Cinema

Interiormente perturbador

| 20 Jan 2022

O Acontecimento, um filme político

 

Quase no início d’O Acontecimento, já depois de termos percebido que o filme iria andar à volta do corpo e do desejo, ao comentar um poema de amor de Raymond Aron, numa aula, Anne conclui que se trata de um texto político. Também esta obra cinematográfica, que nos expõe um caso de aborto clandestino – estamos em França, nos anos 60 –, é um filme político. É a própria realizadora quem o afirma, numa entrevista publicada no ípsilon (Público, 7 de Janeiro de 2022): “Acredito que o corpo da mulher é mais político do que o do homem.” 

Ou seja, o que Audrey Diwan pretende ao fazer este filme, mais do que mostrar argumentos contra ou a favor do aborto (ainda que seja clara a sua posição), é colar-nos à protagonista ao ponto de sofrermos com ela, de sentirmos em nós o sofrimento que a dilacera por dentro, de lutarmos com ela, desesperadamente, por uma liberdade sem concessões, até ao fim. Como se fôssemos nós a viver aquele acontecimento. E a realizadora consegue isso ao escolher o formato 4×3 para filmar. Diz ela: “Coloco o meu objecto no centro, ‘intencionalizo-o’, para levar o espectador comigo… nunca vemos as personagens secundárias a chegar, elas já estão no ecrã. E com esse enquadramento trabalho o sentimento de medo, algo paranoico, que se abate sobre as mulheres em todas as épocas” (ibidem). O político, mais uma vez.

É isto que está em causa no filme e que perturba profundamente. Mesmo para quem está sem hesitações do lado do valor inalienável e inegociável da vida, não pode deixar de se confrontar – e vacilar – diante daquela mulher sozinha, abandonada no seu drama por todos, até pelas amigas mais próximas, impossibilitada de o partilhar com quem talvez pudesse ajudá-la, remetida por isso ao silêncio mais pesado. 

Palavra que não sei como se sai deste dilema e deste filme. Arrisco apenas lembrar o episódio da mulher adúltera e da acção exemplar de Cristo. Por trás do pecado está a pecadora. Que tem o dever de seguir o seu caminho.

Audrey Diwan, que fez o filme adaptando o livro autobiográfico de Annie Ernaux com o mesmo título, constrói uma personagem forte, uma jovem mulher determinada, sem culpa, destemida, livre, que faz tudo para não desistir do seu sonho. É essa sua indómita vontade de ser livre que lhe dá força para aguentar todo o sofrimento e ficar de pé, afinal com a discreta ajuda de um amigo que tinha querido aproveitar-se da situação e de uma colega moralista que lhe tinha apontado o dedo.

É um filme complexo, que procura mostrar as muitas circunstâncias e questões que estavam presentes na realidade do aborto clandestino, quase sempre suportadas unicamente pela mulher. E que estão, ainda hoje, em tantos lugares. Por isso, a realizadora assume que foi um filme feito com raiva: “Raiva e desejo. E ambos são muito importantes. Fiquei com raiva ao ler o livro porque li o livro depois de eu própria fazer um aborto. Mas eu queria ler sobre isso. E descobri a enorme diferença entre o que eu passei e o que uma mulher teve que passar nos anos [19]60 em França”. E sublinha que o livro no qual se baseou para fazer o filme, é também uma viagem para a liberdade, falando muito sobre liberdade sexual, prazer feminino, vontade de estudar, de ter uma trajetória intelectual. “E eu tinha desejo por esse tipo de personagem em geral. Eu quero explorar o que é ser uma mulher na nossa sociedade. E uso a minha experiência muito íntima para escrever e fazer cinema.”

Trata-se, como se vê, de um olhar feminino, realista e sem moralismos. Político. “Acredito que há uma raiz política no íntimo. Que toda a decisão política é geralmente motivada por uma pulsão íntima inicial. Tenho a sensação que sempre que me interesso pelo íntimo vou chegar ao político”.

Saí da sala de cinema calado e perturbado, convencido como temos de ser bem mais cautelosos e cuidadosos quando falamos destas questões, indignado também com tantas opiniões ignorantes e fáceis. Nem que fosse só por isto, valia a pena ver o filme, para vermos aquela luta e aquele sofrimento e aprendermos a escutar antes de falar. Escolher num contexto de ilegalidade é muito difícil. Só a liberdade permite escolher. E é por ela que Anne vai lutar e ensinar-nos a lutar.

Não me atrevo a recomendar o filme, não é nada fácil de ver, por muitas razões. Apesar de brutal, chocante e violento, de expor o drama terrível de um aborto, ouso dizer que é um filme belo e sereno, apesar de todo o sofrimento e dor de Anne. Falo do caminho que ela teve de percorrer para lidar com o que lhe aconteceu no corpo.

“Era essa carnalidade que desejava. Mais do que contar uma história, queria que o filme fosse uma experiência”, disse a realizadora. Pois bem, que essa experiência nos provoque a falar das muitas questões que o filme coloca.

O Acontecimento, de Audrey Diwan
Título original: L’événement
Com Anamaria Vartolomei, Louise Chevillotte, Kacey Mottet Klein
Drama; M/16
Fra, 2021, Cores, 100 min.

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar). 

 

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