Li uma vez que Paulo Freire (educador e filósofo brasileiro, 1921-1997) fez um tipo de desafio com camponeses chilenos, pois “todos” dizem que lavradores são ignorantes e os “letrados” são “oooh! Incríveis!”, os “sabe-tudo”. O desafio era: 10 coisas que os camponeses saberiam fazer e ele, Paulo Freire, não – e vice-versa.
A história está em “Pedagogia da Esperança” (1968), época na qual o autor estava exilado no Chile. Em determinado momento, os camponeses dizem, em essência, que o escritor deveria falar porque ele era “o doutor” e eles não sabiam “nada”. Paulo Freire aceitou provisoriamente a afirmação e propõs um jogo.

O jogo funcionava assim: ele faria uma pergunta aos camponeses; se eles não soubessem responder, era um ponto para ele. Depois eles perguntariam ao autor: se ele não soubesse, ponto para eles.
Não sei dizer exatamente quais foram as perguntas, pois não li totalmente o livro, mas vamos supor que, da parte do educador e filósofo, possam ter sido “O que significa epistemologia?”, “Quem foi Hegel?”, “Qual é o país mais longo do mundo, em sentido norte-sul?” – a propósito, é o Chile.
Da parte dos camponeses, as perguntas podem ter sido “Qual é a melhor época para plantar macieiras?”, “Como adubar organicamente?”, “Como evitar a erosão do solo”?, perguntas que Paulo Freire não soube responder totalmente. Sabe(re)mos nós? Não sei a melhor época de plantio de nada. Será feio isso? Acho que não, não é minha área. Sobre o adubo e a erosão eu talvez saiba um pouco, mas jamais como quem trabalha na terra. Assim foi com o escritor.
O placar registou a mesma pontuação para os dois lados. Ninguém sabe tudo. Ninguém é ignorante. Mas somos ignorantes em aspectos que desconhecemos, por não estudá-los, não nos aprofundarmos. É simples. E até mesmo “matemático”. Questão de lógica.
Existe uma famosa frase atribuída a Albert Einstein, que diz: “Toda a gente é um génio. Mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir às árvores, ele passará a vida inteira acreditando que é estúpido”.
Não existem registos históricos ou escritos de Albert Einstein que comprovem a autoria dessa frase, mas ela é ótima, mesmo assim. Ela mostra exatamente que todos nós sabemos algo. Mesmo que não as mesmas coisas. Todos temos algo a ensinar. E MUITO a aprender. Sempre.
Lamentavelmente, o ego de muitas pessoas não deixa que vejam isso. Existe uma frase que mostra bem isso, de autoria do escritor brasileiro Rodrigo Domit, publicada por ele em seu livro “Vem cá que eu te conto” (2010). Ela diz: “O ego vai te levar longe. E vai te deixar lá, sozinho”.
Que nunca nos falte bondade no coração para, ao menos, tentar fazer (e enxergar) o bem (e desinflar o ego, também).
Denise Sabino Villanova é doutorada em Literaturas Estrangeiras Modernas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Mestre em cultura britânica e em cultura francesa pela Universidade de Leibniz, Hannover, Alemanha. Escritora, palestrante e cronista de vários jornais.
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