Ir ao restaurante – direito a escolher

| 12 Jun 20

Quem escreve com regularidade procura estar atento ao mundo que o rodeia nas diversas áreas que o integram. Umas vezes, os estímulos são mais elaborados e menos acessíveis aos comuns mortais, que somos todos. Outras, são as simples ideias trocadas, em momentos mais ou menos frequentes e que, sobretudo, saem espontâneas e próximas da banalidade. As que emanam do coração e, sem filtro, se deixam partilhar, não medindo consequências nem impactos.
Não sei se a “alma jornalística” funciona assim, mas acredito que se alimente um pouco disto.

Vamos falar, pois, do que é comum.

Há uns dias, fui/ fomos, pela primeira vez, desde há meses, a um restaurante. É estranho, mas custa menos a aceitar e a integrar do que poderia pensar-se. Os empregados usam máscaras, sempre; os clientes também as usam, mas apenas quando se deslocam dentro da sala; estão mais distanciados, já que existem menos mesas (cerca de metade) e parece que não dá muito jeito que olhem de umas mesas para as outras. Enfim tudo mudou, mas cada um de nós procura fazer quase igual, dentro do género.

Voltando à observação. Nestes tempos recentes, apesar de não poder dizer-se que as conversas são monotemáticas, há assuntos que predominam e, numa análise de conteúdo grosseira, pode afirmar-se que estão relacionados com o que podemos, e não, fazer; onde podemos, e não, ir; com quem podemos, e não, estar; em suma o que devemos, e não devemos…

As decisões simples e, anteriormente, espontâneas, deram lugar a estratégias complexas; as iniciativas socializantes passaram a estar sujeitas a recriminação; os momentos partilhados deixaram, preferencialmente, espaço a ecrãs, que já são um hábito, mas nos estão a fazer perder a paciência; os mais novos estão assustados com os mais velhos, mesmo com aqueles a quem poderíamos chamar dignos representantes das gerações de 50 e de 60, considerando que se vão pondo em risco, porque querem conviver e estar uns com os outros.

Para os que, agora, têm 30 anos e filhos muito pequenos é quase ridículo ou, pelo menos, ameaçador, verem os seus pais com cinquenta e tal ou com sessenta e tal de idade, a quererem dar festas, simbolizar a vida, animar-se e animar. Eles estão com medo do medo que os pais não têm. Só conseguem dizer que não vão estar presentes, mas talvez sofram por não poderem proibir algumas iniciativas.

Não é fácil afirmar quem são os valentes aqui. Se os que querem estar juntos; se os que não arriscam aproximar-se. E, por tanto se estar a falar de medo, lembrei-me de um sacerdote jesuíta e psicoterapeuta, indiano, já falecido, que contou, entre muitos, um conto chamado “O Poder do Medo”. Dizia assim:

“A Peste dirigia-se para Damasco e passou velozmente junto à tenda do chefe de uma caravana no deserto.
– Aonde vais com tanta pressa – perguntou-lhe o chefe?
– A Damasco. Penso cobrar um milhar de vidas.
No regresso de Damasco a Peste passou, de novo, junto à caravana. Então o chefe disse-lhe:
– Eu já sei que cobraste 50 000 vidas. Não o milhar que havias dito.
– Não – respondeu-lhe a Peste – Eu só cobrei mil vidas. As restantes, levou-as o medo.”

Este poder dá mesmo que pensar.

A situação atual é muito complexa. É incerta, desconhecida e, no fim de tudo, o que queremos é dizer ou que nos digam coisas que nos provem que estamos (e os nossos) perante uma doença face à qual conseguimos proteger-nos. O que queremos é não ter razão para nos sentirmos ameaçados. O sentimento de impotência face à realidade e à própria vida aflige-nos e faz com que estejamos frequentemente a pensar no que não pensávamos antes; a sentir um medo que antes não tínhamos; a viver de uma forma que antes não vivíamos. Estas e outras tonalidades temperam-nos a existência com sabores bizarros que, certamente, preferiríamos nunca experimentar.

O equilíbrio entre proteção da saúde física e proteção da saúde mental é mesmo difícil de alcançar, mas temos de o tornar possível. Viver de forma gregária, estar com os outros que nos são agradáveis e queridos; partilhar momentos singelos, mas gratificantes faz falta a todos.

Temos mesmo o desafio de não deitar a perder tudo o que conquistámos com o confinamento, mas não podemos ficar dominados pelo medo. Entre este e a inconsciência há um lugar chamado ser prudente e é por este que faz sentido lutar, tornando tão claro quanto possível o que isso significa.

Temos, todos sem exceção, o desafio de ser conscientes e de nos ajudarmos mutuamente a descobrir o que isso é, clarificando o seu verdadeiro significado.

Precisamos de saber o que fazer com a incerteza. Incomoda-nos, é verdade. Agita-nos, é também verdade. Torna-nos ansiosos e, potencialmente, deprimidos, o que é ainda mais verdade. Mesmo assim, não podemos ceder a este invisível sentimento, já que vergarmo-nos a ele seria muito semelhante a sucumbirmos ao vírus que tudo isto motivou.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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