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Interfaces relacionais insubstituíveis

| 17/04/2024

Sala de aula. Diálogo alunos professor

“O sucesso da introdução das interfaces digitais no processo de aprendizagem, cujo impulso ocorreu durante a pandemia, não depende tanto das ferramentas em si quanto depende da capacidade dos professores em construírem relacionamentos de proximidade com os alunos. As interfaces digitais só fazem sentido se estimularem o desenvolvimento das interfaces relacionais.” Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial) com prompt de Miguel Panão.

Numa típica sala de aula do século XVIII, repleta de jovens alunos mergulhados em cálculos e murmúrios, um desafio fora lançado pelo professor J.G. Büttner: somar todos os números de 1 a 100. A esperança de Büttner era a de ter um momento de paz ao propor aquela aborrecida e morosa tarefa. Enquanto rabiscos e contas se multiplicavam em folhas de papel, um dos rapazes, sentado discretamente ao fundo, observava os números com um olhar penetrante. Ele notou que se somasse 1+100 obtinha 101, e 2 com 99, também dava 101. Sem alarde, o rapaz percebeu haver uma simetria quase mágica na sequência numérica. E com uma rapidez que surpreendia a si mesmo, multiplicou 50, o número de pares, por 101, e antes que um murmúrio de frustração mais se ouvisse, declarou o resultado: 5050.

O silêncio tomou conta da sala. O professor, incrédulo, aproximou-se para verificar a audaciosa afirmação. A veracidade do resultado era inquestionável, mas a metodologia, essa sim, era revolucionária. Naquele momento, o jovem não só havia resolvido o problema de forma notável como também havia demonstrado um domínio intuitivo da matemática, deixando os seus colegas e professor estupefatos. Aquele jovem prodígio, que desvendava os mistérios dos números com uma facilidade estonteante, não era outro senão Carl Friedrich Gauss. Este episódio, mais do que um mero exercício de aritmética, revelava ao mundo a presença de uma mente brilhante, predestinada a redefinir os limites do conhecimento matemático. E se diante dele tivesse um ecrã de computador?

Existe a ideia de que a modernização do ensino nas escolas passa pela incursão das ferramentas digitais na redefinição do ambiente de aprendizagem nas nossas salas e do relacionamento entre educandos e educadores. Se um aluno inventar uma nova maneira de resolver o problema, o mais certo é ser criticado pelo professor que o obriga a resolver de acordo com o programa estabelecido pelo ministério. Aliás, em casa vivi uma situação dessas, de tal modo que um dos meus filhos ficou amedrontado quando lhe sugeri que falasse com a professora sobre a sua solução. Embora reconheça o valor de ferramentas digitais com o Wolfram Alpha que ajudam na compreensão da resolução de certos problemas, a massificação da digitalização do ensino poderá limitar a mente às limitações das próprias ferramentas.

O estudo do impacto das ferramentas digitais no desenvolvimento da criatividade é ainda incerto. Há dois anos, um grupo de investigadores dos EUA e da Coreia do Sul fizeram uma revisão sistemática de toda a investigação sobre o assunto. Muito embora as conclusões apontem no sentido positivo, os limites com que se confrontaram nos estudos existentes levaram-nos à conclusão da necessidade de melhores práticas de investigação sobre este assunto. Quer isso dizer que não existe ainda um suporte claro dos benefícios das ferramentas digitais no desenvolvimento da criatividade ao longo do processo de aprendizagem. Nesse sentido, por aquilo que pude escutar dos professores quando estive a dar uma palestra organizada pelo Departamento para a Presença da Igreja no Ensino da Arquidiocese de Braga, o sucesso da introdução das interfaces digitais no processo de aprendizagem, cujo impulso ocorreu durante a pandemia, não depende tanto das ferramentas em si quanto depende da capacidade dos professores em construírem relacionamentos de proximidade com os alunos. As interfaces digitais só fazem sentido se estimularem o desenvolvimento das interfaces relacionais.

Enquanto assegurarmos a liberdade de inventar soluções novas para velhos problemas, ou deixarmos que os alunos sintam terem descoberto algo que já foi revelado, estaremos a privilegiar a criatividade como um dos maiores efeitos das interfaces relacionais insubstituíveis. Por detrás do relacionamento evidente entre professor e aluno, uma interface relacional tem subjacente o relacionamento que se estabelece entre cada educando e a própria disciplina. Não é verdade que por detrás do gosto pela matemática desenvolvido pelos jovens está um professor ou professora que transmite paixão por essa linguagem?

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e  “de “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, FNAC). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

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