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Investigação internacional acedeu a documento secretos do Vaticano e revelou envolvimento do então cardeal Ratzinger. Foto Correctiv
Investigação internacional acedeu a documentos do Vaticano e revelou envolvimentos do então cardeal Ratzinger. Foto © Correctiv

Documentos inéditos

Investigação internacional revela que Vaticano encobriu ainda mais abusos do que se pensava

| 19/03/2026

Que a Igreja ocultou durante décadas casos de pedofilia no seu seio não é propriamente novidade. Mas “a responsabilidade do Vaticano pelos abusos sexuais é significativamente maior do que se pensava anteriormente” revela uma investigação internacional levada a cabo por cinco meios de comunicação – El País (Espanha), Boston Globe (EUA), Correctiv (Alemanha), Observador (Portugal) e Casa Macondo (Colômbia) – com base em documentos secretos nos arquivos do Dicastério para a Doutrina da Fé.

A investigação, conduzida ao longo dos últimos dois anos, baseia-se sobretudo em correspondência trocada entre o Vaticano e as dioceses de diferentes países, sobre múltiplos casos de abusos, sempre com o mesmo padrão: prática do abuso, ocultação por parte da hierarquia, uma solução “terapêutica” e reincidência do agressor.

Um desses casos é destacado pelo Observador na edição desta quinta-feira, 19 de março [artigo exclusivo a assinantes], por dizer respeito a um frade franciscano português. O religioso em causa abusou de uma criança de seis anos numa aldeia na zona de Torres Novas, em 1956. A denúncia chegou ao Vaticano no início da década de 1970 e levou à condenação do padre a uma pena que não terá sido mais do que simbólica: deixar de poder ouvir os fiéis em confissão.

Mas este frade nunca foi impedido de contactar com crianças. De resto, passou a viver num convento com colégio que era frequentado por dezenas de alunos menores. E, em 1991, até a “pena simbólica” lhe foi levantada, numa decisão tomada pelo cardeal Joseph Ratzinger, que viria mais tarde a tornar-se Papa Bento XVI.

No âmbito desta investigação, o jornal português teve acesso à carta assinada por Ratzinger que comprova como o Vaticano sabia, pelo menos desde 1972, deste caso, e que mostra como o levantamento da punição foi justificado com a “benignidade” da Santa Sé relativamente ao abusador.

Investigação internacional acedeu a documento secretos do Vaticano e revelou envolvimento do então cardeal Ratzinger. Foto © Mohamed AnwarCORRECTIV

A investigação, conduzida ao longo dos últimos dois anos, baseia-se sobretudo em correspondência trocada entre o Vaticano e as dioceses de diferentes países. Foto © Mohamed Anwar/CORRECTIV

O trabalho partiu da iniciativa do Correctiv, um meio de comunicação alemão sem fins lucrativos, no contexto da produção do documentário Akten des Missbrauchs (“Ficheiros de Abusos”), que estreará no final deste mês nos cinemas alemães e promete revelar um conjunto de documentos que demonstram como, ao longo das décadas, muito antes da explosão da crise dos abusos, o Vaticano foi
sistematicamente informado de múltiplos casos ocorridos em vários países do mundo. O documentário debruça-se particularmente sobre o papel do cardeal Ratzinger, então prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, na gestão desse tema.

A carta do futuro Papa acerca do caso do frade franciscano português, obtida pelo Observador, integra assim uma rede documental muito mais alargada, explorada no documentário: múltiplas missivas trocadas entre Roma e bispos de todo o mundo logo desde o início do século XX, mostram como, de forma sistemática, o Vaticano não só foi posto ao corrente de inúmeros casos de abuso sexual de menores, como os geriu diretamente, impondo ou levantando sanções a abusadores e orientando os bispos sobre o modo de conduzir os processos.

De acordo com o artigo publicado pelo El País, também parceiro desta investigação, os documentos deixam entrever outras informações relevantes, como por exemplo o facto de, no ano 1938, com a chegada dos nazis à Áustria, o Vaticano ter ordenado aos bispos que destruíssem os arquivos de padres pedófilos para que estes não caíssem nas mãos do regime de Hitler.

Os resultados desta investigação – que comprovam que o Vaticano sempre soube muito mais do que admitiu sobre casos de pedofilia dentro da Igreja – foram enviados ao Papa em agosto de 2025 e entregues pessoalmente em janeiro. Leão XIV ainda não respondeu.

 

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