Papa no Dia das Comunicações Sociais

Inteligência artificial é valiosa se permitir “crescer em humanidade”

| 11 Mai 2024

Papa Francisco fala aos jornalistas no avião rumo à Mongólia, 31 agosto 2023. Foto Vatican Media.

Papa Francisco fala aos jornalistas no avião rumo à Mongólia, a 31 de agosto de 2023. Foto © Vatican Media.

Que tem o coração a ver com a inteligência artificial? Para o Papa Francisco tem e é do coração humano – da “sabedoria do coração” – que ele parte para “ler e interpretar a [grande] novidade do nosso tempo e descobrir o caminho para uma comunicação plenamente humana”. E desenvolve essa leitura e esse olhar na mensagem que propõe a todos os católicos e todas as pessoas interessadas para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se evoca este domingo em que se celebra a festa litúrgica da Ascensão de Jesus.

Ainda que a mensagem alerte para os riscos que a inovadora ferramenta traz ao nosso tempo que “corre o risco de ser rico em técnica e pobre em humanidade”, Francisco começa por “limpar o terreno das leituras catastróficas” que se associam a cada nova tecnologia e, neste caso, à inteligência artificial, para evitar os “efeitos paralisadores” desse tipo de posicionamento.

Nessa linha, “a sabedoria do coração é a virtude que nos permite combinar o todo com as partes, as decisões com as suas consequências, as grandezas com as fragilidades”. Ela, explica a mensagem, “deixa-se encontrar por quem a busca e deixa-se ver a quem a ama; antecipa-se a quem a deseja e vai à procura de quem é digno dela”.

Com máquinas com capacidade de memorizar, analisar e relacionar quantidades imensas de dados e informações, as pessoas e as sociedades têm ganhos inquestionáveis em abrangência, velocidade e até no dar a ver o que à vista desarmada não se consegue. Mas tal capacidade não é necessariamente equivalente a verdade e menos ainda a sabedoria. A busca do sentido, o pensamento crítico ou as preocupações com as escolhas éticas constituem desafios especificamente humanos, que carecem de ser promovidos.

“Não se trata, pois, de exigir das máquinas que pareçam humanas; mas de despertar a pessoa da hipnose em que cai devido ao seu delírio de omnipotência, crendo-se sujeito totalmente autónomo e autorreferencial, separado de toda a ligação social e esquecido da sua condição de criatura”, explica o Papa.

Na mensagem, alerta-se para outros riscos que decorrem desse “delírio de omnipotência” que as capacidades das máquinas inteligentes exibem: tornarem-se “instrumentos de ‘poluição cognitiva’, alteração da realidade através de narrações parcial ou totalmente falsas, mas acreditadas – e partilhadas – como se fossem verdadeiras”, como se tem visto, nomeadamente no tocante à desinformação.

Considerando que “os algoritmos, como tudo o mais que sai da mente e das mãos da pessoa, não são neutros”, podendo redundar em cenários negativos uma vez caindo “nas mãos erradas”, a mensagem para o Dia das Comunicações Sociais alerta para a necessidade de “prevenir propondo modelos de regulamentação ética para contornar os efeitos danosos, discriminadores e socialmente injustos dos sistemas de inteligência artificial”.

Para crescermos juntos “em humanidade e como humanidade”, o Papa faz notar que “nos cabe questionar-nos sobre o progresso teórico e a utilização prática destes novos instrumentos de comunicação e conhecimento”, de modo a evitar que “tudo se transforme num cálculo abstrato que reduz as pessoas a dados, o pensamento a um esquema, a experiência a um caso, o bem ao lucro, com o risco sobretudo de que se acabe por negar a singularidade de cada pessoa e da sua história, dissolvendo a realidade concreta numa série de dados estatísticos”.

Já na parte final do texto, o Papa propõe um conjunto de interrogações que são outros tantos critérios de avaliação crítica e ética das potencialidades e riscos da inteligência artificial, a saber:

“Como tutelar o profissionalismo e a dignidade dos trabalhadores no campo da comunicação e da informação, juntamente com a dos utentes em todo o mundo? Como garantir a interoperabilidade das plataformas? Como fazer com que as empresas que desenvolvem plataformas digitais assumam as suas responsabilidades relativamente ao que divulgam daí tirando os seus lucros, de forma análoga ao que acontece com os editores dos meios de comunicação tradicionais? Como tornar mais transparentes os critérios subjacentes aos algoritmos de indexação e desindexação e aos motores de pesquisa, capazes de exaltar ou cancelar pessoas e opiniões, histórias e culturas? Como garantir a transparência dos processos de informação? Como tornar evidente a paternidade dos escritos e rastreáveis as fontes, evitando o para-vento do anonimato? Como deixar claro se uma imagem ou um vídeo retrata um acontecimento ou o simula? Como evitar que as fontes se reduzam a uma só, a um pensamento único elaborado algoritmicamente? E, ao contrário, como promover um ambiente adequado para salvaguardar o pluralismo e representar a complexidade da realidade? Como podemos tornar sustentável este instrumento poderoso, caro e extremamente devorador de energia? Como podemos torná-lo acessível também aos países em vias de desenvolvimento?”

As respostas não estão escritas à partida; dependem de cada pessoa, alerta Francisco.

 

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