosos (com todo o tipo de mazelas que se lhes pode imaginar: raquíticos, doentes, totalmente dependentes ou não). Entretanto, o que a família da tal esposa pede, neste caso, é que ela tenha força e que se aguente no seu novo lar, custe o que custar.

Paralelamente ao que canta Marleen, há um vídeo que tem estado a ser passado através de redes sociais (reconheço-lhe a origem sulista, por ser versada em tsonga, mas desconheço a sua autoria). Pelo que se pode ver, foi gravado numa igreja presbiteriana. Nele está um conjunto de senhoras que desabafam sobre a realidade da mulher na sociedade, o facto de a ela ser imputado tudo o que é difícil na vida. Elas cantam e perguntam: em que é que foi que a mulher errou? Dizem ainda que, em fórum doméstico, é ela quem dá à luz, que entretanto deve adoptar o apelido do marido, após o casamento; as tarefas caseiras são a ela relegadas, cozinham, servem à mesa, cuidam da casa; no entanto ao marido cabe sentar-se à mesa e comer. No âmbito profissional, elas fazem compras a grosso para revender em mercados e, entretanto, o chefe do negócio é o marido. Nas igrejas, as missas e cultos ficam cheias de mulheres e elas é que mais fazem o apostolado, mas quem toma decisões são os homens…

O cerne desta questão é sumarizado por ovaxini vangahona vasati? Ou seja, o que é que foi que as mulheres fizeram ou em que foi que elas erraram? – a  expressão que utilizei para uma das partes do título deste texto.

Se repararem, a cena do vídeo passa-se no interior de uma igreja. É lá que desabafam a sua dor. Lá onde, supostamente, deveriam aceitar tudo o que Deus lhes entregou! Lá onde, segundo um grupo de mulheres que entrevistei em função da visualização do vídeo, de onde veio a colocação da mulher em segundo plano, nas relações humanas. Lá onde, segundo elas, o que se tem apregoado, entre outras lições bíblicas (Efésios 5: 22,23): “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador.” É uma canção revolucionária e devo referir que elas pedem a Jesus que ouça os seus lamentos e as ajude na sua luta, nas injustiças que têm passado.

Embora com esse aparato de contestação, certamente será encarada apenas como música para animar as mulheres e não haverá reflexão sobre ela, porque a sociedade já muito falou sobre isso, mas nada muda. Na verdade, algumas destas mulheres lamentam através da canção e, depois, o que praticam na vida é o contrário. Por exemplo, se tiverem que aconselhar a uma noiva, antes do seu casamento fazem o que diz Marleen em ukati: “Deve-se aguentar o lar matrimonial com o coração.”

Perguntei a uma entrevistada que conselhos é que tem dado às noivas e respondeu-me: “Nem que o marido bata em ti, minha filha, deves aguentar o lar. É assim mesmo, deves ter paciência. Eu, que estou a falar, quantas vezes saí a correr do oitavo andar, lá para baixo do prédio, até que o meu marido se acalmasse e, depois eu voltava para ir lhe servir o jantar? É assim que deve ser. Um marido é um marido”. Esta afirmação de que “um marido é um marido”, estende-se para além da violência psicológica, física e atinge o lado emocional – como o facto de se consentir o adultério. Abrindo um parêntesis, acrescento, tal como já expliquei num dos meus textos, no 7MARGENS, que não se deve confundir o sistema organizado em torno da poligamia, que tem os seus trâmites legais, com o adultério, que não faz parte deste sistema, por ser uma violação dos seus pressupostos.

Devo explicar ainda que existe uma cerimónia de aconselhamento à noiva, dias antes do seu casamento, que em tsonga se designa kulaya, aconselhar. É nela que quase se dá um compêndio de deveres para a mulher, os quais se resumem à submissão. Pouco se fala em seus direitos ou na sua satisfação, seja de que índole for. Ela, simplesmente, deve colocar-se em último lugar em sua casa e na sociedade. Em tempos modernos, entretanto, algumas das mulheres conselheiras já afirmam que a mulher também deve procurar ter prazer sexual no casamento, por exemplo, contrariamente ao que se dizia antes, que a ela cabia apenas servir.

 

Ovaxini vangahona vasati? Afinal o que é que se passa e quando é que tudo isto mudará?

Colocada esta questão, várias mulheres referem que não se vislumbra uma saída, uma vez que, mesmo entre as feministas, muitas das quais fizeram aprovar a lei sobre a violência doméstica contra a mulher (lei n. 29/2009), muitas delas sofrem deste mal e da injustiça social referida pela música e pela canção acima mencionadas. Disse-me uma delas: “Minha filha, sabe que nas esquadras, quando uma mulher vai participar factos ligados à violência doméstica contra a mulher, perguntam-lhe se tem a certeza de que quer denunciar o marido? Algumas delas desistem. Só as persistentes é que levam os seus casos até às últimas consequências. E lembra-te que somos uma sociedade na qual, pelo facto de a poligamia ser consentida, nunca te queixarás sobre o adultério, confundem-se as coisas.”

Escrevo este texto, numa altura em que se discute, através das redes sociais, o caso de duas meninas vítimas de violência dos seus namorados, factos que as levaram à morte. Grande parte dos internautas – homens, diga-se – referem que os agressores tinham razão de levar o caso às últimas consequências, porque “homem não aguenta cornos”. O que, por extensão, significa que as mulheres foram concebidas com características próprias para suportarem todo o tipo de males sociais, incluindo consentirem o adultério dos seus maridos, sem nada dizerem, porque é normal que os homens sejam traidores, têm necessidades físicas diferentes. Dizia um deles: “O homem é, por natureza, um predador.”

À pergunta colocada acima, a resposta é que esse desequilíbrio nunca mudará. Mas será mesmo?

Conversando com algumas pessoas sobre de que modo é que a situação pode mudar, referiram que os homens deveriam também ter um ritual de kulaya, antes de se casarem, para a par das mulheres poderem, pelo menos, conversar sobre uma base de igualdade de circunstâncias no que toca ao facto de não existirem humanos feitos à medida do sofrimento e outros, não.

Diversificando a amostra, foi possível encontrar homens que revelaram que essa injustiça social existe “desde que o mundo é mundo” e que não há razões para se discutir. Um deles disse-me que achava um desperdício de tempo o facto de as feministas se preocuparem com a equidade e com a igualdade, porque ela não existe, nunca existirá e nem tem razão de existir, porque, no mundo uns deverão mandar e outros obedecer. “Homem é homem e ponto final”, diziam eles.

Voltando ao vídeo, há dores e há lamentos. Há uma súplica a Jesus para que liberte as mulheres do seu sofrimento. Entretanto, as “amarras” da realidade cultural e da tradição na qual elas se encontram inseridas é que as limita e torna difícil que elas se libertem desse aprisionamento. Isso é aludido na música de Marleen: aguenta o casamento com o coração – menção a um provérbio popular awukati wukandziwa hi mbilu, isto é, o casamento deve ser suportado pelo coração, haja o que houver.

Mas essa injustiça social mudará. Acredito, tal como o afirma o sociólogo italiano Domenico de Masi, referido na epígrafe deste texto, que em poucos anos as mulheres dominarão o mundo e exercerão o seu poder de modo tão duro quanto os homens. Ele se refere a uma realidade não moçambicana, mas por extensão a ela pode-se aplicar, uma vez que mais mulheres vão liderando centros de poder e vão-se formando, até porque as políticas internacionais, às quais Moçambique se tem aliado, têm obrigado o país a tomar em consideração a questão do género, em muitas esferas da vida social. Além disso, já se verificam movimentos nacionais em prol de se alterar aquilo que da tradição retira dignidade à mulher; pelo que mesmo o campo cultural poderá sofrer mudanças tais que interferirão no status quo.

A fé no que acabei de referir é consubstanciada pelo facto de, nos dias que correm, crescer o número de mulheres independentes; aliado ao facto de algumas sociedades do Norte de Moçambique, serem matrilineares, onde a poliandria é permitida. O que pode sugerir às mulheres novas formas de se estar no mundo, como o facto de não encararem o casamento como um troféu e seguirem as suas vidas de modo diferente. Espero, na verdade, que haja um factor transformador de consciências e de mentalidades, a bem da redução das injustiças sociais a que a música de Marleen e a canção do vídeo acima se referem.

 

*Sara Laisse é docente da Universidade Politécnica, em Maputo. É membro do Movimento Graal. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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