Interrogar a justeza e justiça dos modelos sociais

| 14 Jun 20

Será por vezes difícil entender isso de passar de estado de emergência a calamidade ou vice-versa. E até me dá urticária ouvir falar em confinados. Recuso-me a estar com finado ou com finados, antes desejo, procuro, quero estar com vivos. Mesmo no chamado Dia de Finados, prefiro pensar na festa dos vivos que por agora não vemos.

A situação difícil que hoje vamos atravessando tem, além dos malefícios já impressionantes da própria pandemia, efeitos colaterais mais do que indesejáveis, não só pelas misérias pessoais que, dia a dia, se vão acumulando ao ponto de desastrarem a vida a muita gente, mas também pelas consequências previsíveis, a curto e médio prazo, sobre as suas actuais condições de vida económica e social. Tornam-se por isso imperativas e urgentes as decisões e medidas políticas mais adequadas e eficazes ao desagravamento e tratamento possível dos casos de maior expressão, mais clara injustiça e maior necessidade.

Mas tais acções não podem nem devem fazer-nos esquecer que, por outro lado, a ameaça sanitária presente e as crises suas resultantes nos forçam a olhar mais pausadamente para as realidades com que deparamos e a interrogar-nos sobre elas, designadamente sobre a justeza e justiça dos modelos sociais, económicos e políticos que temos vindo a seguir, e nos quais depositamos – quiçá leviana ou exageradamente – esperanças de reconstrução. Afinal, todo este drama talvez nos traga também uma boa oportunidade de reflectirmos, com menos preconceitos ou preconceito nenhum, acerca de soluções, mais do que reparadoras ou de simples conserto, verdadeiramente redentoras e propiciadoras de metanoias novas a caminho de um mundo melhor que todos desejamos, como diria – e não só em Moçambique – Manuel Vieira Pinto.

Emocionamo-nos muito com o espectáculo de tantas misérias pessoais e sociais que as vagabundas notícias que todos os dias nos visitam vêm trazendo. Possa tal emoção mover-nos mesmo a uma atenção e um cuidado mais vivo e activo, mais solidário com todos aqueles que – sabe Deus desde quando – estão à nossa espera. E desejemos, com toda a nossa verdade, que tal movimento tenha nascente no íntimo do nosso coração.

Por isso, depois de termos passado festas como a Páscoa e o Pentecostes ou o mês do Ramadão, fecho este breve texto com uma oração composta por frei José Augusto Mourão, dominicano português, pela Festa da Páscoa de 2011. Encontrei nela um profundíssimo sentido da Eucaristia cristã, sobretudo neste tempo em que tantas celebrações nos estiveram vedadas em estilo clássico. O mesmo sentido que me atingiu, há uns anos já, ao ler o relato de outro confrade de frei José Augusto, o francês Serge de Beaurrecueil, quando era o único católico residente em Cabul (Afeganistão): todas as noites, ao celebrar, sozinho, a missa no seu eremitério de Cabul, frei Serge consagrava um naco do pão que, ao almoço desse dia, partilhara com os seus alunos e amigos afegãos e muçulmanos. Escreve frei José Augusto:

“nós te damos graças
por este dia, este lugar de trânsito,
esta mesa e este pão partido

ensina à nossa vida o dom,
a graça da partilha,
não a predação

nós to pedimos por Cristo,
o dom perfeito para todos
e pelo Espírito, o poço
da nossa comunhão no tempo”

 

Camilo Martins de Oliveira foi diplomata, docente universitário e tradutor; escreve no blogue Raiz e Utopia, do Centro Nacional de Cultura e é autor de “Fomos em Busca do Japão; considera-se próximo dos denominados “Vencidos do Catolicismo”, mantendo-se na comunhão visível da Igreja Católica ainda que anticlerical.

 

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