Abusos sexuais

Institutos religiosos de França preparam “aggiornamento” de todas as estruturas

| 16 Abr 2023

Homem a rezar numa igreja. Foto © Stefan Kunze / Unsplash

Homem a rezar numa igreja: Congregações de religiosos anunciam movimento de reforma das estruturas. Foto © Stefan Kunze / Unsplash

 

As lideranças das religiosas e religiosos de França acabam de adotar resoluções que preconizam profundas reformas da vida das congregações e institutos, de modo a respeitar a liberdade de cada pessoa, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade, quando se encontram em fase de discernimento vocacional.

A decisão foi tomada no último de três dias de encontro da Corref (Conferência das Religiosas e Religiosos de França), que reuniu no fim da última semana em Paris representantes das instituições masculinas e femininas do país. O objetivo dos trabalhos foi debater e aprovar dezenas de propostas, previamente elaboradas em grupos de trabalho, decorrentes das recomendações feitas pela Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja (CIASE, na sigla em francês).

Nesta abordagem à sua estrutura e funcionamento, as congregações são convidadas a rever as constituições, as formas de exercício do poder, o acompanhamento espiritual, as regras de funcionamento dos conselhos e capítulos e tudo o que tem a ver com a formação, quer inicial quer contínua, com a preocupação de que os direitos fundamentais das pessoas, tal como são hoje assumidos, sejam acautelados.

Segundo relata o jornal La Croix (ligação reservada a assinantes) a própria linguagem utilizada ainda em alguns desses meios – como “mãe”, “madre”, “superior/a (maior)” – poderá vir a ser examinada nesse processo de aggiornamento (renovação e reforma).

Os líderes das instituições religiosas decidiram também reativar e rever a prática das visitas canónicas regulares, abrindo-se à possibilidade de cada uma incorporar um membro de outro instituto ou mesmo uma pessoa leiga. Essa seria uma forma de atenuar o isolamento em que muitas vezes os superiores se veem, criando possibilidades para a troca de experiências.

Em especial no respeitante à prevenção de abusos sexuais e espirituais e violências de todo o tipo nas congregações, foi aprovado um convite a cada instituto a que elabore a respetiva “cartografia de riscos”, associada ao carisma de cada um. Essa cartografia pode definir orientações no que se refere a pessoas que são recebidas nas casas ou que são acompanhadas pelos membros. Procura-se definir e aplicar práticas e modos de funcionamento que promovam a transparência.

No decorrer dos trabalhos, o coordenador da Comissão de Reconhecimento e Reparação (CRR), que tem assegurado o acompanhamento das vítimas dos religiosos nos últimos dezoito meses, apresentou alguns dados do trabalho desenvolvido. Ficou, assim, a saber-se que foram recebidos 700 pedidos, dos quais 128 foram encaminhados para o organismo responsável pelos abusos nas dioceses. Outros 200 foram concluídos e 300 estão em investigação. A esmagadora maioria das agressões (80 por cento) foram perpetradas entre 1950 e 1980, vitimando 70 por cento de homens e 30 por cento de mulheres. Quase dois terços tiveram lugar em instituições escolares.

Nos trabalhos, houve tempo para escutar algumas vítimas, bem como responsáveis de institutos que tiveram de enfrentar situações de abusos e, ainda, pessoas envolvidas nas comissões de ajuda às vítimas.

Comparando os trabalhos e os resultados deste encontro do conjunto dos responsáveis pelas ordens religiosas com o que aconteceu há duas semanas, na assembleia plenária da conferência dos bispos de França, o La Vie considerou que na iniciativa da Corref se “assumiu um compromisso mais firme”.

Justificou essa conclusão com o depoimento de alguns leigos que participaram em grupos de trabalho de ambos os lados, para quem “a diversidade das congregações, e o seu hábito de deliberação em capítulo as tornou capazes” de lidar com as pessoas e com as situações de uma forma mais direta.

 

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