Os avanços das novas tecnologias, e em particular da inteligência artificial (I.A.), trazem desafios significativos para a educação. Na mais recente encíclica Magnifica Humanitas (cf. MH 139), o Papa Leão XIV sublinha que o advento de tais tecnologias está a criar uma cultura do imediato, de hiperestimulação, em que se ambiciona tudo de forma instantânea, não havendo paciência para algo mais demorado, silencioso ou contemplativo. Veja-se, por exemplo, o cansaço, tédio ou apatia fomentado pelo voraz consumo de vídeos nas redes sociais, num contínuo e infinito doomscrolling, ou as respostas prontas a copiar geradas pelas ferramentas de inteligência artificial a partir de qualquer comando.
Nas palavras de Leão XIV, “a rapidez e a facilidade com que se obtém uma resposta ou uma síntese correm o risco de extinguir o desejo de colocar perguntas” (MH 140). Ou seja, processos educativos assentes na pressa, no imediato, numa dependência excessiva da inteligência artificial prejudicam o desenvolvimento de competência essenciais para o florescimento humano, como o fomento do pensamento crítico, a imaginação, a criatividade, a própria resolução de problemas, o ato de inquirir por si próprio e ter prazer na dificuldade vencida, de se superar, de conseguir por si mesmo alcançar um determinado objetivo difícil. Ao delegarem na I.A. todo o tipo de tarefas, os estudantes perdem a oportunidade, ficam impedidos de uma aprendizagem significativa e do desenvolvimento de tais competências. De forma análoga, um aluno de natação que delega constantemente a sua aprendizagem noutra pessoa e nunca vai para a piscina; também nunca aprenderá a nadar. Um risco similar de perda de competências essenciais para o progresso intelectual pode suceder com uma externalização frequente das tarefas cognitivas para a inteligência artificial.
A solução para esses desafios não passa por proibir a I.A. em contexto escolar; seria como tentar parar o vento com as mãos. Então, como mitigar essa desqualificação, erosão de habilidades ou outsourcing de competências? Leão XIV oferece algumas pistas para os professores e educadores lidarem com esses desafios.
Em primeiro lugar, Leão XIV defende, seguindo Platão, que “as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em discutir com os outros para ‘friccionar’, como numa pederneira, os conceitos e as experiências, até saltar em nós a centelha da compreensão” (MH 140). Aliás, como advoga o filósofo da educação Duncan Pritchard, o objetivo epistémico central da educação é o cultivo do carácter intelectual, das virtudes, que tornam possível e sustentam essa compreensão, tal como Leão XIV refere. Mas tal exige, por parte do estudante, que faça as coisas por si próprio, com tempo e o indispensável esforço, sem delegar o trabalho de aprender num agente externo, natural ou artificial.

“Como o autómato de Von Kempelen que deslumbrava as cortes europeias com a ilusão de pensar por si mesmo, a IA seduz-nos com a facilidade da resposta”. Gravura: O Turco Mecânico de Von Kempelen (1770).
Em segundo lugar, e em relação com o ponto anterior, para que que o estudante desenvolva essa compreensão por si próprio, é necessário, de acordo com Leão XIV, “promover uma verdadeira higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar comprometida” (MH 146), assim como fica comprometido o desenvolvimento de um autêntico pensamento crítico e criativo.
Em terceiro lugar, e por fim, dada a rápida evolução destas novas tecnologias, é necessário formação permanente e atualização dos conhecimentos dos professores e educadores ao longo da vida “para que saibam dialogar de forma positiva com as novas tecnologias, ajudando os alunos a usá-las de modo responsável, crítico e criativo, sem apenas se submeterem, de modo passivo, à sua influência” (MH 145).
Com base nestes três pontos, como deve ser uma I.A. ao serviço de uma educação autêntica? Em vez de dar as respostas diretas para o estudante copiar, deve fomentar o questionamento, a compreensão e a reflexão profunda. Por isso, quando um estudante escreve um prompt para que a I.A. lhe escreva, por exemplo, um ensaio sobre um dado tema, esta em vez de lhe dar o texto pronto, vai perguntar o que é que o estudante já sabe sobre esse tema e vai orientá-lo para que seja o próprio estudante a escrever o texto. Ou seja, é uma inteligência artificial que em vez de dar o peixe, ensina a pescar.
Claro que, para isto funcionar, é necessário que haja previamente professores que façam a criação e a personalização de agentes de inteligência artificial que sigam esses princípios pedagógicos, em vez de se utilizar simplesmente uma I.A. genérica. Nestes processos educativos o professor será sempre o elemento central, quer para analisar quando o uso da inteligência artificial pode constituir uma mais-valia, quer para assinalar as circunstâncias em que esta não deve ser utilizada. Isto porque, tal como advoga Leão XIV, educar para o uso da I.A. implica também “educar para decidir quando e em que situações não a utilizar” (MH 140).
Domingos Faria é professor auxiliar no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
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